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Mineradora seleciona dados oficiais para dizer que rejeitos não causam risco à saúde

27 de novembro de 2015, 18h12

A mineradora Samarco, joint-venture entre a brasileira Vale e a australiana BHP, divulgou um comunicado nesta sexta-feira (27) relatando que laudos do CPRM (Serviço Geológico do Brasil) e de uma empresa especializada "atestam que os rejeitos não oferecem riscos à saúde humana e ao meio ambiente".

O problema é que esses documentos também dizem que há uma quantidade superior de materiais em suspensão nas águas, além de pouca oxigenação e mortandade de peixes — o que a mineradora não cita.

Além disso, outra investigação, feita por estatal mineira e analisada por Aos Fatos, diverge ainda desses dados ao apontar concentração de arsênio, cádmio, chumbo, cromo e níquel acima da legalidade. Dessa maneira, a defesa da Samarco recebe o selo IMPRECISO.


IMPRECISO
Análises dos sedimentos do rio Doce e do rejeito proveniente da barragem de Fundão, operada pela Samarco, mostram que em nenhum dos materiais há aumento da presença de metais que poderiam contaminar a água.

A nota da Samarco tem como base análise técnica do CPRM sobre a qualidade da água em certo trecho do rio, de 14 a 18 de novembro, em ummonitoramento da agência. Há uma página semelhante no site da ANA (Agência Nacional de Águas).

Segundo o CPRM, as mais recentes amostras de água e sedimentos coletadas no rio Doce "apontam que não houve aumento na presença de metais pesados na água e nos sedimentos em relação aos dados de 2010, também coletados pela CPRM. Portanto, não há indicações de que a lama seja tóxica em relação a metais pesados".

O problema é que, no mesmo estudo, o CPRM disse que seus testes mostram "uma quantidade de material em suspensão (turbidez) muito acima dos valores observados pela CPRM em 2010".

Isso teria impacto na fauna do rio Doce e para as pessoas que dependem dele. "Além da turbidez, os resultados revelam também uma diminuição significativa na quantidade de oxigênio dissolvido na água que pode estar relacionada com a mortandade de peixes", disse o serviço geológico.

Além disso, um laudo anterior, do Instituto Mineiro de Gestão das Águas, o Igam, havia mostrado contaminação por metais de 7 a 12 de novembro. Houve, depois, queda gradativa da concentração dessas substâncias.

"Com relação aos metais verificou-se que o arsênio, cádmio, chumbo, cromo e níquel nos pontos de monitoramento localizados entre os municípios de Rio Doce e Conselheiro Pena se comportaram de maneira semelhante, apresentando valores mais elevados na data em que o pico da pluma de rejeito alcançava os municípios e uma posterior diminuição ao longo dos dias consecutivos", disse o Igam.

"Desta forma, é possível verificar valores acima do limite legal para esses metais nos trechos entre Rio Doce e Belo Oriente nos dias 7 e 8 de novembro, no município de Periquito no dia 9, em Governador Valadares no dia 10, em Tumiritinga no dia 11 e em Conselheiro Pena no dia 12 de novembro. No dia 12 de novembro (até o momento da coleta) a pluma do rejeito não havia alcançado os municípios de Resplendor e Aimorés", concluiu o instituto.

Pesquisadores independentes e locais já contestam os testes de qualidade da água realizados no rio Doce pelas agências estatais.

"Considero esse esforço amostral inadequado dada a grandeza do desastre. Nós estamos falando de quase 700 quilômetros de rio. Os dados se referem a qualidade de água e de sedimento, mas não é dito nada sobre a concentração desses metais nos peixes, nos demais organismos, na vegetação", afirmou Ricardo Motta, coordenador do laboratório de gestão ambiental de reservatórios da UFMG, ao jornal O Globo.

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