Miriam Leitão não teve pensão de anistiada cortada por Damares pois nunca recebeu tal benefício

Por Amanda Ribeiro

16 de setembro de 2020, 16h26


A jornalista Miriam Leitão nunca recebeu a pensão para anistiados políticos, logo não é verdade que ela teve esse benefício, supostamente de R$ 27 mil, cortado por ordem da ministra Damares Alves, como alegam postagens nas redes sociais (veja aqui).

O nome da jornalista não consta no rol de beneficiados pela Comissão de Anistia nem no documento que lista os requerimentos de pensão deferidos até junho deste ano. Leitão não aparece, ainda, em portarias que cancelaram os benefícios de uma série de indivíduos e foram publicadas em junho, julho e agosto pelo ministério.

Compartilhada nas redes por páginas e perfis pessoais, postagens acumulavam cerca de 6.000 compartilhamentos no Facebook até a tarde desta quarta-feira (16) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de monitoramento da rede social (saiba como funciona).


FALSO

A jornalista Miriam Leitão nunca recebeu pensão de R$ 27 mil como anistiada política da ditadura militar e, portanto, não teve tal benefício cancelado após ação da ministra Damares Alves, como alegam peças de desinformação que circulam nas redes. Além do nome da jornalista não constar na relação de beneficiários da Comissão de Anistia, que detalha inclusive pedidos arquivados, também não é possível encontrá-lo na relação de requerimentos deferidos pela pasta até o mês de junho.

No dia 8 de junho, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos publicou uma série de portarias que cancelaram 295 benefícios a ex-cabos da Aeronáutica. Foram mantidos, ainda, seis auxílios, e indeferido um pedido de reconsideração de anistia. Nessa e em outras portarias subsequentes, como a de 14 de julho e a de 18 de agosto, não há menção a Leitão.

Militante do PCdoB durante a ditadura militar, a jornalista Miriam Leitão foi presa e torturada por membros do regime quando tinha 19 anos. Em relato divulgado em 2014, ela conta ter sido agredida e humilhada por agentes, além de ter sido trancada, enquanto grávida, em um quarto escuro com uma jiboia.

Ataques. No ano passado, em conversa com repórteres estrangeiros que cobraram um posicionamento do presidente contra os ataques sofridos pela colega brasileira em uma feira literária, o presidente Jair Bolsonaro atacou Leitão e disse que ela teria mentido sobre as torturas que sofreu durante a ditadura. Afirmou, ainda, que ela foi presa enquanto estava indo para a Guerrilha do Araguaia impor uma ditadura no Brasil. Todas as informações são falsas.

Poucos dias após os ataques do presidente, passou a circular nas redes uma peça de desinformação que associava Leitão à luta armada. De acordo com as postagens, a jornalista teria sido retratada em foto segurando um fuzil ao lado do militante Carlos Lamarca. Checada por Aos Fatos, a foto, no entanto, mostrava um treinamento de defesa contra assaltos a bancos organizado pelo Exército em 1969. A mulher na imagem era uma bancária do Bradesco e estava, de fato, ao lado de Carlos Lamarca, que, no momento do registro, ainda era capitão do Exército.

A peça de desinformação também foi checada pelo Estadão Verifica.

Referências:

1. Comissão de Anistia
2. Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos
3. Diário Oficial da União (Fontes 1, 2 e 3)
4. CNN Brasil
5. O Globo
6. Folha de S.Paulo
7. G1
8. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)