Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

O que é o 5G e como será a sua chegada ao Brasil

Por Amanda Ribeiro

10 de fevereiro de 2022, 17h48

Com promessa de mais velocidade, estabilidade e múltiplas conexões simultâneas, o sinal de telefonia móvel 5G deve chegar às capitais brasileiras em meados deste ano. Mas, há meses, a nova tecnologia é alvo de desinformação nas redes com alegações falsas de que pode aumentar casos de câncer e até de que chips para conexão são implantados com a vacina contra Covid-19.

Nada disso é verdade. O 5G é apenas a quinta geração da telefonia móvel, que começou de forma analógica, passou a ser digital com o 2G, a ter internet com o 3G e ganhou mais velocidade com o 4G. Agora, não é raro ouvir que o 5G vai “revolucionar” a experiência digital, com conexões 20 vezes mais rápidas e mais estáveis.

Em novembro do ano passado, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) fez um leilão para definir as empresas que vão operar essa próxima geração de comunicação móvel no Brasil. Os prazos de implantação começam em julho e se estendem até 2029. Aos Fatos consultou especialistas do setor de telecomunicações para responder aos principais questionamentos sobre o 5G e seu impacto no cotidiano:

1) O que é a tecnologia 5G?
2) Qual o impacto que ele pode trazer?
3) O 5G é perigoso para a saúde?
4) Posso adaptar o meu aparelho de 4G para receber o novo sinal?
5) Qual foi o resultado do leilão do 5G?
6) Quando a tecnologia estará disponível no Brasil?
7) O que está em jogo na disputa entre EUA e China sobre 5G?

1) O que é a tecnologia 5G?

Os sinais do 5G são transmitidos de antenas para os celulares por ondas de rádio, assim como ocorre nas quatro gerações anteriores de telefonia móvel. A diferença agora é que serão usadas faixas de frequências maiores, o que permite mais velocidade. Essas faixas são como "avenidas" por onde trafegam os dados e, com o 5G, novas pistas serão abertas.

É por isso que a tecnologia promete conexões pelo menos 20 vezes mais rápidas do que o 4G, com latência — tempo de resposta entre o dispositivo e o servidor de internet — menor e possibilidade de conexão de mais aparelhos simultaneamente à mesma rede. Enquanto o 4G permite conectar cerca de 10 mil dispositivos por quilômetro quadrado, o 5G amplia essa possibilidade para 1 milhão de dispositivos.

Essa tecnologia é diferente do 5G que tem sido oferecido há algum tempo por operadoras de telefonia. O 5G DSS tenta emular o 5G com a infraestrutura já disponível para o 4G e atinge velocidades de até 200 Mbps (megabits por segundo). Esse resultado está aquém do potencial de conexão da nova geração de internet móvel, o 5G “puro”, que tem velocidades até cinco vezes maiores, a partir de 1 Gbps (gigabit por segundo).

2) Qual o impacto que ele pode trazer?

Com conexões mais rápidas e mais estáveis, o 5G promete downloads mais velozes, acesso a transmissões em alta resolução, uso eficiente da realidade virtual para jogos, entre outros. Na Coreia do Sul, primeiro país a usar comercialmente a tecnologia, por exemplo, é possível assistir a um jogo de beisebol pelo celular com aplicativos que oferecem transmissões de mais de 40 câmeras no estádio e ter acesso a estatísticas como trajetória da bola e tempo de arremesso.

Além da velocidade e da estabilidade, a ampliação da capacidade de conectar dispositivos à mesma rede faz com que o 5G facilite a implementação de soluções de IoT (em português, Internet das Coisas). Eletrodomésticos, por exemplo, podem ser conectados à internet e ter funções automatizadas, a fechadura de uma casa pode ser controlada digitalmente, à distância, entre outras funcionalidades.

No plano industrial, soluções de IoT permitem a automação de processos produtivos e melhoram a transmissão de informações. Em fábricas da Volkswagen na Alemanha, a alta taxa de transferência de dados da rede tem sido usada para o carregamento mais rápido e sem fio de softwares nos veículos produzidos.

Além disso, segundo especialistas ouvidos pelo Aos Fatos, o 5G pode aprimorar o funcionamento de carros autônomos, o controle de pragas em lavouras com uso de drones e manutenções programadas em locais distantes ou de difícil acesso — como plataformas de petróleo ou barragens. Todas essas atividades dependem de conexões estáveis e com baixa latência (tempo de resposta), como a oferecida pelo 5G.

Na área da saúde, o projeto OpenCare 5G, desenvolvido pelo Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo) e parceiros, pretende usar o 5G para democratizar o atendimento em regiões mais afastadas. O programa prevê a realização de exames de ultrassom, ressonância magnética, radioterapia e pré-laudos de tomografia e raio-X em locais que não têm acesso a essas ferramentas de diagnóstico.

3) O 5G é perigoso para a saúde?

Publicações desinformativas que circulam nas redes sociais alegam que a nova tecnologia pode causar danos à saúde, como câncer, problemas pulmonares ou até mesmo Covid-19, mas não há qualquer evidência disso.

Por usar ondas eletromagnéticas mais curtas, o 5G precisa de uma quantidade de antenas cinco a dez vezes maior do que o 4G. A radiação emitida por essas antenas, no entanto, está abaixo dos limites internacionais de segurança definidos por órgãos como o Icnirp (Comissão Internacional de Proteção contra Radiação Não Ionizante) e a FDA (Food and Drug Administration, agência reguladora de medicamentos e alimentos dos EUA), que vão de 100 GHz a 300 GHz. O 5G leiloado no Brasil chega a frequências de no máximo 26 GHz.

Os aparelhos celulares também emitem um nível de radiação considerado seguro pelas autoridades. A OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta que não há evidência de que o 5G seja danoso à saúde. “Até o momento, e após muitas pesquisas, nenhum efeito adverso à saúde foi relacionado à exposição a tecnologias sem fio.”

4) Posso adaptar o meu aparelho de 4G para receber o novo sinal?

Não. Apenas aparelhos compatíveis com a tecnologia 5G poderão acessar a nova opção de conexão. Mas o seu uso também não será obrigatório, uma vez que as frequências de 3G e 4G permanecerão disponíveis.

Ao menos inicialmente, os planos de conexão 5G devem ser mais caros do que os demais serviços oferecidos hoje no país. “Toda tecnologia começa com um preço mais elevado, mas à medida que vai aumentando a escala de produção, vai diminuindo o preço”, afirma Marcos Ferrari, presidente da Conexis Brasil Digital, sindicato nacional das empresas de telefonia e de serviço móvel.

Nos Estados Unidos, onde a tecnologia já é comercializada, um plano 5G da operadora Verizon, uma das maiores do país, custa a partir de US$ 50 (cerca de R$ 265). A mensalidade é atualmente a mesma paga por um plano de 4G.

Enquanto se discute a implantação da nova tecnologia, dados da Anatel compilados pelo jornal O Globo mostram que 8,7 milhões de pessoas no Brasil não têm acesso à cobertura 4G. Elas estão distribuídas em 9.748 localidades, a maioria em cidades com menos de 30 mil habitantes.

5) Qual foi o resultado do leilão do 5G?

Realizado nos dias 4 e 5 de novembro do ano passado, o leilão do 5G no Brasil arrecadou R$ 46,8 bilhões com a concessão de frequências. Desse total, cerca de R$ 40 bilhões serão usados para investimento na instalação da tecnologia no país e na ampliação do acesso ao 4G.

De acordo com o edital da Anatel, as faixas de 700 MHz (vencida pela Winity) e 2,3 GHz (vencida por Claro, Brisanet, Vivo, Tim e Algar) deverão também ser usadas para a ampliação da cobertura 4G em localidades que ainda não dispõem da tecnologia. Já a faixa de 3,5 GHz, que será usada apenas para o 5G, foi dividida em lotes nacionais (vencidos por Claro, Vivo e Tim) e regionais (arrematados por Sercomtel, Brisanet, 5G Sul, Cloud2U e Algar).

As contrapartidas exigidas pela Anatel para as empresas que vão operar com 3,5 GHz preveem que elas arquem com os custos de migração do sinal da TV parabólica, que hoje ocupa a faixa. As vencedoras também devem construir uma rede privativa para a administração federal, instalar rede de fibra óptica via fluvial na região amazônica e levar fibra óptica ao interior do país.

A última faixa leiloada foi a de 26 GHz, que também será destinada apenas ao 5G. Ela garante velocidades mais rápidas e o menor tempo de latência entre as frequências leiloadas. Por isso, deve ser usada para transmissão de dados em larga escala e automação industrial. Os lotes nacionais foram vencidos por Claro, Vivo e Tim; os regionais, por Tim, Algar, Flylink e Neko. Nesse caso, a contrapartida é que as empresas instalem internet em escolas públicas.

6) Quando a tecnologia estará disponível no Brasil?

As operadoras têm até julho para começar a ofertar o serviço nas 27 capitais do Brasil. Nas cidades com mais de 500 mil habitantes, o edital do leilão determina que a tecnologia chegue até julho de 2025. Em cidades com mais de 200 mil habitantes, até julho de 2026, e nas com mais de 100 mil habitantes, até julho de 2027.

Por fim, na metade das cidades com mais de 30 mil habitantes, a determinação é que o 5G chegue até julho de 2028, e na outra metade, até julho de 2029.

7) O que está em jogo na disputa entre EUA e China sobre 5G?

A partir de 2019, por meio de um decreto de emergência assinado pelo então presidente Donald Trump, os Estados Unidos vetaram o uso de equipamentos de telecomunicação chineses, entre eles os da Huawei, uma das fabricantes que está na dianteira da tecnologia 5G.

O argumento dos americanos é que as empresas chinesas poderiam acessar a rede dos consumidores e se apossar de seus dados pessoais, o que é negado pelas companhias. O motivo seria uma lei de segurança aprovada na China em 2017 que supostamente permitiria que o governo exigisse dados das empresas de tecnologia caso fossem considerados importantes para a soberania do país.

Apesar de os EUA nunca terem apresentado provas de que as empresas chinesas poderiam acessar dados de usuários, outros países adotaram as mesmas restrições dos americanos. Estão entre eles Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido, França, Japão, Polônia, Romênia e Suécia.

Embora o Brasil tenha sido pressionado para promover restrições, não houve no edital do 5G qualquer veto à China. Para atender a um pedido do presidente Jair Bolsonaro, no entanto, o Ministério das Comunicações incluiu no documento a obrigação de construção de uma rede privativa de comunicação em Brasília, com equipamentos projetados, desenvolvidos, fabricados ou fornecidos por empresas com “padrões de governança corporativa compatíveis com os exigidos no mercado acionário brasileiro".

Referências:

1. Olhar Digital (Fontes 1, 2 e 3)
2. Embrapa
3. O Globo (Fontes 1, 2 e 3)
4. Korea Herald
5. Medium
6. Setor Automotivo
7. Health Care
8. Icnirp
9. FDA
10. OMS
11. Conexis
12. Verizon (Fontes 1 e 2)
13. UOL (Fontes 1 e 2)
14. Anatel
15. G1 (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9)

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