Médicos desinformam ao recomendar ivermectina para prevenir e tratar Covid-19

Por Priscila Pacheco

10 de julho de 2020, 19h06


Não é verdade que os medicamentos ivermectina, cloroquina e nitazoxanida (Annita) impedem a multiplicação do novo coronavírus se tomados no início dos sintomas da Covid-19, como sustentam dois médicos em um vídeo que circula nas redes sociais (veja aqui). Um deles afirma, inclusive, que tem tomado a ivermectina de forma preventiva contra a infecção. No entanto, de acordo com autoridades sanitárias, os três remédios não têm eficácia comprovada cientificamente para prevenir ou tratar pacientes de Covid-19.

O vídeo foi publicado no Facebook pelo médico Tarcízio Pimenta, que aparece na gravação e já foi vereador e prefeito de Feira de Santana (BA) e deputado estadual. O conteúdo acumulava ao menos 23.000 compartilhamentos nesta sexta-feira (10) e foi marcado com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona).


FALSO

Existem três drogas que no início dos sintomas podem impedir a multiplicação viral [...] Anitta, ivermectina e a cloroquina.

Em vídeo que circula nas redes sociais, os médicos Tarcízio Pimenta e Benedito Gonçalves, de Feira de Santana (BA), recomendam o uso da ivermectina para prevenir e tratar Covid-19. Segundo Gonçalves, o remédio, assim como a cloroquina e a nitazoxanida (Annita), impediria a replicação viral do novo coronavírus dentro do corpo. Entretanto, as pesquisas em andamento não confirmaram o potencial dessas drogas contra a enfermidade. A ivermectina e a nitazoxanida, inclusive, sequer fazem parte do protocolo de tratamento proposto pelo Ministério da Saúde.

Ivermectina. Em teste feito apenas com células em ambiente controlado de laboratório e em alta dosagem, o antiparasitário ivermectina demonstrou ser capaz de reduzir a replicação do Sars-CoV-2, vírus que causa a Covid-19, segundo pesquisa liderada pelo Instituto de Biomedicina da Universidade de Monash, na Austrália. No entanto, a droga ainda não passou por estudos clínicos e, segundo a instituição, os cientistas buscam uma dosagem segura para humanos que possa oferecer o efeito observado em laboratório.

A ivermectina foi não foi incluída na relação de estudos co-patrocinados para tratamentos de Covid-19, o Solidarity Trial (Estudo de Solidariedade), liderado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e que reúne 21 países. Segundo a organização, os estudos sobre a substância apresentaram evidências insuficientes para concluir se ela traz benefício ou malefício para pacientes de Covid-19. Até agora, os resultados em laboratório mostraram que, para reduzir eficazmente a carga viral em células in vitro, a dosagem do medicamento deveria ser muito maior à recomendada hoje para o tratamento de doenças parasitárias em humanos.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Infectologia, muitos dos medicamentos antiparasitários que demonstraram ação antiviral em testes feitos em laboratório não apresentam o mesmo efeito em humanos. Assim, somente estudos clínicos permitem definir o benefício e a segurança de um medicamento.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou que ainda não foram feitas solicitações de estudos clínicos com ivermectina no Brasil para o tratamento de Covid-19. Segundo o órgão, no momento, a única eficácia comprovada do medicamento é para estrongiloidíase intestinal, elefantíase, lombriga, sarna e infestação de piolhos.

Annita. A nitazoxanida, conhecida por seu nome comercial Annita, também é um vermífugo que tem sido testado para tratar Covid-19, mas, até o momento, apresentou resultados apenas em testes em laboratório. Por e-mail, o Ministério da Saúde afirmou que ainda não existem estudos conclusivos que comprovem a eficácia de qualquer medicamento para o tratamento da doença e que até o momento não há nada específico sobre a nitazoxanida.

Um grupo de cientistas chineses, por exemplo, fez no começo do ano experimentos in vitro com a substâncias e outros seis medicamentos e, segundo os resultados publicados na revista Nature em fevereiro, a nitazoxanida teve uma eficácia ainda menor que a da cloroquina em células contaminadas por Sars-CoV-2.

Já na base de estudos da OMS há apenas uma pesquisa com nitazoxanida registrada. Feita pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra, e publicada como preprint (sem avaliação de pares) no dia 6 de maio, ela avaliou qual a dosagem segura da substância que poderia ser usada para prevenir ou tratar infectados com Covid-19. Segundo o grupo, o modelo e as estratégias de verificação da dosagem servem como base para futuros ensaios clínicos, etapa essencial para verificar o funcionamento de uma droga ou tratamento no corpo humano.

Em boletim publicado em 12 de junho, o Ministério da Saúde cita uma revisão da literatura científica realizada até 29 de maio pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz e pelo Hospital Sírio-Libanês que cita 13 estudos, 11 deles em fase clínica em diferentes países. No entanto, os autores da revisão concluem que, diante da inexistência de evidências a respeito da eficácia e segurança da nitazoxanida, ainda não é possível recomendar o uso da droga para o tratamento da Covid-19.

Um dos estudos citados na revisão literária ocorre no Brasil e tem como colaboradora a indústria farmacêutica Farmoquímica. Trata-se de um ensaio clínico para avaliar a eficácia e a tolerabilidade da nitazoxanida 600 mg. Na lista da Anvisa, a empresa aparece com mais um ensaio clínico liberado para testes.

Há ainda um estudo liderado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, que, segundo a pasta, mostrou uma redução de 94% da carga viral nos experimentos feitos em células laboratoriais. Em maio, o ministério anunciou que a pesquisa havia passado para a segunda fase, que incluiria testagem em humanos. Em junho, disse que a ação #500VoluntáriosJá estava sendo realizada em São Paulo com o objetivo de atrair 500 pessoas para a testagem. No início de julho a campanha continuava na região metropolitana e interior do estado. Aos Fatos entrou em contato com a pasta, mas não obteve retorno.

Cloroquina. Apesar de fazer parte do protocolo de tratamento proposto pelo Ministério da Saúde para a Covid-19, a cloroquina e a hidroxicloroquina ainda não possuem resultados satisfatórios para tratar a enfermidade em nenhuma fase ou mesmo para preveni-la.

Inclusive, por causa da falta de evidências científicas, a OMS anunciou no dia 17 de junho que tiraria a substância do Solidarity Trial. Em 4 de julho, a entidade confirmou o fim das pesquisas com a droga assim como o encerramento dos experimentos do lopinavir e do ritonavir, usados no controle do HIV e que também estavam sendo testados para Covid-19.

Autores. O vídeo com as alegações enganosas foi publicado no Facebook por Tarcízio Pimenta, um dos médicos que aparece na gravação e que já foi vereador e prefeito de Feira de Santana (BA) e deputado estadual. Hoje ele é filiado ao DEM e tem registro ativo no Cremeb (Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia).

Ao lado dele na gravação, Benedito Gonçalves também está devidamente registrado no conselho profissional, como anestesiologista. Em dado momento do vídeo, ele chega a reconhecer que não há evidência científica da eficácia das drogas que promove, mas ao fim sustenta que é melhor "prevenir do que remediar".

Aos Fatos consultou o Cremeb sobre a divulgação do vídeo pelos médicos, mas a instituição disse que não responde a consultas que contenham referência ou alusão a questionamentos éticos baseados em casos concretos, conforme determina a Resolução CFM Nº 2.070/2014.

Segundo comunicado da Sociedade Brasileira de Infectologia, “a avaliação do uso de qualquer medicamento fora de sua indicação aprovada deve ser uma decisão individual do médico, compartilhando os possíveis benefícios e riscos com o paciente. Porém é vedada a publicidade sobre tal conduta”.

A divulgação de drogas sem eficácia comprovada também é rechaçada pelo código de ética médica publicado em 2018 pelo Conselho Federal de Medicina. “É vedado ao médico: Art. 113. Divulgar, fora do meio científico, processo de tratamento ou descoberta cujo valor ainda não esteja expressamente reconhecido cientificamente por órgão competente”.

O Conselho Federal de Medicina, o Ministério da Saúde e o médico Tarcízio Pimenta foram procurados pelo Aos Fatos, mas não responderam até a publicação desta checagem. Não foi possível localizar Benedito Gonçalves.

Outras peças de desinformação sobre o uso de ivermectina contra a Covid-19 também já foram checadas pelo Aos Fatos.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2 e 3)

2. Ministério da Saúde (Fontes 1, 2 e 3)

3. CREMEB

4. Conselho Federal de Medicina (Fontes 1 e 2)

5. OMS (Fontes 1, 2 e 3)

6. Sociedade Brasileira de Infectologia (Fontes 1 e 2)

7. Assembleia Legislativa da Bahia

8. Governo Federal (Fontes 1 e 2)

9. Revista Elsevier

10. Nature

11. Nejm

12. Universidade de Monash

13. EBC

14. BBC

15. MedRxiv

16. Oxford Brazil

17. Anvisa

18. Clinical Trials (Fontes 1 e 2)


Matéria alterada no dia 13 de julho às 13h49. Diferentemente do que afirmava a checagem, a ivermectina nunca foi incluída no Solidarity Trial (Estudo de Solidariedade) conduzido pela OMS. Essa correção não altera o selo da checagem.


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