Não é verdade que Covid-19 pode ser tratada com antibióticos

Por Luiz Fernando Menezes

7 de maio de 2020, 19h22


Publicações que circulam nas redes sociais reúnem uma série de informações falsas para sustentar que o protocolo médico aplicado hoje a casos graves de Covid-19 está errado (veja aqui) e que a doença pode ser tratada em casa, com o uso de antibióticos. Contrariando pesquisas e recomendações de OMS (Organização Mundial da Saúde), Ministério da Saúde, autoridades sanitárias internacionais e entidades médicas, a peça de desinformação afirma ainda, sem provas, que a ventilação mecânica invasiva estaria matando os pacientes graves.

Em português, posts com este conteúdo enganoso no Facebook reuniam ao menos 10 mil compartilhamentos nesta quinta-feira (7) e foram marcados com o selo FALSO na ferramenta de verificação disponibilizada pela rede social (saiba como funciona). O argumento falso, porém, não surgiu no Brasil e circula também em espanhol desde meados de abril.


FALSO

Não é verdade que o correto tratamento da Covid-19 deve ser feito com uso de antibióticos, como sustentam publicações que circulam nas redes sociais e que contrariam pesquisas e protocolos médicos nacionais e internacionais. O texto que acompanha as postagens engana ainda ao classificar a hidroxicloroquina como antibiótico — o medicamento, na verdade, é um antimalárico. Também não podem ser comprovadas as alegações que o uso de ventilação mecânica invasiva é o que tem causado as mortes pela doença do novo coronavírus no mundo.

Antibióticos. A alegação da peça de desinformação de que o tratamento da Covid-19 deveria ser feito com antibióticos é negada pela OMS (Organização Mundial da Saúde): “o novo coronavírus é um vírus, portanto, antibióticos não devem ser utilizados como meio de prevenção ou tratamento”, uma vez que são remédios que combatem bactérias.

Ao Aos Fatos, o Ministério da Saúde disse que são recomendados atualmente para o tratamento de sintomas da Covid-19 antipiréticos (antitérmicos), analgésicos, expectorantes e antieméticos (remédio contra vômitos), desde que haja indicação clínica, e sempre respeitando o quadro do paciente e as contraindicações adjacentes.

A peça de desinformação engana, ainda, ao afirmar que a hidroxicloroquina seria um antibiótico. Segundo Gildo Girotto, pesquisador do Instituto de Química da Unicamp, antibióticos são os medicamentos que combatem fungos e bactérias. Já a hidoxicloroquina é “um medicamento antimalárico, em seu uso principal. Mas também é usado para outras doenças causadas por amebas (antiamebiano)”.

Trombose. Ainda que médicos e cientistas considerem hoje os tromboembolismos venoso e pulmonar entre as complicações da Covid-19, eles não são as únicas, como sustentam as postagens checadas.

Pesquisadores que publicaram um artigo na Thrombosis Research em 10 de abril encontraram grande incidência de complicações trombóticas ao analisar 184 pacientes internados em UTIs na Holanda. De acordo com os pesquisadores, o dado “reforça a recomendação de aplicar medidas de prevenção da trombose em todos os pacientes com Covid-19 admitidos na UTI”, ou seja, nos casos mais graves. Não há indicação de que os anticoagulantes, portanto, seriam um tratamento específico para combater a infecção propriamente dita, mas uma de suas complicações.

Um artigo na Medical News Today que revisa estudos publicados pela revista científica Radiology sobre o tema aponta que uma proporção significativa de pacientes com Covid-19 grave mostra sinais de coágulos sanguíneos, que podem levar a complicações com risco de vida, como trombose e embolia pulmonar. Nenhum dos estudos, no entanto, indica antibióticos para o tratamento, mas terapias anticoagulantes.

Há, inclusive, pesquisas sobre tratamentos por meio de anticoagulantes sendo feitas por cientistas brasileiros. Profissionais do Hospital Sírio Libanês, por exemplo, estão verificando a eficácia do anticoagulante heparina em quadros de coagulação intravascular e tromboembolismo venoso.

Ventiladores. O uso da ventilação mecânica invasiva é um procedimento médico que ajuda pacientes com função pulmonar comprometida a respirar. A intubação endotraqueal no tratamento da Covid-19 está prevista nos protocolos do Ministério da Saúde e da OMS em casos graves da doença, quando não há alívio dos sintomas ou o estado do paciente piora após opções de ventilação mecânica não invasiva.

Ao sustentar que o uso da ventilação teria levado à morte 90% dos pacientes de Covid-19, a peça de desinformação parece remeter, de maneira completamente distorcida, a uma pesquisa que ainda estava em desenvolvimento quando foi publicada no periódico científico JAMA (Journal of the American Medical Association) em 22 de abril. O estudo, feito com pacientes que tiveram alta ou morreram em um sistema hospitalar de Nova York, concluiu inicialmente que 88% dos que receberam a ventilação mecânica acabaram morrendo.

Além de a pesquisa não considerar as pessoas que ainda se encontravam em tratamento, as taxas foram posteriormente corrigidas para 76,4% na faixa etária de 18 a 65 anos e 97,2% para os acima de 65 anos. Os pesquisadores também fizeram a ressalva de que “estudo de longo prazo pode encontrar taxas de mortalidade diferentes à medida que diferentes segmentos da população estão infectados”.

Como representa apenas um universo específico, os resultados da pesquisa também não podem ser considerados como regra para o restante da população, como argumenta a peça de desinformação.

Versões semelhantes da desinformação circularam em espanhol em meados de abril, tendo sido checadas por La Silla Vacía, Animal Politico e Newtral.

Referências:

1. Ministério da Saúde
2. OMS (Fontes 1 e 2)
3. Journal of the American Medical Association
4. Politifact
5. Best Practice
6. NCBI
7. Medical News Today
8. Estadão