O fato de algumas cidades baianas terem mais eleitores registrados do que habitantes não prova que votos em nome de crianças e mortos estejam sendo contabilizados, diferentemente do que alegam posts. Não é possível registrar menores de 16 anos para votar e os títulos eleitorais de quem já morreu são cancelados mensalmente. Essa disparidade pode acontecer porque nem sempre o eleitor vota na mesma cidade onde mora.
Postagens com o conteúdo enganoso reuniam ao menos mil curtidas no Instagram até a tarde desta quinta-feira (13).
Bahia tem 23 municípios com mais eleitores do que habitantes, aponta levantamento do TSE. Até as criança, os defunto e tudo vota.

Publicações enganam ao dizer que 23 municípios baianos têm mais eleitores do que habitantes porque votos em nome de pessoas mortas e de menores de 16 anos estariam sendo contabilizados nessas cidades.
A disparidade entre os números se dá porque nem sempre o local de votação corresponde ao endereço onde o eleitor mora, de acordo com o TRE-BA (Tribunal Regional Eleitoral da Bahia). Isso pode acontecer por uma série de motivos, como quando uma pessoa se muda e não atualiza seu domicílio eleitoral.
Além disso, segundo a legislação, apenas maiores de 16 anos podem ter título de eleitor, o que impede que crianças se registrem para votar. Logo, não faria sentido que menores aparecessem nos números do eleitorado de uma cidade, como quer fazer crer a postagem checada.
Em relação a eleitores mortos, os cartórios de registro civil informam aos cartórios eleitorais, mensalmente, o número de óbitos ocorridos no mês anterior. Assim, o título de eleitor das pessoas falecidas é cancelado automaticamente.
“Caso a informação do óbito ainda não conste da base utilizada na eleição, a votação em nome de outra pessoa é coibida pelos procedimentos de identificação do eleitor na seção, que incluem a conferência de documento oficial com foto, dos dados cadastrais e, quando disponível, da biometria, além da fiscalização exercida pela mesa receptora”, disse o TRE-BA ao Aos Fatos.
A urna eletrônica também só permite votos de eleitores registrados naquela seção: se ele não estiver no Caderno de Votação, o próprio sistema impede o registro de voto.

Os posts distorcem uma reportagem publicada pelo jornal A Tarde em julho deste ano com base em um levantamento de dados da Agência Tatu, que levou em consideração o eleitorado de 2026 e as estimativas populacionais do IBGE de 2025.
Os dados mostram que 23 municípios baianos possuem mais eleitores do que habitantes. A maior parte são cidades com menos de 10 mil habitantes, com exceção de Jaborandi, Rio do Pires, Ipecaetá, Antônio Cardoso, Saubara e Salinas de Margarida.
A própria reportagem destaca que a disparidade não configuraria fraude: “o fenômeno não expressa, obrigatoriamente, uma irregularidade eleitoral. Municípios pequenos costumam perder população para centros urbanos maiores, e os cidadãos que se mudam nem sempre transferem o título de eleitor”, explica o texto.
“Outra parte da explicação reside no calendário e nas articulações políticas locais. Em cidades de pequeno porte, nas quais disputas para a prefeitura e câmaras municipais são decididas por poucas dezenas de votos, lideranças atuam ativamente para incentivar que eleitores com laços afetivos ou familiares mantenham ou transfiram seus domicílios eleitorais para o município”, completa.
As publicações omitem ainda que não é só a Bahia que essa situação é registrada: a Agência Tatu identificou 733 municípios brasileiros com mais eleitores do que habitantes.
Um boato semelhante circulou nas redes em 2020 e foi desmentido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Na época, além da explicação do domicílio eleitoral, o tribunal disse que a diferença pode ser fruto de estatísticas desatualizadas dos censos populacionais do IBGE.
O caminho da apuração
Aos Fatos entrou em contato com o TRE e com o TSE para explicar por que os cenários indicados pela peça de desinformação não são possíveis. A reportagem também foi atrás de explicações da Justiça Eleitoral sobre a identificação e a segurança dos eleitores.
Além disso, Aos Fatos procurou a reportagem original cujo título tem sido usado de maneira distorcida e identificou o levantamento que originou os dados.





