Vídeo de marroquino nadando não tem relação com crise migratória em Ceuta

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Não é verdade que um vídeo marroquino gravou um vídeo enquanto nadava em direção a Ceuta, como afirmam nas redes sociais. A gravação foi registrada a mais de 400 km do enclave espanhol no norte ​da África e publicada semanas antes da entrada massiva de ​pessoas no local.

Postagens com a alegação enganosa sobre o vídeo reuniam ao menos 2.000 curtidas no Instagram até a tarde desta segunda-feira (10).

Imigrante marroquino filmando a si mesmo com um bastão de selfie enquanto nada em direção ao exclave espanhol de Ceuta durante um grande aumento nas travessias ilegais.

A imagem mostra uma pessoa jovem nadando, com a água chegando aproximadamente à altura do peito. Ela tem cabelos escuros e curtos e veste uma camisa azul-clara e uma peça de roupa verde-clara. A pessoa está segurando um bastão de selfie com a mão direita, enquanto mantém o braço esquerdo estendido para o lado. Ao fundo, há uma parede clara e uma estrutura retangular pouco definida. Na parte superior da imagem aparecem um emoji da bandeira da União Europeia, dois emojis de mãos amarelas e um emoji de rosto sorridente com olhos em forma de coração, enquanto no lado direito há dois emojis de coração partido.

Publicações nas redes sociais enganam ao afirmar que um marroquino filmou a si mesmo enquanto nadava até Ceuta, enclave espanhol no norte da África. O vídeo viral, na verdade, foi gravado a quase 500 km do local e publicado semanas antes do início da crise migratória na região.

A gravação original foi publicada por Yassine Igochi, que se identifica no Instagram como nadador marroquino, em 4 de julho, ou seja, quase quatro semanas antes do agravamento da crise migratória em Ceuta, ocorrida no final de julho.

O post mostra inclusive a localização: El Jadida, cidade portuária na costa atlântica do Marrocos e distante de Ceuta. Veja abaixo:

A imagem mostra um mapa do norte do Marrocos com uma rota marcada por uma linha azul pontilhada que começa na região próxima à costa atlântica, ao sul de Casablanca, e segue em direção ao norte, passando por Casablanca e Rabat, até a região de Tetuão e Ceuta. No topo aparecem Gibraltar, Marbella, Fuengirola e Cádiz, na Espanha. No mapa também estão identificadas cidades marroquinas como Casablanca, Rabat, Fès, Meknes, Chefchaouen, Taza, Settat e Khenifra. Sobre a rota, há uma caixa branca com um ícone de uma pessoa caminhando e as informações '112 hr' e '491 km'. O mapa também mostra o Mar de Alborão, áreas verdes de vegetação, estradas e nomes de localidades em árabe e em alfabeto latino.
Distância entre as duas cidades é de quase 500 km (Reprodução/Google Maps)

Depois que seu vídeo passou a ser compartilhado fora de contexto, Igochi publicou uma nova gravação mostrando o porto da cidade para comprovar que não estava em Ceuta. Em seu perfil, há diversos outros vídeos em que ele nada no mesmo local.

“Como vocês podem ver, estamos no lugar onde fomos no vídeo anterior. Esta é a passagem de Ceuta? Eu sou de El Jadida, El Jadida. Não saio daqui”, disse.

Em entrevista concedida em 1º de agosto a um veículo marroquino, também gravada no porto de El Jadida, Igochi afirmou que nunca esteve em Ceuta e que o vídeo não tem qualquer relação com a crise migratória.

“Estou no mesmo lugar onde gravei aquele vídeo. (...) Atrás de mim, vocês podem ver a marina e o mar. (...) Quando publiquei esse vídeo, de repente comecei a ser atacado por pessoas que diziam que eu tinha entrado ilegalmente na Espanha, mas eu estava na minha própria cidade, não tinha ido a lugar nenhum. Não fui ilegalmente para a Espanha”

Contexto. A crise migratória em Ceuta teve início em 30 de julho, quando milhares de imigrantes atravessaram a fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol, tanto por terra quanto a nado. A chegada em massa sobrecarregou os serviços públicos da cidade e levou o governo espanhol a reforçar o policiamento na fronteira e mobilizar militares para apoiar as operações de controle e resgate.

Ceuta e Melilla são os únicos territórios da União Europeia localizados no norte da África e, por isso, há décadas figuram entre as principais rotas de migração irregular para a Europa.

Segundo autoridades espanholas, a onda migratória mais recente pode ter sido impulsionada pela circulação de informações enganosas nas redes sociais após uma decisão da Suprema Corte da Espanha que proibiu a deportação sumária de imigrantes que chegam ao país pelo mar.

O governo espanhol também investiga se houve flexibilização dos controles de fronteira por parte do Marrocos em meio a tensões diplomáticas entre os dois países.

Esta peça de desinformação também foi desmentida pela Reuters.

O caminho da apuração

Por meio de busca reversa, Aos Fatos encontrou a gravação original no perfil do nadador amador Yassine Igochi e constatou que ela foi publicada antes do início da crise migratória em Ceuta e em uma cidade a mais de 400 km do enclave espanhol.

A reportagem também analisou outros vídeos publicados pelo autor no mesmo porto e consultou entrevistas feitas por Igochi após a viralização da gravação. Para transcrição, utilizamos o aplicativo Escriba.

Por fim, Aos Fatos também reuniu informações de autoridades e da imprensa internacional para contextualizar a crise migratória na Espanha.

Referências

  1. g1 (1 e 2)
  2. Instagram (@lgochi_____07) (1 e 2)
  3. Euronews
  4. The Guardian
  5. CNN Brasil
  6. O Globo

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