É falso que um vídeo mostra participantes de uma reunião da COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) tendo o rosto pintado durante um protesto indígena. A cena compartilhada nas redes foi registrada em maio do ano passado durante um seminário sem relação com a conferência das Nações Unidas que discutia a construção da ferrovia Ferrogrão na região do rio Tapajós.
O conteúdo enganoso foi enviado por leitores do Aos Fatos à Fátima, nossa robô checadora (fale com a Fátima). Publicações com o vídeo descontextualizado também acumulavam centenas de compartilhamentos no Facebook e de visualizações no TikTok até a tarde desta quarta-feira (19).
O cara não queria vir para o Brasil, foi para o lugar quente do caramba, pagou caro pra dormir e comer, tomou banho pra ir num centro de convenção alagado, cheirando urina, ar condicionado quebra, senta na frente pra tentar aproveitar alguma coisa e acontece isso. VIVA COP 30! O CARA NUNCA MAIS VOLTA.
![Print de vídeo publicado no Facebook mostra um indígena com adereços no corpo. Ele pinta o rosto de um homem sentado na plateia; esse homem é branco, tem cabelo curto grisalho e usa camisa social azul-clara. Outros participantes, alguns com cocares coloridos e celulares nas mãos, observam a cena ao fundo. Há um cartaz laranja na parede com o texto: ‘Os povos que residem no [...] Tapajós Ferrogrão NÃO’. No topo da publicação, aparecem os textos: ‘O cara não queria vir para o Brasil, foi para o lugar quente do caramba, pagou caro pra dormir e comer, tomou banho pra ir num centro de convenção alagado, cheirando urina, ar condicionado quebra, senta na frente pra tentar aproveitar alguma coisa e acontece isso…’ seguido de ‘VIVA COP 30! O CARA NUNCA MAIS VOLTA.](https://static.aosfatos.org/media/cke_uploads/2025/11/19/19-11-2025_indigenas_urucum_cop30_meio.png)
Posts nas redes têm compartilhado uma cena de um protesto indígena realizado em maio do ano passado para alegar que se trata de um registro da COP30, que ocorre em Belém. Por meio de busca reversa, Aos Fatos encontrou a gravação original, publicada no Instagram em 7 de maio de 2024 pelo comunicador indígena João Kumaruara.
A cena foi gravada no primeiro dia do Seminário Técnico sobre a Ferrogrão, promovido pelo Grupo de Trabalho do Ministério dos Transportes em Santarém (PA). A obra prevê a passagem de uma ferrovia pela região do rio Tapajós.
Na ocasião, a liderança indígena Naldinho Kumaruara, da aldeia Solimões, pintou o rosto de representantes do governo e de instituições para demonstrar a oposição dos povos originários à proposta.
Na época, a Aprosoja emitiu uma nota de repúdio sobre o episódio.
Concebida com o objetivo de escoar a produção de grãos brasileira do Mato Grosso ao Pará, a Ferrogrão deve afetar ao menos seis terras indígenas e 17 unidades de conservação, de acordo com levantamento feito pelo InfoAmazonia em parceria com O Joio e o Trigo.
Os povos originários e organizações ambientais apontam para possíveis problemas decorrentes da obra, que é apoiada pelo governo Lula, como o aumento do desmatamento, a redução da biodiversidade e o aumento da especulação imobiliária e da grilagem de terras.
O caminho da apuração
Aos Fatos fez uma busca reversa de imagem e constatou que a cena compartilhada nas redes foi originalmente publicada no Instagram em maio de 2024. A gravação ocorreu durante um seminário promovido pelo Ministério dos Transportes em Santarém — e não recentemente na COP30, em Belém.
Também foram consultadas reportagens publicadas pela imprensa sobre o caso da construção da ferrovia Ferrogrão para contextualizar a verificação.




