Não é verdade que uso de máscara reduz nível de oxigênio no sangue

Por Priscila Pacheco

29 de julho de 2020, 14h56


É falso que máscaras de proteção reduzem a oxigenação do sangue, como afirma um neurocirurgião em vídeo que circula nas redes sociais (veja aqui). Segundo especialista consultada pelo Aos Fatos, quando feito com material inadequado, como jeans, o equipamento provoca, no máximo, um desconforto respiratório. Na gravação, o médico também defende o uso da cloroquina e da azitromicina contra a Covid-19, mas não há evidências científicas que atestem a eficácia dos medicamentos contra a infecção.

Em resumo, o que checamos:

1. Não é verdade que máscaras de proteção reduzem a oxigenação do sangue após 20 minutos de uso. Especialistas afirmam que se isso ocorresse, profissionais que usam o equipamento rotineiramente por longos períodos passariam mal ou teriam lesões provocadas por hipóxia crônica;

2. Também é falso que apenas pessoas com sistema imunológico sensível devem usar a proteção. As máscaras são indicadas pelo Ministério da Saúde e pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para todos como forma de evitar tanto a propagação do novo coronavírus como o contato com ele;

3. Não há evidências científicas que provem que a hidroxicloroquina e a azitromicina sejam eficazes para curar Covid-19. O primeiro medicamento, inclusive, foi excluído dos testes científicos conduzidos pela OMS pela falta de resultados positivos. O segundo é um antibiótico e, por isso, tem efeito apenas em bactérias, não em vírus;

4. Segundo dados genéticos analisados por pesquisadores, é improvável que o vírus Sars-CoV-2, que causa da Covid-19, tenha surgido em manipulação laboratorial. Os estudos feitos mostram que houve mutação natural do vírus em um hospedeiro animal ou já em humanos.

Difundido por perfis sociais no Facebook, o vídeo reunia ao menos 89.000 compartilhamentos na tarde desta quarta-feira (29). Todas as publicações foram marcados com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).


FALSO

Se antes de a gente colocar a máscara, a gente fizer uma oximetria, vai saturar 92. Vinte minutos de máscara, volta e faz a oximetria, você vai estar com 86.

Em vídeo que circula nas redes sociais, o neurocirurgião Nelson Freire afirma que máscaras de proteção reduzem a oxigenação do sangue mesmo quando usadas por apenas 20 minutos. Segundo especialistas consultados pelo Aos Fatos, isso não é verdade.

O médico Carlos R. Zárate-Bladés, pesquisador do laboratório de imunorregulação da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) sustenta que, se a oxigenação no corpo humano diminuísse conforme o tempo de uso da máscara, profissionais que usam o equipamento rotineiramente por longos períodos passariam mal ou teriam lesões provocadas por hipóxia crônica. Caso que não ocorre, por exemplo, com pesquisadores em laboratórios, trabalhadores de indústrias farmacêuticas e de alimentos, e com médicos e enfermeiras quando trabalham em salas de cirurgia.

Em outra checagem feita pelo Aos Fatos sobre a diminuição de oxigênio no sangue devido ao uso prolongado do equipamento, a infectologista da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Raquel Stucchi explicou que o uso contínuo de máscaras produzidas com materiais inadequados, como jeans, poderia causar, no máximo, um desconforto respiratório, mas nada grave como hipóxia, insuficiência de oxigênio que compromete funções corporais. O mais indicado é que máscaras caseiras sejam feitas com tecido de algodão e com camada dupla para agir como filtro ao mesmo tempo em que permite a respiração.

FALSO

Máscara deve usar quem é imunocompetente – ou seja, quem não tem o sistema de defesa organizado.

O médico que aparece no vídeo defende que a máscara de proteção deve ser usada apenas por quem possui o sistema imunológico sensível. No entanto, a OMS (Organização Mundial da Saúde) afirma que o equipamento deve ser usado inclusive por pessoas saudáveis em locais públicos de regiões onde há transmissão comunitária do novo coronavírus, como no Brasil. O uso também é importante em ambientes onde não é possível manter a distância de pelo menos um metro entre uma pessoa e outra.

Segundo a organização, há evidências de que mesmo sem apresentar sintomas, uma pessoa infectada por transmitir o vírus e a máscara serve como uma barreira que limita a propagação de gotículas infecciosas.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda o uso da proteção desde abril. À época, a pasta justificou que "utilização de máscaras caseiras impede a disseminação de gotículas expelidas do nariz ou da boca do usuário no ambiente, garantindo uma barreira física que vem auxiliando na mudança de comportamento da população e diminuição de casos”.

FALSO

O presidente já deu o tratamento: hidroxicloroquina, o quinino. Aí a Azitromicina. Taí a cura.

Nelson Freire também diz que a cura da Covid-19 está no tratamento com hidroxicloroquina e azitromicina, como recomendado pelo presidente Jair Bolsonaro. Entretanto, a OMS afirma que ainda não há medicamento que sirva para curar ou combater a doença. A hidroxicloroquina, inclusive, foi retirada do Solidarity Trial, programa de pesquisas com remédios que a OMS coordena com 21 países, por ter apresentado pouca ou nenhuma redução na mortalidade de pacientes com Covid-19 hospitalizados. A droga também não apresentou resultados satisfatórios em outras pesquisas.

A azitromicina, associada ao difosfato de cloroquina ou sulfato de hidroxicloroquina, faz parte do protocolo recomendado hoje pelo Ministério da Saúde para uso precoce, mas os resultados da combinação dos fármacos também são preliminares e não apontam eficácia. Além disso, a azitromicina é um antibiótico, medicamento recomendado para infecções por bactérias, não vírus.

Em checagem anterior do Aos Fatos, o médico infectologista Gerson Salvador explicou que a azitromicina pode ser prescrita quando há uma infecção bacteriana associada à Covid-19: “nos casos graves de Covid-19, eventualmente, pode ter uma pneumonia bacteriana, além da pneumonia viral. A partir da avaliação clínica e radiológica pode-se prescrever a azitromicina e até outros antibióticos para tratar a pneumonia bacteriana”.

FALSO

O Covid é um vírus tipo RNA, feito em laboratório pela China, todo mundo sabe disso.

Por fim, o médico também cita que o Sars-CoV-2, vírus que causa a Covid-19, foi criado em laboratório por chineses, algo que é refutado pela ciência. Em março, pesquisadores explicaram em um artigo publicado pela revista Nature que os dados genéticos analisados mostram que é improvável que o Sars-CoV-2 tenha surgido em manipulação laboratorial. Segundo os autores, houve mutação natural em um hospedeiro animal ou já em humanos após transferência zoonótica.

Nelson Freire. O médico é natural do Rio Grande do Norte, mas tem CRM regular como neurocirurgião no Distrito Federal. Em maio, o juiz Giordano Costa, da 4ª Vara Cível de Brasília, determinou que Freire retirasse de suas redes sociais postagens com ofensas à governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT). Aos Fatos entrou em contato para que ele pudesse comentar a checagem do vídeo sobre Covid-19, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)
2. OMS (Fontes 1, 2, 3 e 4)
3. Ministério da Saúde (Fontes 1, 2 e 3)
4. Nejm
5. Fiocruz
6. Nature
7. Veja
8. CRM


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