É falso que Maria da Penha disse que nunca foi agredida por ex-marido

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Não é verdade que Maria da Penha, ativista que dá nome à lei que pune a violência doméstica contra mulheres, teria dito que nunca foi agredida fisicamente pelo ex-marido, como afirmam postagens nas redes sociais. Uma entrevista dela foi editada e um trecho, no qual ela dá detalhes do tiro que levou do então companheiro, foi suprimido.

Postagens com o conteúdo enganoso reuniam ao menos de 150 mil interações no Instagram e no Facebook. O conteúdo também circula no WhatsApp, onde não é possível medir o alcance.

Maria da Penha revela nunca ter sido agredida fisicamente

A imagem é dividida em três faixas horizontais. A seção superior mostra dois homens com os rostos propositalmente obscurecidos por um efeito de pixelização, sentados diante de microfones de estúdio com uma estante de livros de madeira ao fundo. O homem à esquerda possui pele clara, cabelo curto escuro, veste uma camisa preta de mangas curtas e usa um relógio prateado no pulso esquerdo; o homem à direita possui pele clara e veste um paletó cinza, camisa clara e gravata rosa com pequenas bolinhas brancas. A faixa central exibe um fundo branco contendo o seguinte texto em letras maiúsculas pretas: 'MARIA DA PENHA REVELA NUNCA TER SIDO AGREDIDA FISICAMENTE'. A seção inferior mostra o enquadramento, do pescoço para baixo, de uma pessoa de pele clara sentada em uma cadeira branca, vestindo um blazer vermelho-escuro sobre uma blusa preta, usando um colar com pingente dourado e um relógio no pulso esquerdo, enquanto gesticula com as mãos diante de um fundo branco com elementos gráficos circulares em amarelo e verde-azulado.

Um trecho descontextualizado de uma entrevista de Maria da Penha tem circulado nas redes sociais para sugerir que ela teria admitido que nunca foi agredida por seu ex-marido, Marco Antônio Viveros.

As postagens desinformativas omitem a fala completa de Maria da Penha. Na entrevista, originalmente veiculada em junho de 2023 pelo canal do STJ (Supremo Tribunal de Justiça) no YouTube, ela detalha a ocasião em que foi baleada por Viveros enquanto dormia:

“Eu acordei com um forte barulho dentro do quarto, Quis me mexer, não consegui. Aí pensei, o Marco me matou com um tiro. Foi o primeiro pensamento que eu tive”.

No entanto, as publicações desinformativas compartilham apenas um trecho anterior da mesma entrevista em que Maria da Penha é questionada se ela e as filhas haviam sofrido agressões físicas de Viveros antes do tiro. Ela, então, responde:

“Não, fisicamente não. Fisicamente o máximo que eu [sofri], talvez, um empurrão ou dois, entendeu?".

Em outras ocasiões, ela também relatou que Viveros tentou eletrocutá-la durante o banho depois que ela sobreviveu ao tiro.

Histórico. O caso de Maria da Penha ocorreu em 1983, quando ela foi baleada com um tiro nas costas dentro de casa. Na época, seu ex-marido alegou que a residência havia sido assaltada e que o autor do disparo seria um dos criminosos.

Testemunhas, no entanto, negaram terem visto os assaltantes, e empregadas domésticas do casal afirmaram que Viveros mantinha uma espingarda em casa, informação que ele omitiu à polícia.

Como não havia lei específica de feminicídio, o ex-marido foi julgado pela legislação da época:

  • O primeiro julgamento ocorreu em 1991. Naquele ano, o júri condenou Viveros a 15 anos de prisão, mas pôde recorrer em liberdade;
  • Em 1996, houve outro julgamento, que diminuiu a pena para 10 anos e 6 meses. Após alegações de irregularidades processuais, a sentença não foi cumprida;
  • Em 1998, o crime foi denunciado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos);
  • Viveros só foi preso em outubro de 2002;
  • Ele cumpriu pena em regime fechado até 2004, quando progrediu para o semiaberto, e, em 2007, obteve a liberdade condicional;
  • Em 2024, a Justiça impôs medidas cautelares contra Viveros, incluindo a proibição de divulgar informações sobre o caso.

Peças de desinformação que tentam sugerir que Maria da Penha nunca foi agredida circulam nas redes há anos e ganharam força com um documentário que usou um laudo adulterado para defender que a condenação de Viveros teria sido incorreta.

Essa nova publicação enganosa passou a circular após Viveros ter sido novamente preso no domingo (9). Ele deu uma entrevista sobre o caso à TV Record, mas o Ministério Público do Ceará entendeu que isso violava a decisão judicial de medidas cautelares. A Justiça acatou o pedido e a entrevista não foi ao ar.

Desde 2024, Viveros estava proibido de propagar o nome ou a imagem das vítimas em mídias sociais, aplicativos ou qualquer ambiente virtual.

O caminho da apuração

Aos Fatos procurou a entrevista original que foi editada pelas peças de desinformação e a transcreveu por meio do Escriba. A reportagem analisou a fala de Maria da Penha e buscou a citação sobre as agressões. Aos Fatos também recuperou informações sobre o caso ocorrido em 1983, bem como os andamentos do julgamento do crime.

Por fim, a reportagem entrou em contato com o Instituto Maria da Penha para que eles pudessem comentar a peça de desinformação, mas não recebemos retorno até a publicação desta checagem.

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