Jefferson Rudy/Agência Senado

Na CPI, Ernesto Araújo mente ao dizer que não provocou atritos com a China

Por Luiz Fernando Menezes, Amanda Ribeiro, Priscila Pacheco e Marco Faustino

18 de maio de 2021, 11h10

Em depoimento à CPI da Covid-19 na terça-feira (18), o ex-chanceler do governo Bolsonaro Ernesto Araújo mentiu ao alegar que não provocou atritos com a China no Ministério das Relações Exteriores. Ele fomentou controvérsias do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e fez críticas veladas aos chineses em tweets e em um artigo.

Araújo deixou o cargo no final de março, após dois anos e três meses em que comandou uma guinada na política externa para alinhá-la ao ideário bolsonarista. Ele foi convocado a depor em razão de medidas tomadas na pandemia, como a resistência à adesão ao consórcio de vacinas Covax Facility, liderado pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Em resumo o que checamos:

  1. É FALSO que Ernesto Araújo não provocou atritos com a China. Ele fomentou controvérsias do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e manifestou críticas veladas ao país asiático;
  2. O Brasil não foi o primeiro país a receber vacinas importadas da Índia, como afirmou Araújo. O Butão e o Nepal receberam antes doses do imunizante Astrazeneca/Oxford do Serum Institute of India;
  3. O ex-chanceler engana ao afirmar que a OMS (Organização Mundial da Saúde) disse, no início da pandemia, que o novo coronavírus não seria transmissível entre humanos. Essa possibilidade nunca foi descartada pela entidade;
  4. Tampouco é verdade que o saldo da balança comercial tenha sido recorde em 2020, como afirmado por Araújo. Segundo a série histórica iniciada em 1997, disponível no site Comex Stat, a última vez que isso aconteceu foi em 2017;
  5. Araújo se contradisse ao afirmar na CPI que era favorável ao uso de máscaras faciais. Ele é recorrentemente visto sem o equipamento mesmo após a recomendação da OMS, de junho de 2020;
  6. O ex-chanceler exagerou ao dizer que os EUA proibiram totalmente a exportação de vacinas. Na realidade, o país utilizou a Lei de Produção de Defesa para obrigar empresas privadas a priorizar a produção de imunizantes para o mercado interno;
  7. É IMPRECISA a declaração de Ernesto Araújo de que não tem nada contra o sistema multilateral. Ele cita com frequência o termo “globalismo” em referência a esses mecanismos internacionais, embora tenha mantido a participação do Brasil em organismos e negociações multilaterais;
  8. Também é IMPRECISA a alegação do ex-chanceler de que o Brasil manifestou logo no início o interesse em aderir ao consórcio Covax Facility. O país não participou da primeira reunião da OMS que discutiu a colaboração internacional;
  9. É VERDADEIRO que o Itamaraty repatriou mais de 38 mil brasileiros desde o início da pandemia. Em documento enviado à CPI da Covid-19, o Ministério das Relações Exteriores cita que 38.800 pessoas foram repatriadas desde o início da pandemia.

Jamais provoquei nenhum atrito com a China.

A declaração de Ernesto Araújo é FALSA porque, embora não tenha iniciado atritos diplomáticos com a China, ele fomentou controvérsias provocadas pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e manifestou críticas veladas ao país asiático.

Em março de 2020, Araújo saiu em defesa de Eduardo Bolsonaro no Twitter e criticou diretamente o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, que havia reagido a postagens do deputado que culpavam a China pelo surgimento do novo coronavírus e comparavam a pandemia ao desastre nuclear de Tchernóbil. Após esse episódio, o Itamaraty teria passado dez meses sem estabelecer diálogo com a embaixada chinesa no Brasil.

Em novembro, Araújo voltou a defender Eduardo Bolsonaro e a fomentar uma crise diplomática provocada pelo deputado, que postou no Twitter apoio a uma aliança do 5G “sem espionagem da China”. Após reação da embaixada chinesa, o Itamaraty publicou uma nota com críticas à diplomacia do país asiático.

No documento, o ministério afirma, por exemplo, que "não é apropriado aos agentes diplomáticos da República Popular da China no Brasil tratarem dos assuntos da relação Brasil-China através das redes sociais" e que "é altamente inadequado que a Embaixada da República Popular da China se pronuncie sobre as relações do Brasil com outros países".

Dias mais tarde, em um movimento que foi classificado como uma crítica à China, Araújo postou no Twitter trecho de um livro do filósofo chinês Lao Tzu que diz “Tentando controlar o mundo? Vejo que não conseguirás. O mundo é um vaso espiritual e não pode ser controlado”.

Em abril do ano passado, Araújo também criticou veladamente a China no artigo “Chegou o Comunavírus” publicada em seu blog. No texto, ele afirma que o coronavírus seria uma oportunidade dos comunistas para construir “uma ordem mundial sem nações e sem liberdade” e destaca uma citação em que a China é classificada como um representante do futuro do estado de exceção global.


O Brasil foi o primeiro país que recebeu vacinas exportadas pela Índia.

A declaração é FALSA, porque pelo menos dois países receberam antes as vacinas Astrazeneca/Oxford produzidas pelo Serum Institute of India. O Butão e o Nepal receberam 150 mil e 1 milhão de doses, respectivamente, nos dias 20 e 21 de janeiro, segundo publicação do Consulado-Geral da Índia em Munique, na Alemanha, intitulada “Injetando Esperança: Enfrentando Juntos a Pandemia da Covid-19”.

No dia 21 de janeiro, a Índia liberou remessas comerciais da vacina para o Brasil e o Marrocos. O carregamento com 2 milhões de doses para cada país chegou no dia 22 de janeiro.


A OMS, em certo momento, disse que o vírus não era transmissível entre humanos. Isso está documentado, se me permite citar algumas datas, em 23 de janeiro. Depois, em 4 de fevereiro, a OMS disse: "Sim, é transmissível entre humanos".

A declaração é FALSA porque a OMS (Organização Mundial da Saúde) nunca descartou que o Sars-Cov-2, vírus causador da Covid-19, fosse transmissível entre humanos.

No dia 14 de janeiro, a organização disse, em sua conta oficial no Twitter, que investigações preliminares das autoridades sanitárias chinesas ainda não haviam encontrado evidências claras da transmissão entre humanos em Wuhan, na China. Entretanto, no mesmo dia, em coletiva de imprensa, a diretora da OMS Maria van Kerkhove informou que “era certamente possível que houvesse uma transmissão limitada de humano para humano”.

Dias depois, em fala no dia 23 de janeiro de 2020, o diretor-geral da organização, Tedros Ghebreyesus, confirmou a transmissibilidade em território chinês, mas não fora do país.

“Sabemos que existe transmissão entre humanos na China, mas por enquanto ela parece limitada a famílias e trabalhadores de saúde que cuidam de pacientes infectados. Até o momento, não há evidência de transmissão entre humanos fora da China, mas isso não significa que não vai acontecer”, disse o diretor na ocasião.

A confirmação de infecções fora do país veio no dia 4 de fevereiro, data em que, segundo o ex-chanceler, a OMS teria “mudado de opinião”, o que não é verdade, já que a transmissão nunca havia sido descartada.

Na ocasião, Ghebreyesus sinalizou a existência de 20.471 casos confirmados de Covid-19 na China e 425 mortes. O diretor-geral da OMS citou ainda 176 casos em 24 países além da China, com uma morte nas Filipinas.

A OMS declarou a pandemia de Covid-19 no dia 11 de março. Posteriormente, a organização sofreu críticas de um painel internacional de investigação, que apontou que havia possibilidade de agir com mais celeridade no enfrentamento ao surto.


Outro índice dos bons resultados encontra-se na balança comercial, onde atingimos, em 2019, o saldo de US$35 bilhões e, em 2020, o saldo recorde de US$50 bilhões.

Como o último saldo recorde da balança comercial brasileira foi registrado em 2017, não em 2020, a declaração de Araújo é FALSA. Em 2017, o Brasil exportou o equivalente a US$ 214,9 bilhões e importou US$ 158,9 bilhões, tendo saldo de US$ 56 bilhões, segundo a série histórica iniciada em 1997 do site Comex Stat. No ano passado, essa diferença entre importações e exportações foi de US$ 50,3 bilhões. O resultado positivo de 2020 ficou acima dos saldos apurados em 2018 (US$ 46,5 bilhões) e em 2019 (US$ 35,1 bilhões).


Eu sou a favor de máscara.

Ao responder que seria favorável ao uso de máscaras como medida de proteção contra o novo coronavírus, Araújo contradiz sua própria atitude durante a pandemia, uma vez que é recorrentemente visto sem o equipamento mesmo após a recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) para a utilização, de junho de 2020.

Durante visita a Israel, em março deste ano, o ex-ministro chegou a ser repreendido por estar sem máscara em um evento com o chanceler israelense Gabi Ashkenazi. Em outros momentos da viagem, tanto ele quanto o restante da delegação brasileira apareceram sem o equipamento. Em janeiro, Araújo também esteve em uma churrascaria junto ao presidente Bolsonaro e outros aliados, todos sem máscara.

Já no perfil oficial do ex-chanceler no Instagram, é possível ver outras ocasiões recentes em que ele não estava com a proteção ao se encontrar com outras pessoas. São exemplos: reunião em fevereiro na qual o presidente Jair Bolsonaro e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu se falaram por telefone; almoço com o embaixador dos EUA, Todd Chapman, também em fevereiro; evento de inauguração de ponte em Alagoas em janeiro; e visita a Eldorado do Sul (RS) em dezembro de 2020.


Os EUA adotaram uma posição desde o começo de proibição total de exportação de vacinas para qualquer país.

Os EUA não proibiram oficialmente a exportação de vacinas contra Covid-19 desde o começo da pandemia, mas utilizaram a Lei de Produção de Defesa para obrigar empresas privadas a priorizarem a produção de imunizantes para o mercado interno. Por isso, a declaração de Ernesto Araújo foi classificada como EXAGERADA.

A lei instituída em 1950 durante a Guerra da Coreia foi citada pelo ex-presidente Donald Trump ainda em março do ano passado para controlar a produção de máscaras, testes e respiradores. A aplicação da lei, inclusive, gerou reclamações da Índia para a aquisição de matéria-prima para fabricar vacinas.

Sob o argumento de acelerar a fabricação de vacinas contra Covid-19, Trump invocou a legislação 18 vezes em 2020. Ao menos seis imunizantes - Moderna, AstraZeneca, Novavax, Janssen, Sanofi e Pfizer - foram classificados como prioridade sob a Lei de Proteção de Defesa no ano passado, inclusive antes de terem o uso aprovado pela FDA (Food and Drugs Administration, agência do governo americano responsável pela autorização de medicamentos).Após tomar posse em 20 de janeiro deste ano, o presidente Joe Biden optou por dar continuidade ao uso da lei, mas autorizou a primeira exportação de vacinas fabricadas pela Pfizer nos EUA para o México no fim de abril.


Como eu procurei explicar, não temos nada contra o sistema multilateral.

A declaração de Ernesto Araújo é IMPRECISA porque, por mais que o Brasil tenha mantido participação em órgãos e negociações internacionais na gestão do ex-ministro, ele usa com frequência o termo globalismo pejorativamente em referência a mecanismos multilaterais.

Antes de ser empossado chanceler, Araújo escreveu artigo em seu blog em que define o globalismo como “a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anticristão”.

No discurso de posse, em 2 de janeiro de 2019, ele afirmou que “não pediria permissão à ordem global” e que "um dos instrumentos do globalismo é afirmar que, para fazer comércio e negócio, não se pode ter ideias e espalhar valores”.

Em 22 de outubro do ano passado, o então chanceler disse em cerimônia de boas-vindas aos novos diplomatas do Instituto Rio Branco que "talvez seja melhor ser esse pária deixado ao relento, deixado de fora, do que ser um conviva no banquete no cinismo interesseiro dos globalistas, dos corruptos e semicorruptos”.

Por outro lado, na gestão Araújo, o Itamaraty seguiu fazendo indicações para cargos na ONU (Organização das Nações Unidas) e trabalhou pelos acordos entre o Mercosul e a União Europeia e para o ingresso do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).


Manifestamos desde junho de 2020 a intenção de aderir ao consórcio Covax, da OMS, tão logo essa iniciativa foi definida e dela participamos ativamente desde então.

A fala do ex-ministro é IMPRECISA porque o Brasil não participou da primeira reunião da OMS (Organização Mundial da Saúde) em que foi discutida a Covax Facility, colaboração internacional para acelerar desenvolvimento, produção e distribuição equitativa de vacinas, diagnósticos e terapias contra a Covid-19. O encontro foi realizado virtualmente em 24 de abril de 2020 e contou com a participação de onze países.

Em agosto, a OMS divulgou que o Brasil havia manifestado interesse em participar da iniciativa com outros 80 países e, em setembro, o governo federal confirmou a adesão ao consórcio. O anúncio oficial, entretanto, foi feito pelo Palácio do Planalto apenas em março deste ano, após a sanção de uma lei que formalizou o ingresso na iniciativa.

Mesmo tendo a possibilidade, segundo as regras do consórcio, de obter vacinas suficientes para imunizar 50% da população, o país optou por receber a taxa mínima de doses para vacinar apenas 10% dos brasileiros.


O Itamaraty executou a repatriação de mais de 38 mil brasileiros.

A declaração é VERDADEIRA. Em documento enviado à CPI da Covid-19 em 14 de maio deste ano, o Ministério das Relações Exteriores afirma ter repatriado 38.800 brasileiros desde o início da pandemia. De acordo com informações disponibilizadas pela pasta à revista Veja, as operações foram viabilizadas pela contratação de 37 voos fretados e a comunicação com companhias aéreas.

Outro lado. O Aos Fatos entrou em contato por e-mail com o Itamaraty e com o próprio Ernesto Araújo e enviou todas as declarações checadas com pedidos de esclarecimento, mas não houve retorno até a última atualização desta reportagem.

Referências:

1. Aos Fatos
2. Folha de S. Paulo (Fontes 1 e 2)
3. G1 (Fontes 1 e 2)
4. AP News (Fontes 1 e 2)
5. CNN Brasil
6. Agência Brasil (Fontes 1 e 2)
7. Reuters (Fontes 1 e 2)
8. BBC
9. ABC do ABC
10. The New York Times
11. DVIDS
12. Washington Post
13. O Globo
14. Estado de Minas
15. Jovem Pan
16. UOL
17. Revista Veja
18. Consulado Geral da Índia
19. OMS (Fontes 1, 2, 3, 4, 5 e 6)
20. The Independent Panel
21. Comex Stat (Fontes 1, 2 e 3)
22. GAO
23. United States Code
24. Trump White House
25. Site do Planalto (Fontes 1e 2)
26. Site do Senado
27. Twitter ONU
28. Twitter Ernesto Araújo (Fontes 1, 2 e 3)
29. Twitter Eduardo Bolsonaro
30. Twitter embaixada da China
31. Instagram Ernesto Araújo (Fontes 1, 2, 3 e 4)
32. YouTube Ministério das Relações Exteriores

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