Incels se organizam para salvar músicas racistas e misóginas de suspeito de ataque hacker a Janja

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Extremistas se articularam nas redes para salvar e compartilhar músicas com letras misóginas e racistas postadas por João Vítor Corrêa Ferreira, um dos alvos da operação que a Polícia Federal deflagrou na segunda-feira (11) contra os hackers que invadiram o perfil no X (ex-Twitter) da primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja.

  • O suspeito possuía perfis nas principais plataformas — como Facebook, Spotify e YouTube — e se apresenta como Maníaco;
  • Ferreira produz músicas com letras repletas de discurso de ódio e apologia à violência, o que fere as políticas das empresas;
  • Ainda assim, falhas de moderação permitiram que o conteúdo extremista permanecesse no ar mesmo após o caso estourar;
  • O movimento de salvar as músicas concentra-se no Telegram e começou após reportagem do jornal O Globo expor que Ferreira tinha um perfil verificado com conteúdo extremista no Spotify, o que levou a plataforma a excluir o canal.

O Spotify, em que tinha mais de 4.000 ouvintes mensais, era uma das redes consideradas seguras pelo autodenominado Maníaco. Em janeiro de 2022, ele postou no Facebook um link da plataforma de música que levava a um conteúdo em que pregava o assassinato de pessoas LGBTQIA+. “Banida do YouTube, mas aqui ainda posso postá-la!”, celebrou.

Maníaco é um ídolo da comunidade incel, acrônimo derivado do inglês que significa “celibatários involuntários”. O grupo é formado, sobretudo, por adolescentes e jovens adultos que exprimem sua frustração usando discurso violento — principalmente de ódio às mulheres, culpando o feminismo por dificuldades de relacionamento.

O Aos Fatos constatou que as músicas dele seguiam no Facebook na tarde desta quinta (14), apesar de o perfil do criador estar fora do ar no Instagram, plataforma que também pertence à Meta. Vídeos com as músicas também eram distribuídos sem qualquer restrição no TikTok. Após o contato da reportagem, o perfil da rede de vídeos curtos saiu do ar, e alguns posts sumiram do Facebook.

ARTICULAÇÃO

“Será que alguém baixou as músicas?”, questionou um usuário no X, comentando post que relatava que o criador de conteúdo tinha sido exposto após o ataque a Janja. “Deve ter baixado, vou procurar no Telegram”, respondeu o autor do post.

No mesmo dia, a plataforma de mensagens ganhou uma comunidade para compartilhar vídeos e músicas de Ferreira. Uma pasta pública no Google Drive também foi criada para facilitar o download desses conteúdos.

Na comunidade do Telegram, os fãs de Maníaco chegaram a fazer uma enquete para definir se manteriam as músicas e vídeos apenas entre eles ou se fariam sua redistribuição por plataformas com mais usuários. Um dos participantes anunciou que tinha subido os vídeos em seu próprio canal no YouTube, plataforma que havia banido Ferreira dias antes da operação da PF.

Diálogo ocorrido entre usuários do X (ex-Twitter). Um fã do músico se questiona se alguém havia baixado as músicas, enquanto outro usuário diz que iria buscar no Telegram
'Vou procurar no Telegram'. Notícia da derrubada do perfil de Maníaco no Spotify mobilizou comunidade incel no X (ex-Twitter), que correu para salvar conteúdo racista e misógino do produtor (Reprodução/X)

O influenciador incel é um dos investigados pela invasão da conta de Janja no X na noite de segunda (11). Na ocasião, foram publicadas diversas ofensas contra a primeira-dama, que classificou as mensagens como “misóginas e violentas”. Os invasores também fizeram posts com menções a casos de corrupção e ataques contra autoridades como o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes.

Na última terça (12), a PF cumpriu quatro mandados de busca e apreensão em Minas Gerais, incluindo no endereço de Ferreira, em Ribeirão das Neves (MG). O perfil dele no TikTok postou comunicado dizendo que o influenciador chegou a ser preso e que “não se sabe ao certo a causa da investigação”, mas que, pelas notícias, havia relação com o caso de Janja.

Foram cumpridos outros dois mandados de busca e apreensão na última quinta (14), desta vez no Distrito Federal, em endereços ligados a um adolescente de 17 anos — que, ao ser ouvido, confessou ser o autor da invasão, segundo a PF. “Um suspeito foi ouvido e liberado em Minas Gerais, mas negou que tivesse participado. Os investigadores apuram se esses dois suspeitos já identificados agiram em conjunto para hackear o perfil”, publicou o G1.

Print de comunidade no Telegram mostra diálogo entre fãs de Maníaco, que discutem ações para salvar suas músicas. Além da conversa, é possível ver o endereço parcial de um drive, alguns vídeos e uma enquete.
Operação Resgate. Assim que reportagem relacionou o produtor de conteúdo extremista com ataque hacker, comunidade no Telegram foi criada para salvar suas músicas (Reprodução/Telegram)

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FALHAS DE MODERAÇÃO

Publicações nas redes indicam que, apesar de o canal de Maníaco no YouTube ter saído do ar em 2022, ele chegou a ser recuperado em algum momento. Indício disso é que, no último dia 6, Ferreira publicou no TikTok que tinha sido novamente banido da plataforma de vídeos do Google, na qual contava com 7.000 inscritos, segundo o cache da busca. Na ocasião, ele divulgou seu canal reserva e prometeu subir os vídeos removidos, mas não chegou a cumprir a promessa antes de ser alvo da PF.

As contas permaneceram disponíveis apesar de as músicas serem carregadas de discurso de ódio explícito, que viola os termos de comunidade. Além de homofobia, é possível encontrar nas letras exemplos de misoginia, racismo — incluindo críticas à miscigenação — e xenofobia, com conteúdos que culpam a migração nordestina por problemas urbanos no Sul do país. Várias músicas fazem também apologia à violência, se referindo a supostos assassinatos, com descrições de atos de crueldade.

Questionada por que o perfil de Maníaco seguia disponível até quinta-feira (14) no Facebook, apesar de ter sido removido do Instagram, a Meta respondeu que “não permite discurso de ódio em suas plataformas” e que os Padrões da Comunidade do Facebook “proíbem qualquer conteúdo que ataque pessoas com base em suas características”. A empresa disse ainda que usa uma combinação de inteligência artificial e equipes humanas para detectar e remover conteúdos que violam suas regras e incentivou os usuários a denunciarem conteúdo impróprio.

Na mesma linha, o YouTube afirmou que todos os vídeos disponibilizados na plataforma precisam seguir suas Diretrizes de Comunidade e que conta “com uma combinação de sistemas inteligentes, revisores humanos e denúncias de usuários para identificar material suspeito”. A empresa também afirmou que estava analisando o caso específico apresentado pela reportagem.

Nem o TikTok nem o Telegram responderam ao questionamento dos Aos Fatos. A reportagem não conseguiu localizar a defesa de Ferreira, mas este espaço está aberto para seu posicionamento.

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