Não é verdade que assintomáticos da Covid-19 transmitem anticorpos a outras pessoas

Por Luiz Fernando Menezes

17 de julho de 2020, 20h14


É falso que infectados com o novo coronavírus que não desenvolveram sintomas transmitem anticorpos para outras pessoas, como afirma um texto disseminado nas redes sociais (veja aqui). Especialistas ouvidos por Aos Fatos afirmam que não há como uma pessoa passar sua imunidade a outra e pesquisas apontam que assintomáticos ajudam a espalhar o novo coronavírus.

Além disso o texto engana ao sugerir que pessoas saudáveis seriam imunes ao vírus. Os dados disponíveis até o momento indicam a existência de casos graves e mortes também entre jovens e sem comorbidades.

O texto com as falsas alegações circulou primeiro em língua espanhola no começo de julho. No Brasil, ela foi compartilhada no WhatsApp e no Facebook, reunindo centenas de compartilhamentos nessa última rede social. Todas as publicações foram marcados com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).


FALSO

Essa pessoa [assintomática] não transmite o vírus, mas comunica anticorpos para outras pessoas e gera imunidade em massa.

Não é verdade que assintomáticos da Covid-19 não propagam a doença nem que são capazes de transmitir anticorpos para outras pessoas. Tais alegações ignoram que não é possível transmitir imunidade e que a OMS (Organização Mundial da Saúde) e especialistas já indicaram o potencial de contágio dos infectados sem sintomas da doença.

Segundo o médico do HU-USP (Hospital Universitário de São Paulo) Márcio Sommer Bittencourt, “não se transmite imunidade de uma pessoa para a outra. Imunidade é a capacidade do seu corpo produzir anticorpos quando você precisa”.

O virologista da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) Eduardo Flores concorda e afirma que a única maneira possível de se transmitir anticorpos seria durante a gestação, quando a mãe acabaria imunizando o filho.

Dessa maneira, diferentemente do que afirma a peça de desinformação, a circulação de pacientes assintomáticos não tem a ver com imunidade coletiva, ou “imunidade de rebanho”. Segundo Bittencourt e o epidemiologista da USP Otávio Ranzani em artigo na Agência Bori, o conceito é usado em programas de vacinação para se referir a um valor acima do qual os não imunizados têm proteção indireta, levando ao controle da doença. A lógica é que, depois que uma grande parcela da população já foi infectada e produziu anticorpos, quem não teve a doença tem menos chance de ter contato com o vírus.

Ainda segundo os pesquisadores, não se sabe qual a porcentagem necessária para que a população ficasse protegida da Covid-19, mas alguns estudos recentes indicam que ela estaria entre 30% e 50%. No entanto, a maioria das cidades brasileiras hoje não registra nem 10% de infectados pela doença.

Além disso, o conceito de imunidade de rebanho está relacionado à taxa de transmissão do SarS-Cov-2: medidas de distanciamento, por exemplo, fazem com que o valor para atingir essa proteção seja menor por diminuírem o potencial de transmissão do vírus.

Sintomas. No começo de junho, integrantes da diretoria da OMS explicaram que os assintomáticos transmitem o vírus, mas que ainda não há estimativas do potencial disseminador dessas pessoas. Michael Ryan, diretor de emergência da entidade, por exemplo, disse em no dia 9 de junho que “estamos absolutamente convencidos de que a transmissão por casos assintomáticos está ocorrendo. A questão é saber quanto”.

Um estudo de pesquisadores australianos sobre o tema (ainda não revisado) estimou que pacientes assintomáticos representam entre 6% e 41% do total de infectados pelo Sars-Cov-2. Ou seja, os cientistas acreditam que a transmissão ocorre, mas ainda não sabem exatamente qual o potencial de disseminação do vírus por um assintomático. De qualquer forma, há provas de que pelo menos pré-sintomáticos (pessoas que ainda não apresentaram os sintomas, mas vão desenvolvê-los) podem transmitir a doença.


FALSO

Não precisamos de máscaras, luvas ou distâncias, vacinas muito menos alteradas, o que precisamos é fortalecer nosso sistema imunológico, para que ele gere anticorpos naturais contra qualquer vírus.

O texto também desinforma ao sugerir que as pessoas não deveriam utilizar equipamentos de proteção, como luvas e máscaras, ou aderir ao distanciamento social, uma vez que o necessário para combater a doença seria o próprio sistema imunológico. A afirmação desconsidera que pessoas saudáveis e sem comorbidades também podem adoecer e até morrer em decorrência da infecção. Além disso, esses indivíduos podem agir como vetores de transmissão.

O sistema imunológico do corpo humano possui uma resposta adaptativa ao novo coronavírus: após ser infectado, esse sistema produz anticorpos contra o microorganismo invasor para tentar neutralizá-lo e também as chamadas células T, que atacam as células infectadas. Isso significa que só há produção natural de imunidade após a infecção.

O problema é que essa resposta pode levar vários dias para ocorrer. Em artigo, a OMS explica que o desenvolvimento natural da imunidade a uma infecção leva geralmente de uma a duas semanas. Além disso, conforme afirma a organização, “não há evidência que pessoas que se recuperaram da Covid-19 e possuem anticorpos estão protegidas de uma segunda infecção”.

Essa resposta imunológica é diferente em cada indivíduo e não há garantias de que todas as pessoas saudáveis podem se expor ao vírus. Conforme explicou Eduardo Flores ao Aos Fatos, por mais que esses indivíduos sejam mais resistentes, há registros de pessoas jovens e sem comorbidades que tiveram casos graves da doença e outros que morreram em decorrência da infecção. O governo do estado de São Paulo, por exemplo, que divulga os dados por presença ou não de comorbidade, aponta que, até o dia 15 de julho, 703 pessoas saudáveis de 0 a 49 anos morreram em decorrência da doença.

Dessa maneira, utilizar equipamentos de proteção, como as máscaras, e manter o distanciamento social ajuda a conter a disseminação do vírus e evitar que pessoas mais vulneráveis, como idosos e pessoas com condições prévias de saúde, sejam infectadas.

Isso não significa, no entanto, que uma alimentação saudável não seja importante durante a pandemia. Segundo o Ministério da Saúde e a OMS, uma boa nutrição garante o funcionamento adequado do corpo e previne outras doenças que podem aumentar o risco de agravamento da infecção pelo novo coronavírus, como diabetes, hipertensão e obesidade.


Essa mesma corrente circulou também em língua espanhola no começo de julho, quando foi desmentida pela equipe do Maldita Ciência. No Brasil. a AFP Checamos também desmentiu a peça de desinformação.

Referências:

1. Agência Bori
2. Instituto Butantan
3. OMS (Fontes 1, 2, 3 e 4)
4. MedXRiv
5. CDC
6. BBC Brasil
7. Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo