Em 2012, o autor francês Renaud Camus (não confundir com Albert Camus) escreveu o livro “Le Grand Remplacement” (“A Grande Substituição”, em francês), em que argumentava que o homem branco europeu estaria sendo “colonizado reversamente” por imigrantes pretos e pardos.
Essa teoria foi ganhando fôlego e seguidores na extrema direita, principalmente na Europa e nos EUA, que se colocam contra a imigração. Políticos como Viktor Orbán, da Hungria, e Giorgia Meloni, da Itália, já tiveram posições alinhadas a essa teoria conspiratória.
O movimento também ganhou força nos EUA: em 2017, por exemplo, o slogan “Vocês não vão nos substituir” apareceu em cartazes de protestos em Charlottesville, nos EUA. Já em 2019, um atirador no Texas tentou matar imigrantes latinos por medo da “invasão hispânica” no estado.
Tucker Carlson, um dos principais comentaristas da direita americana, já fez referência à Grande Substituição diversas vezes em seus programas e o próprio presidente Trump, durante a campanha, alimentou a teoria conspiratória ao insinuar que a imigração ilegal estaria sendo permitida no país para fraudar a eleição — mesmo que imigrantes não votem.
Na última semana, o assunto voltou à tona por causa do Chega, partido português de extrema direita. A sigla instalou um estande na feira de educação Futurália que dizia “Sorria, estamos a ser substituídos” (veja abaixo) e argumentava que a imigração estaria “descontrolada” no país.

Ironicamente, essa teoria emigrou para o Brasil e apareceu em publicações racistas (veja abaixo) e preconceituosas contra venezuelanos, por exemplo.

Os comentários dessas publicações são ainda mais criminosos: pessoas dizendo que o sonho das elites seria transformar a Europa em Brasil, porque população miscigenada seria “mais fácil de controlar”, que a imigração estaria “trazendo de volta a Idade da Pedra” e que os países caminham para se tornar um submundo desenvolvido ou uma “África 2.0”.
Antes de mais nada, vamos deixar duas coisas claras aqui:
- Essa teoria conspiratória nada mais é do que racismo e xenofobia;
- E se você é brasileiro, você não é branco, segundo essa mesma teoria.
Não existe evidência de que há uma elite suprema que queira substituir o homem branco. Não existe evidência de que estão em vigor planos para permitir a imigração ilegal e desenfreada. Não existe evidência de que querem forçar relacionamentos interraciais para miscigenar toda a população.
E não é nem questão de ter ou não evidência: a ideia de que o homem branco é mais inteligente ou superior a outras raças é mentira.
Esse tipo de movimento, nada mais é, do que uma tentativa de reciclar um racismo científico que já foi usado para justificar genocídios ao redor do mundo e de ir contra os direitos dos imigrantes e os acordos internacionais formalizados há anos, como o Pacto Global para a Migração Segura.
A própria ideia de que a imigração está desenfreada não se sustenta: segundo o último levantamento da OIM (Agência da ONU para a Imigração), havia 281 milhões de imigrantes internacionais em 2020, o que significa 3,6% da população mundial.
“A maioria dos migrantes internacionais se desloca por motivos relacionados a trabalho, família e estudo. Esses processos migratórios geralmente ocorrem sem representar grandes desafios para os próprios migrantes ou para os países em que entram. Em contrapartida, outras pessoas são forçadas a deixar seus lares e países por razões como conflitos, perseguição e desastres. As pessoas deslocadas através de fronteiras, como os refugiados, representam apenas uma pequena porcentagem do total de migrantes internacionais, mas são frequentemente as que mais precisam de assistência” - OIM.
Logo, a teoria conspiratória da Grande Substituição (ou qualquer uma de suas variantes, como “Genocídio Branco” ou “Guerra Demográfica”) nada mais é do que uma campanha sistemática de ódio para atacar pessoas vulneráveis.
As pessoas são livres para ir e vir, para se relacionarem com quem bem entenderem e para buscar ajuda em casos de necessidade.





