Não é verdade que o clima do Irã esteja sendo controlado pelos governos dos Estados Unidos e de Israel, como afirmam teorias conspiratórias que circulam nas redes. As publicações distorcem o uso de tecnologias reais, como a semeadura de nuvens, para atribuir fenômenos comuns no país a supostos programas de guerra dedicados à manipulação climática.
Publicações com o conteúdo conspiratório acumulavam cerca de 11 mil curtidas no Instagram e 2.500 visualizações no Telegram até a tarde desta quinta-feira (30).
Porém, nos últimos dias deu-se o "milagre", que não foi obra de Alá. Foi obra dos bombardeios de mísseis iranianos sobre as instalações de radares dos EUA, revidando ataques da guerra EUA/Iraque. Os cientistas "de ponta" iranianos, quando viram a água reaparecer, magicamente, aos borbotões, pesquisaram e descobriram que não eram fenômenos climáticos, era a "guerra climática" dos EUA.

Publicações nas redes enganam ao dizer que Estados Unidos e Israel estariam manipulando o clima do Irã como uma “arma de guerra”. As peças desinformativas alegam, sem provas, que secas, chuvas intensas e até a neve no país seriam resultado de tecnologias secretas de controle climático.
A teoria da conspiração ganhou força após uma publicação da embaixada do Irã no Afeganistão, posteriormente apagada. Segundo veículos do Oriente Médio, o post dizia:
"Depois que o Irã destruiu o centro secreto de mudanças climáticas dos Emirados Árabes Unidos, os padrões climáticos da região mudaram completamente. O Iraque e o Irã agora estão enfrentando chuvas intensas semanais e uma queda de 5 graus na temperatura."
Programa climático secreto? Os Emirados Árabes Unidos, parceiros estratégicos dos EUA no Oriente Médio, de fato mantém um centro de pesquisa voltado à indução de chuvas, chamado Programa de Pesquisa dos Emirados Árabes Unidos para a Ciência de Aumento de Chuva (UAEREP).
No entanto, o projeto não é secreto nem tem capacidade de controlar o clima regional, como sugerem as publicações checadas. O programa existe desde os anos 1990 e financia pesquisas sobre técnicas de aumento de precipitação de chuva em diversos locais do mundo, além de realizar operações de semeadura de nuvens no país.
Também não há qualquer evidência de que o centro tenha sido alvo de ataque iraniano. Aos Fatos não encontrou registros na imprensa internacional ou nos canais oficiais dos Emirados sobre um bombardeio ao local. A redes sociais da UAEREP, atualizadas regularmente nas últimas semanas, também não mencionam qualquer incidente do tipo.
O que é a semeadura de nuvens? No centro das teorias está uma tecnologia real chamada de semeadura de nuvens. Desenvolvida em meados do século XX, a técnica consiste em lançar partículas, como iodeto de prata ou sal, em nuvens que já têm potencial de chuva, com o objetivo de estimular a precipitação.
Contudo, os efeitos da técnica são limitados, localizados e imprevisíveis. A semeadura de nuvens não consegue criar nuvens do zero, redirecionar tempestades entre países ou controlar sistemas climáticos inteiros. O próprio Irã, inclusive, deu início a um programa de semeadura de nuvens em novembro de 2025.

Uma década sem chuvas? Outra alegação enganosa afirma que o Irã teria passado mais de dez anos sem chuvas e que as precipitações recentes seriam resultado da destruição de estruturas dos Estados Unidos e Israel que manipulavam o clima no país.
Embora o país de fato enfrente longos períodos de seca, isso não significa ausência total de chuvas. Nos últimos anos, o Irã registrou episódios de enchentes e transbordamentos de rios de 2022 a 2025. Dados meteorológicos mostram que houve precipitações recorrentes ao longo da última década.
Além disso, organizações climáticas já haviam emitido previsões alertando para chuvas moderadas a intensas no noroeste e oeste do Irã em abril, com risco de enchentes e deslizamentos.

Algumas publicações afirmam ainda que a presença de neve em cidades iranianas seria prova de interferência no clima, mas nevascas são fenômenos comuns em diversas regiões do país — especialmente em áreas montanhosas e durante o inverno.
Armas HAARP? Outra teoria conspiratória compartilhada nas redes afirma que os períodos de chuva e seca no Irã seriam causados por “ondas HAARP”, tecnologia que transmite ondas de rádio e que é frequentemente associada a desinformação sobre manipulação do clima.
Só que as ondas HAARP não são capazes de manipular o clima ou de enviar um grande volume de chuvas a determinados locais do globo. O projeto, na verdade, foi iniciado na década de 1990 na Universidade do Alasca para estudar o comportamento das ondas eletromagnéticas.
“As ondas de rádio nos intervalos de frequência que são transmitidas pelo Haarp não são absorvidas nem pela troposfera ou pela estratosfera — dois níveis da atmosfera responsáveis pelo o clima na Terra. Como não há interação, não há como controlarmos o clima”, diz o projeto em seu site oficial, que desmente diferentes teorias conspiratórias.
Essa mesma teoria sobre as ondas HAARP também foi usada por conspiracionistas para justificar as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024.
O que está por trás das chuvas? Eventos como as chuvas intensas registradas recentemente no Irã fazem parte da variabilidade natural do clima, mas estão sendo intensificados pelas mudanças climáticas.
José Marengo, climatologista e coordenador geral de P&D do Cemadem (Centro Nacional de Monitoramento de Alertas de Desastres Naturais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), reforça que períodos de seca e chuvas intensas ocorrem todos os anos em diferentes regiões do mundo e estão ligados a anomalias na circulação atmosférica.
“O que chamamos de desastre não é a chuva em si, mas o impacto dela sobre áreas expostas vulneráveis. E a exposição e vulnerabilidade são fatores que não dependem do clima, e sim da população humana”, explica o especialista.
Ele destaca que episódios semelhantes vêm sendo observados em outras regiões áridas, como no deserto do Saara e na Líbia, e que o aquecimento global tende a tornar esses eventos mais intensos e frequentes. “As mudanças climáticas não criam esses fenômenos do zero, mas agravam processos naturais que já existem”, afirma.
Procurado por Aos Fatos, o INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) informou que não se manifesta sobre eventos específicos ocorridos em outros países, mas reforçou que há amplo consenso científico de que as mudanças climáticas têm contribuído para o aumento na frequência e na intensidade de eventos extremos em diversas regiões do planeta.
“O aquecimento global intensifica o ciclo hidrológico, aumentando a evaporação e a capacidade da atmosfera de reter vapor d’água, o que pode resultar em episódios de chuvas mais intensas, inclusive em regiões historicamente áridas”, esclareceu o instituto.
Outro fator importante é o aquecimento anormal do Mar Mediterrâneo. Com temperaturas mais altas na superfície do mar, há maior evaporação e mais umidade disponível para tempestades que avançam em direção ao Irã, ao Iraque e à Turquia.
“Assim como nós temos o El Niño, que esquenta o Oceano Pacífico, o Mar Mediterrâneo também sofre o processo de aquecimento. E esse aquecimento, obviamente, aumenta a evaporação, o que aumenta os sistemas que produzem chuva”, esclarece Marengo.
Além disso, mudanças no comportamento das correntes de ar na atmosfera — especificamente da chamada corrente de jato — ajudam a explicar o fenômeno. Se uma dessas correntes ficar mais lenta ou estacionar, as tempestades permanecem por mais tempo sobre uma mesma região.
O solo seco de regiões desérticas e semiáridas como no Irã tem ainda dificuldades para absorver água de maneira rápida, o que também favorece a ocorrência de enchentes mesmo durante chuvas relativamente curtas.
O caminho da apuração
Aos Fatos analisou as publicações enganosas e identificou os principais argumentos usados para sustentar a teoria de “guerra climática”. A partir disso, a reportagem buscou informações em veículos de imprensa e em literatura científica da área de meteorologia para verificar a plausibilidade das alegações.
Também foram consultados dados meteorológicos recentes sobre o Irã e informações oficiais sobre programas citados nas postagens, como o Programa de Pesquisa dos Emirados Árabes Unidos para a Ciência de Aumento de Chuva (UAEREP) e o projeto HAARP.
Para contextualizar os fenômenos climáticos, Aos Fatos ouviu o climatologista José Marengo, coordenador-geral de P&D do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), que explicou os fatores naturais e climáticos por trás dos eventos extremos mencionados nas publicações. A reportagem também entrou em contato com as embaixadas do Irã, dos Estados Unidos e de Israel no Brasil, mas não obteve resposta até a publicação da checagem.





