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Nebulização com hidroxicloroquina é perigosa e não há evidência de que trate Covid-19

Por Priscila Pacheco e Luiz Fernando Menezes

26 de março de 2021, 13h15

Não há nenhuma evidência científica de que a nebulização com hidroxicloroquina possa tratar Covid-19, como já defendeu o presidente Jair Bolsonaro e como afirmam relatos nas redes sociais. Cientistas consultados pelo Aos Fatos e a SPPT (Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia) alertam que a inalação do comprimido diluído em soro fisiológico pode causar danos graves à saúde e piorar a situação dos pacientes com o novo coronavírus. O uso da hidroxicloroquina contra a infecção já foi condenado por estudos científicos sólidos e pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

No Brasil, a nebulização do remédio ganhou difusão nas redes sociais desde 19 de março, quando uma médica de Camaquã (RS) recebeu o apoio do presidente ao ser afastada do hospital onde trabalhava por aplicar o procedimento. Na última quarta-feira (24), o Estadão noticiou que três dos seus pacientes que receberam a nebulização morreram. Ainda que não seja possível atribuir as mortes à terapia, a conduta da médica foi denunciada ao Ministério Público, que deve apurar o caso

FALTA DE EVIDÊNCIAS

A sugestão de usar a nebulização de hidroxicloroquina aparece em um documento publicado pelo médico americano Vladimir Zelenko em janeiro de 2021. O texto, que tem sido citado por médicos que defendem o procedimento, é apenas um white paper, tipo de relatório ou guia explicativo, em que não é apresentado detalhes sobre como os dados são obtidos. Não trata-se de um estudo científico, pois não seguiu etapas para ter evidências sérias e confiáveis e também não foi revisado por outros cientistas para avaliar se há erros ou manipulações nos resultados.

Especialistas consultados pelo Aos Fatos foram enfáticos ao afirmar que, até o presente momento, não existe nenhum estudo que comprove a eficácia da nebulização do remédio no tratamento da Covid-19. Os artigos revisados e publicados sobre o tema abordam a administração do medicamento, que é indicado para tratar malária e lúpus, por via oral e atestaram que seu uso não traz benefícios contra a infecção pelo novo coronavírus.

Conforme já explicado pelo Aos Fatos, experiências pessoais e especulações não validam o potencial de um tratamento. Para que um remédio tenha sua eficácia comprovada, ele precisa passar por pesquisas com normas e regras metodológicas que vão certificar sua validade, segurança e benefícios no uso humano.

Gildo Girotto, pesquisador do Instituto de Química da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), afirma que só existem estudos sobre os efeitos da hidroxicloroquina aerossólica – usando apenas a substâncias concentrada e não o comprimido vendido em farmácias – em testes com células em laboratório. Como esse tipo de teste não assegura nenhuma segurança ou resultado em seres humanos, o próximo passo, seria estabelecer um protocolo e realizar testes em pessoas, como é feito com qualquer remédio.

“Não há estudos mínimos que sustentem o uso de hidroxicloroquina nebulizada [para o tratamento da Covid-19 em seres humanos]. Não conseguimos nem afirmar que faz bem ou que faz mal porque não existem estudos para tal”, explicou.

Felipe Ades, médico especialista em oncologia clínica pelo INCa (Instituto Nacional de Câncer), também aponta que sequer há evidências de que medicamentos dissolvidos e nebulizados possam ser administrados com segurança: “Quando a gente tem um medicamento que é feito para ser tomado via oral, ele tem uma série de substâncias na composição do comprimido, da cápsula, ou qualquer que seja, que são feitas para serem usadas por essa via especificamente”.

Posição semelhante é adotada por farmacêuticas produtoras da hidroxicloroquina. Contadas pelo Aos Fatos, tanto a EMS quanto a Apsen afirmaram que o medicamento é de uso oral e deve ser utilizado conforme as indicações da bula.

PERIGOS

Como alertou a SPPT (Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia), as substâncias de um comprimido fabricado para ser ingerido de forma oral podem causar problemas de saúde, principalmente pulmonares, se o remédio for dissolvido e usado por meio de nebulização. O comprimido da hidroxicloroquina, por exemplo, tem talco em sua composição. Essa substância, quando inalada, pode causar broncoespasmos ou até uma inflamação do pulmão, o que, por sua vez, pode agravar o quadro clínico dos pacientes com Covid-19.

Frederico Fernandes, médico e presidente da SPPT, afirmou ao Aos Fatos que a inalação de talco pode causar também uma doença chamada de talcose pulmonar, que é grave e pode levar a uma insuficiência respiratória crônica e, nos casos mais críticos, à necessidade de um transplante.

ORIGEM

A nebulização com hidroxicloroquina é defendida por Vladimir Zelenko, médico dos Estados Unidos que costuma ser citado por profissionais da saúde que acreditam na eficácia do procedimento. Em janeiro, Zelenko publicou um documento no qual diz que o medicamento inalado é capaz de reduzir a mortalidade e a transmissão da Covid-19. O médico relata que fez a nebulização em seus pacientes nos Estados Unidos e explica como deve ser administrado o medicamento por via aérea.

A publicação está disponível no site da University of Texas Rio Grande Valley e apresenta um tópico de isenção de responsabilidade no qual Zelenko diz que o documento é apenas para fins informativos de profissionais médicos.

Vale ressaltar que o documento é um white paper, tipo de relatório ou guia explicativo. Portanto, não passou por revisão para investigar presença de fraudes e erros e não foi publicado em nenhum periódico e, por isso, seus dados não podem ser tomados como evidências científicas.

Colaborou: Amanda Ribeiro

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)
2. Cochrane
3. Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia
4. Estadão (Fontes 1 e 2)
5. G1
6. Zero Hora
7. Stanford University
8. University of Texas Rio Grande Valley


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