Mentiras Plantadas, série de reportagens exclusiva do Aos Fatos, revela como uma ONG financiada pelo agronegócio tem pressionado o mercado editorial brasileiro para melhorar a imagem do setor. Ao acusar falsamente livros didáticos de “desinformação”, o lobby busca remover conteúdos que vinculam a indústria ao desmatamento, às mudanças climáticas e à escravidão, substituindo-os por textos que retratam o agronegócio como moderno e sustentável.
A investigação entrevistou anonimamente mais de uma dúzia de profissionais do setor editorial, que descreveram como a associação DONME (De Olho no Material Escolar) pressionava as editoras. Foram obtidas evidências de que livros foram alterados – por exemplo, substituindo o termo “agrotóxico” pelo eufemismo “defensivo agrícola”.
Essa pressão foi mais eficaz nos materiais de escolas privadas, impulsionada pela mobilização de pais ligados ao meio rural. A ONG também redirecionou seu lobby para Brasília com o objetivo de influenciar o PNE (Plano Nacional de Educação). Usando inteligência artificial, Aos Fatos analisou mais de 3.000 emendas ao PNE e identificou aquelas originadas pelo agronegócio.
A série também revelou o acordo entre a DONME e a Esalq/USP, (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo) que formalizou a parceria entre ambas para criar a base de dados Agroteca — um repositório que reúne informações promovidas pelo agronegócio como corretas, mas que, segundo especialistas entrevistados pelo Aos Fatos, consistem em desinformação.
A série Mentiras Plantadas continua suas investigações, agora sobre as alegações que o agro usa para melhorar a imagem do setor. Já checamos, por exemplo, afirmações sobre a emissão de metano pela pecuária brasileira e sobre danos à saúde pelo uso de agrotóxicos nas lavouras.
Confira todas as reportagens e checagens do Mentiras Plantadas:
- Pressão do agro altera conteúdos de livros escolares, denunciam editores
- Agro distorce ciência para tentar promover desinformação climática nas escolas
- Lobby do agro usa governo de SP como vitrine de projeto de interferência na educação
- Área total de pastagens não afasta responsabilidade da pecuária por desmatamento
- Resíduos de agrotóxicos não somem totalmente de alimentos após carência
- Pecuária não é ‘solução’ para reduzir gases de efeito estufa
Pressão do agro altera conteúdos de livros escolares, denunciam editores
A reportagem de abertura da série Mentiras Plantadas revela como a ofensiva coordenada do agronegócio, capitaneada pela associação De Olho no Material Escolar, conseguiu interferir diretamente no conteúdo pedagógico que chega às escolas brasileiras.
Ao entrevistar sob anonimato 12 profissionais do setor editorial, o Aos Fatos constatou que editoras sofrem forte patrulhamento para suavizar ou suprimir dados sobre desmatamento, mudanças climáticas, uso de agrotóxicos e escravidão contemporânea
O impacto mais visível dessa pressão silenciosa é a substituição sistemática de termos consagrados pela ciência: na edição de 2026 de um livro didático, por exemplo, a palavra “agrotóxicos” foi banida das páginas para dar lugar ao eufemismo comercial “defensivos agrícolas”.
Agro distorce ciência para tentar promover desinformação climática nas escolas
A segunda reportagem revela como o agronegócio fabrica uma “ciência alternativa” para ocultar sua pegada ecológica e enganar estudantes.
Sob o pretexto de isenção, a associação De Olho no Material Escolar usa um convênio com a Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo) para dar verniz acadêmico à Agroteca, uma biblioteca virtual que dissemina desinformação climática — como a suposta neutralidade de carbono da pecuária e a negação de que o gado promova o desmatamento.
Em paralelo, o lobby do setor avança sobre Brasília para alterar a legislação educacional do país e blindar sua imagem. Atuando nos bastidores do Plano Nacional de Educação (PNE), o grupo articulou emendas parlamentares para banir reportagens jornalísticas dos livros didáticos e criar sistemas de denúncia de conteúdo, erguendo barreiras legais contra o ensino científico das crises socioambientais.
Lobby do agro usa governo de SP como vitrine de projeto de interferência na educação
Nesta reportagem, Aos Fatos expõe como o governo de São Paulo, sob Tarcísio de Freitas, virou a principal vitrine da infiltração do agro na rede pública. Após a Frente Parlamentar da Agropecuária criticar questões do Enem de 2023 sobre impactos do setor, orientações de bastidores na Secretaria de Educação exigiram a omissão de qualquer aspecto socioambiental crítico nos materiais didáticos digitais.
Essa abertura foi consolidada em treinamentos oficiais doados pelo próprio lobby. Por meio do programa “Mestres no Agro”, a associação De Olho no Material Escolar passou a capacitar professores estaduais sob sua cartilha, alinhando as salas de aula a uma campanha de marketing que tenta transformar o setor em “paixão nacional”.
Área total de pastagens não afasta responsabilidade da pecuária por desmatamento
Aos Fatos verificou que o fato de o tamanho da área total ocupada pela pecuária no Brasil ter se mantido estável nos últimos anos não prova que o setor não tem relação com o desmatamento, ao contrário do que faz crer um vídeo da ONG De Olho no Material Escolar. Na verdade, a produção de gado bovino avançou nos últimos anos sobre as florestas e o cerrado, e pastagens em outros lugares cederam espaço para diferentes atividades, como a agricultura, afirmam especialistas.
A peça de desinformação está disponível na Agroteca, repositório mantido pela entidade que faz lobby pró-agronegócio. Apesar de ter sido elaborada em parceria com a Esalq-USP, a Agroteca possui diversos conteúdos sem embasamento científico.
Resíduos de agrotóxicos não somem totalmente de alimentos após carência
Não é verdade que resíduos de agrotóxicos se dissipam dos alimentos após um determinado número de dias, o chamado período de carência, mostra checagem do Aos Fatos. Também não procede que não há mais risco para quem consumir os alimentos após esse prazo.
O período de carência corresponde ao tempo mínimo estabelecido para que os resíduos fiquem abaixo dos limites estabelecidos por órgãos reguladores. Esse intervalo de segurança varia conforme o alimento e o defensivo aplicado. Não significa dizer, portanto, que após esse período haverá eliminação total das substâncias tóxicas.
Pecuária não é ‘solução’ para reduzir gases de efeito estufa
Dados e pesquisas desmentem o argumento de que a pecuária não seria culpada pelas mudanças climáticas e que seria uma “solução” para a diminuição dos gases de efeito estufa, conclui a checagem do Aos Fatos. Apesar de haver, de fato, uma reabsorção pelo pasto, esse processo não é suficiente para neutralizar as emissões do setor.
No Brasil, uma versão da desinformação está disponível na Agroteca, repositório mantido pela entidade de lobby pró-agronegócio Donme (De Olho no Material Escolar) em parceria com a Esalq-USP . O conteúdo enganoso também aparece em publicações nas redes sociais.
Outro lado. Todos os citados nas reportagens e checagens da série Mentiras Plantadas foram contatados e puderam se manifestar sobre os resultados das publicações. As respostas enviadas ao Aos Fatos estão incluídas em cada uma das reportagens e checagens compiladas acima.
As reportagens do Mentiras Plantadas foram produzidas com o apoio do Pulitzer Center. As checagens derivadas da série tem o apoio da Fundação Heinrich Boll.





