O que as declarações falsas de Bolsonaro revelam sobre sua estratégia de governo

Por Tai Nalon

14 de setembro de 2020, 13h00


No último sábado (12), o governo de Jair Bolsonaro completou 620 dias, dos quais 185 tomados por uma pandemia. Desde a posse, segundo levantamento do Aos Fatos, o presidente deu ao menos 1.648 declarações falsas ou distorcidas, sendo 653 delas sobre a crise de saúde. Isso significa que ele usou quase 40% de suas falas públicas, durante todo o seu mandato, estimulando condutas sanitárias inadequadas, subestimando a gravidade da Covid-19 e minando a credibilidade dos gestores da estrutura de Estado de que é líder.

Esse comportamento também é ilustrado pela investigação do Radar Aos Fatos publicada na última semana, segundo a qual, em seis meses de pandemia, Bolsonaro foi quem mais impulsionou apoio à cloroquina no Twitter brasileiro. A substância virou uma espécie de palavra-chave para o entendimento do que foram as campanhas de desinformação promovidas por membros do governo nas redes: até agosto, era um dos termos mais recorrentes em campanhas de desinformação monitoradas em tempo real pelo monitor do Radar Aos Fatos.

A tônica deste governo, aliás, pode ser resumida facilmente por meio das declarações falsas mais recorrentes proferidas pelo presidente. O clima de confronto sistemático contra adversários também se reconhece por meio de números: até a última sexta-feira (11), Bolsonaro havia imputado incorretamente a culpa pelas milhares de mortes por Covid-19 ao Supremo Tribunal Federal, aos governadores e aos prefeitos ao menos 53 vezes.

O descaso do governo com a saúde também pode ser medido em números: foram 34 as vezes em que Bolsonaro disse que a população só estará imune quando parte da população for infectada pelo novo coronavírus. Sem dados que subsidiem essa afirmação, o presidente aposta numa imunidade de rebanho cuja sustentação é uma incógnita: não se sabe por quanto tempo um indivíduo que desenvolveu a doença fica imune a ela.

Bolsonaro repetiu 25 vezes que sua equipe é técnica, sem indicação política, ainda que tenha, até agosto deste ano, incorporado à liderança do governo na Câmara o Centrão e, com ele, esteja negociando cargos em autarquias e estatais como o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), a Funasa (Fundação Nacional de Saúde), o Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas).

A trajetória negacionista do bolsonarismo também é sintetizada pela falsa narrativa de que não há corrupção no governo e que indígenas têm quantidade de terra desproporcional em relação ao restante da população. Em 20 oportunidades, Bolsonaro disse, falsamente, não haver escândalos de corrupção em seu governo. Ao menos 17 vezes Bolsonaro afirmou erroneamente que 14% do território nacional é de reservas indígenas.

O acompanhamento diário das declarações do presidente demonstra claramente que aquilo que Bolsonaro diz não é apenas diversionismo. Sua estratégia de governo se estrutura em função de temas que recorrentemente tenta negar. Há quem diga que Bolsonaro mente, mas fato mesmo é que ele faz da mentira política pública.


Esta análise foi originalmente veiculada na newsletter AF+ #46 em 11 de setembro de 2020 somente para apoiadores do Aos Fatos Mais. Para juntar-se ao grupo, contribua e garanta benefícios.