Não é verdade que haja um alerta de emergência para um megaterremoto em 10 de setembro deste ano nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do Brasil. A imagem usada nos posts que fazem essa afirmação, que simula um painel de monitoramento sísmico, foi gerada por IA. Além disso, o Observatório Nacional, que coordena a Rede Sismográfica Brasileira, desmentiu a veracidade da alegação.
O conteúdo falso acumulava ao menos 2.000 compartilhamentos no Facebook e 45 mil visualizações no TikTok nesta sexta-feira (26). A alegação enganosa também circula no WhatsApp, plataforma em que não é possível estimar seu alcance com precisão.
Nos últimos dias, um alerta de emergência chamou a atenção de milhões de brasileiros. A explicação divulgada foi de um possível problema no sistema de alertas.

Publicações nas redes enganam ao afirmar que estaria em vigor um alerta máximo para um megaterremoto nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do Brasil em 10 de setembro deste ano. O Observatório Nacional, instituto de pesquisa ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação que coordena a RSBR (Rede Sismográfica Brasileira), disse ao Aos Fatos que essa alegação é falsa.
“Alegações sobre terremotos previstos para datas específicas costumam circular periodicamente nas redes e frequentemente estão associadas a desinformação, teorias conspiratórias ou interpretações incorretas de dados científicos”, afirmou Gilberto Leite, sismólogo da instituição.
Os posts dizem que “um alerta de emergência chamou a atenção de milhões de brasileiros” e, para tentar comprovar isso, mostram imagem de um painel de monitoramento sísmico indicando um terremoto de magnitude 8,9 no país. A foto, porém, foi gerada por inteligência artificial, como apontou a ferramenta de identificação da OpenAI.
Além disso, a alegação tem sido veiculada por páginas e perfis conhecidos por disseminar teorias conspiratórias sobre uma suposta manipulação climática, com as dos chamados chemtrails (rastros químicos, em português) e das armas HAARP (Programa de Investigação de Aurora Ativa de Alta Frequência), frequentemente citados como tecnologias supostamente capazes de controlar as condições do clima ou provocar desastres naturais. Não há provas que embasem tais alegações.
Marcelo Assumpção, professor e integrante do Centro de Sismologia da USP (Universidade de São Paulo), afirmou que não existe hipótese de haver um megaterremoto no Brasil. “Nem nessa data, nem em data nenhuma”, disse.
O especialista ressaltou ainda que nenhum país do mundo tem tecnologia capaz de prever terremotos — nem mesmo aqueles com os sistemas de monitoramento sísmico mais avançados, como Japão e Estados Unidos. “Com data marcada, menos ainda”, completou.
Atualmente, pesquisadores conseguem acompanhar a atividade das falhas geológicas, calcular a probabilidade de um abalo e, em alguns casos, emitir alertas poucos segundos antes do início do terremoto.
“A melhor forma de verificar informações sobre atividade sísmica é consultar instituições científicas reconhecidas, como a Rede Sismográfica Brasileira, composta por Observatório Nacional, USP, UFRN e UnB, e o Serviço Geológico do Brasil”, ressaltou Leite.
Um megaterremoto é um um abalo sísmico de magnitude igual ou superior a 9 na escala Richter. O evento ocorre tipicamente em zonas de subducção, ou seja, onde uma placa tectônica desliza sob outra.
Esse não é o caso do Brasil, que fica no interior da placa Sul-Americana. Embora pequenos abalos sísmicos sejam registrados com certa frequência no país, a localização oferece uma proteção natural contra terremotos de magnitudes tão elevadas.
As publicações também sugerem que os brasileiros teriam sido avisados sobre o suposto terremoto por um alerta de emergência enviado aos celulares, misturando uma informação falsa a um evento real.
De fato, na madrugada de sábado (20), celulares de diversas cidades do país receberam um alerta sonoro da Defesa Civil classificado como “extremo”. As mensagens citavam palavras como “misantropia” e, em alguns casos, faziam referência a um “ataque alienígena”.
Não há registro de mensagens sobre um terremoto no dia 10 de setembro e a Defesa Civil informou que os disparos não tinham relação com riscos reais. Segundo o governo federal, o envio não foi autorizado e já é alvo de investigação da Polícia Federal.
Na noite de quarta-feira (24), a costa norte da Venezuela foi atingida por dois dos maiores terremotos registrados no país em mais de um século. Até o momento, há ao menos 589 mortos e 2.980 feridos.
Moradores de Amazonas, Pará e Amapá relataram ter sentido tremores no momento. Em nota, a Defesa Civil do Amazonas informou que o fenômeno pode estar relacionado aos reflexos do terremoto na Venezuela. O órgão também afirmou que não houve danos a estruturas, desabamentos ou vítimas em razão do ocorrido.
Desde então, uma onda de desinformação sobre os terremotos passou a circular no Brasil, na Venezuela e em outros países de língua espanhola. Aos Fatos, por exemplo, encontrou vídeos gravados nas Filipinas sendo compartilhados como se mostrassem os abalos venezuelanos.
O Observatório Venezuelano de Fake News também identificou conteúdos falsos sobre o tema, incluindo registros de supostos alertas de tsunami na costa venezuelana.
O caminho da apuração
Aos Fatos submeteu a imagem compartilhada pelas peças à ferramenta de identificação da OpenAI, que confirmou se tratar de um registro manipulado.
Em seguida, a reportagem buscou o Observatório Nacional, que confirmou que os posts são falsos, e entrevistou Marcelo Assumpção, professor e integrante do Centro de Sismologia da USP, para verificar a possibilidade de ocorrência e previsão de megaterremotos no Brasil.
Aos Fatos também buscou informações oficiais sobre os alertas enviados pela Defesa Civil na madrugada de sábado (20).





