O negacionismo e seu legado de 700 mil mortes

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A pandemia de Covid-19 é, talvez, o caso mais evidente de como narrativas falsas produziram efeitos concretos — mensuráveis em políticas públicas, em decisões individuais e, no limite, em vidas perdidas. “O vírus e o poder”, terceiro episódio de Ctrl+Fake, parte dessa constatação para investigar como o negacionismo científico foi incorporado como estratégia institucional durante a maior crise sanitária do século 21.

Nos episódios anteriores, mostramos como narrativas falsas em larga escala se organizam e se espalham nas redes. Aqui, avançamos mais um passo: após narrar a ascensão de Jair Bolsonaro ao poder, contamos como, com sua intervenção, a desinformação se traduziu em política pública. A pandemia ofereceu as condições ideais para esse processo — com o endosso do Estado, a exploração da incerteza gerou uma demanda urgente por explicações simples, ainda que equivocadas. Nesse ambiente, a dúvida deixou de ser um efeito colateral e passou a ser usada como um recurso estratégico para sustentar narrativas alinhadas a interesses políticos e econômicos.

Um dos momentos que sintetizam essa dinâmica aparece logo na abertura, quando contrapomos a declaração da OMS que oficializa a pandemia à fala de Bolsonaro, que classifica a doença como “gripezinha”. A justaposição marca o início de uma disputa de versões em que evidências científicas passam a competir com declarações de autoridade. Pior: no Brasil, testemunhamos a captura da confiabilidade das estatísticas oficiais para servir a interesses externos à população e, no fim, à democracia. Ao longo do episódio, mostramos como esse padrão se repete: a minimização da crise, a promoção de tratamentos ineficazes e a manipulação de dados traduziram-se em políticas de governo.

Ao mesmo tempo, o episódio mostra como a pandemia acelerou processos que já estavam em curso, mas em uma escala difícil de prever. O isolamento social deslocou para as plataformas digitais atividades centrais da vida econômica e social: trabalho, consumo, educação, serviços financeiros e, claro, informação. Esse movimento ampliou a dependência de infraestruturas controladas por poucas empresas de tecnologia, que passaram a concentrar não apenas a mediação do debate público, mas também os fluxos de receita associados a ele.

Na prática, isso significou um ganho acelerado de poder econômico e político para essas plataformas. Com mais usuários e mais tempo de uso, seus sistemas de publicidade se tornaram ainda mais eficientes em reter atenção — inclusive por meio de conteúdos enganosos. O episódio recupera, por exemplo, como sites que propagavam desinformação sobre a Covid-19 conseguiram monetizar a audiência em larga escala por meio de anúncios programáticos, acumulando dezenas de milhões de acessos já nos primeiros meses da crise. Ao mesmo tempo, criadores individuais, como médicos que promoviam tratamentos ineficazes, passaram a operar como microempresas de conteúdo, explorando as mesmas engrenagens de distribuição e remuneração.

Não que isso não existisse antes, mas o que se forma, a partir de então, é um ecossistema em que a desinformação é estruturalmente incentivada e tratada como parte inevitável da paisagem digital. As plataformas removem parte desse conteúdo, mas mantêm intactos os mecanismos que o tornam lucrativo. Essa ambiguidade entre moderação e incentivo ajuda a explicar por que a desinformação persiste mesmo quando confrontada com evidências robustas.

O que tentamos demonstrar ao longo deste episódio é que o negacionismo é uma ferramenta eficiente para desorganizar consensos e fragilizar instituições. A pandemia torna esse mecanismo visível porque suas consequências são concretas e incontornáveis: pessoas morrem ou ficam irremediavelmente doentes. São mais de 700 mil óbitos só no Brasil. É discutível se um dia iremos nos recuperar desse período trágico da história.



Agora em áudio: os dois primeiros episódios de “Ctrl+Fake” estão disponíveis em formato de podcast nas principais plataformas do gênero, como Spotify, Deezer, Apple Podcasts e Amazon Music. Comece a ouvir agora.

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