Médico engana ao afirmar que 'tratamento precoce' foi comprovado cientificamente

Por Marco Faustino

27 de abril de 2021, 16h54

Não é verdade que a eficácia do chamado “tratamento precoce” contra Covid-19 já teria sido comprovada cientificamente, como alega o médico Luiz Barbosa Neto em vídeo que circula nas redes (veja aqui). Nenhum estudo sólido nacional ou internacional publicado até o momento indicou que drogas como a hidroxicloroquina, a azitromicina e a ivermectina sejam capazes de prevenir ou tratar a infecção pelo novo coronavírus.

Publicações contendo o vídeo enganoso somavam ao menos 181.000 compartilhamentos no Facebook até a tarde desta terça-feira (27) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (veja como funciona).


Afinal, por que o tratamento precoce, que estamos tão empenhados em realizá-lo na vida dos pacientes… Por que ele é tão combatido? Por que ele é tão criminalizado, apesar das comprovações científicas que todos exigiam e que nós fornecemos para quem tiver boa vontade em analisá-los? (...) Se quiser as comprovações científicas, já as tenho.

Circula nas redes sociais um vídeo em que o médico Luiz Barboza Neto diz ter em mãos “comprovações científicas” de que o dito "tratamento precoce” para a Covid-19 funciona. Porém, até o momento, nenhum estudo sólido comprovou a eficácia das drogas citadas na gravação, como a hidroxicloroquina, a azitromicina, a ivermectina e a nitazoxanida, e de outras substâncias, como vitamina D e zinco.

Azitromicina. Este antibiótico tem ação comprovada contra bactérias, não vírus. O medicamento foi objeto de um ensaio clínico no Reino Unido com 16.442 pacientes que o receberam por 10 dias. Os resultados, publicados na revista científica Lancet em fevereiro de 2021, atestaram que não houve nenhum benefício observado em tempo de hospitalização, mortalidade ou até necessidade de ventilação.

Hidroxicloroquina. Em março, a OMS (Organização Mundial da Saúde) publicou uma metanálise em que conclui que o antimalárico teve um efeito muito pequeno ou nenhum efeito na prevenção, internação hospitalar e mortalidade por Covid-19. Em outra metanálise publicada no dia 12 de fevereiro, dessa vez pela Cochrane, entidade especializada em revisões sistemáticas de estudos, também apresentou conclusão similar.

Ivermectina. O que se sabe até o momento é que o vermífugo inibiu a replicação do Sars-CoV-2 apenas em ambiente laboratorial, e em quantidades tóxicas para seres humanos. Não há evidências de sua ação por meio de estudos clínicos sólidos, necessários para atestar a eficácia de tratamentos. Em 5 de março, o FDA (Food and Drug Administration, agência reguladora de medicamentos e alimentos dos EUA) publicou um alerta pedindo que a população dos EUA não tomasse o vermífugo para tratar a Covid-19. A OMS também não recomenda seu uso no tratamento da doença.

Nitazoxanida. O vermífugo nitazoxanida, conhecido comercialmente como Annita, também não teve a sua efetividade comprovada contra a Covid-19. Em outubro, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Informação havia divulgado que o medicamento era capaz de reduzir a carga viral do novo coronavírus, mas o estudo em preprint foi criticado por falhas, como a exclusão de voluntários que apresentaram eventos adversos. A SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) não recomenda o uso do medicamento pela falta de pesquisas.

Vitamina D e Zinco. Segundo a OMS, micronutrientes como a vitamina D e o zinco são importantes para o bom funcionamento do sistema imunológico e para a nutrição adequada, mas não há orientação de que sejam consumidos especificamente para tratar Covid-19 nem evidências de que possam eliminar o vírus. Recomendação similar é feita pelo NHI (National Institutes of Health, órgão de desenvolvimento de pesquisas do governo dos EUA) pela ausência de dados sólidos.

Além de defender os medicamentos, o médico reitera no vídeo que as drogas são usadas há décadas sem produzirem efeitos colaterais ou danos à saúde dos pacientes e diz ainda que já há cidades e países em diferentes regiões do planeta fazendo uso do suposto “tratamento precoce” que vêm apresentando “resultados satisfatórios”.

Conforme já explicado pelo Aos Fatos em checagem anterior, as bulas dos remédios citados apontam uma série de possíveis reações adversas, incluindo complicações renais, hepáticas, cardíacos e neurológicos.

E, em checagens anteriores (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), o Aos Fatos verificou que ao menos dez cidades brasileiras, além de Bolívia, República Dominicana, Nova Zelândia, Austrália e países africanos, não tiveram reduções de casos ou óbitos comprovadamente associadas a tais medicamentos.

Outro lado. Luiz Barboza Neto aparece como oftalmologista e diretor-presidente do Hospital da Visão Santa Catarina, em Florianópolis, segundo seu registro no site do CRM-SC (Conselho Regional de Medicina do Estado de Santa Catarina). O médico também é filiado ao Partido Novo e já foi candidato a deputado federal e a vice-prefeito de Florianópolis pela legenda em 2018 e 2020, respectivamente. O Aos Fatos tentou contato com ele, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem, na tarde de terça-feira (27).

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10)
2. ScienceDirect
3. Cochrane
4. FDA
5. OMS (Fontes 1 e 2)
6. Medrixv
7. O Globo
8. SBI
9. Hospital da Visão Santa Catarina
10. CRM-SC
11. TSE (Fontes 1 e 2)

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