Não há indícios de que José Dirceu alugou apartamento para hacker que atacou TSE

Por Marco Faustino

18 de agosto de 2021, 18h39

Não é verdade que o ex-ministro José Dirceu (PT), que chefiou a Casa Civil no governo Lula, alugou um apartamento para o "hacker invasor de sistemas do TSE" (Tribunal Superior Eleitoral), como sustentam posts (veja aqui). A origem da alegação enganosa é a distorção do fato de que Tal Prihar, um hacker israelense preso por venda de produtos ilícitos, morou, entre 2018 e 2019, na mesma casa de Brasília que o petista residiu até 2015. Porém, não há indícios que vinculem Prihar a Dirceu, como Aos Fatos constatou.

O conteúdo enganoso somava ao menos 6.100 compartilhamentos no Facebook nesta quarta-feira (18) e foi sinalizado como FALSO na ferramenta de verificação da plataforma (veja como funciona).


Por que o hacker invasor dos sistemas do TSE residia num apartamento alugado por José Dirceu? Quanto mais mexe, mais fede

Postagens nas redes enganam ao sustentar que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (PT) alugou apartamento para um hacker que teria invadido sistemas do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Não há qualquer indício ou prova que vincule o petista aos autores dos ataques à corte noticiados pela imprensa. Aos Fatos identificou ainda que esta alegação surgiu a partir da distorção de um fato sobre a prisão de um hacker israelense que viveu em Brasília até 2019 e que não tem relação com roubo de dados do TSE.

O hacker, chamado Tal Prihar, foi preso em maio de 2019 em uma operação conjunta da PF (Polícia Federal) e do FBI (Federal Bureau of Investigation, a polícia federal americana) em Paris, na França, sob a acusação de administrar um site que orientava sobre a compra de produtos ilícitos, como armas e drogas. Em março deste ano, ele se declarou culpado à Justiça dos EUA.

Entre 2018 e 2019, o israelense morou na mesma casa em que o ex-ministro residiu até 2015, em um condomínio de alto padrão no Lago Sul, em Brasília. Dirceu — que era locatário, não dono do imóvel — deixou a casa após ser preso pela PF no âmbito da 17ª fase da Operação Lava Jato. Ao sair da prisão, em 2017, ele se mudou para um apartamento na capital federal.

Após a prisão do israelense, o deputado estadual bolsonarista Fernando Francischini (PSL-PR) especulou, sem apresentar provas ou indícios, que a casa seria um elemento de ligação entre o hacker e Dirceu — o que nunca foi provado. É sobre essa suspeita que surgiu o boato atribuído a um suposto invasor de sistemas do TSE.

Outros ataques. Aos Fatos também verificou que não há indícios de que Dirceu tenha locado imóvel ou pagado o aluguel dos hackers suspeitos de divulgar ilegalmente dados administrativos e desestabilizar sistemas do TSE durante o primeiro turno das eleições municipais de 2020.

Em 28 de novembro de 2020, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão da Operação Exploit nas residências de suspeitos do ataque em São Paulo e Minas Gerais. No mesmo dia, um hacker apelidado de Zambrius foi preso em Portugal. O advogado de José Dirceu, Roberto Podval, negou ao Aos Fatos que o petista tivesse imóveis alugados nessas localidades na época.

Antes de ser preso, Zambrius disse à Sputnik Brasil e ao jornal Estado de S.Paulo que agiu sozinho e não houve pagamento ou pedido de brasileiros para que a ação ocorresse. Segundo ele, a intenção era revelar vulnerabilidades do TSE, sem motivações políticas. À época, a PF informou que não foram identificados quaisquer elementos que pudessem ter prejudicado a apuração, a segurança ou a integridade dos resultados da votação.

Em março, o hacker Marcos Roberto Correia da Silva, apelidado de Vandathegod, foi preso pela PF no âmbito da Operação Deepwater, que buscava identificar os responsáveis pelo vazamento de dados de 223 milhões de brasileiros oriundos de uma empresa privada ligada ao governo federal. Ele também foi investigado na Operação Exploit e chegou a dizer que obteve dados de eleitores durante o ataque de novembro — o que não é verdade.

Embora a PF não se manifeste sobre investigações em andamento nem dê nomes de investigados, Aos Fatos não encontrou registros na imprensa, em processos listados no site Jusbrasil ou nos documentos disponíveis no sistema Aptus, do MPF (Ministério Público Federal), de que Dirceu tenha sido envolvido nesses ataques contra o TSE.

Por fim, o inquérito sigiloso da Polícia Federal sobre ação de hackers contra o TSE em 2018, tornado público pelo presidente Jair Bolsonaro no início deste mês, também não traz qualquer menção a José Dirceu.

Acusações similares também não aparecem nas ações judiciais contra o ex-ministro. Dirceu foi condenado no STF (Supremo Tribunal Federal) pelo crime de corrupção ativa no julgamento do mensalão e no TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) (confira aqui e aqui) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava-Jato. Em março deste ano, o MPF pediu a condenação dele por lavagem de dinheiro em acusação de recebimento de propina envolvendo contratos da petroleira. Ele foi liberado da prisão em novembro de 2019.

Esta peça de desinformação também foi checada pelo Estadão Verifica.

Referências:

1. Justice.gov
2. O Antagonista
3. G1 (Fontes 1, 2 e 3)
4. Correio Braziliense
5. Twitter (Fontes 1 e 2)
6. Governo Federal (Fontes 1 e 2)
7. Tecmundo
8. Sputnik Brasil
9. Estado de SP
10. Estado de Minas
11. IG
12. Aos Fatos
13. Jusbrasil
14. Aptus
15. Gaúcha ZH (Fontes 1 e 2)
16. Poder 360

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