Não é real o mapa que circula nas redes que supostamente mostraria a divisão dos votos do eleitorado feminino entre Jair Bolsonaro (PL) e Lula (PT) nos estados no segundo turno de 2022. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) não tem esses dados porque o voto é secreto. Além disso, os resultados mostrados na imagem são matematicamente improváveis quando comparados ao resultado final daquelas eleições.
Posts com o mapa falso acumulavam ao menos 50 mil visualizações no X e milhares de curtidas no Instagram nesta quarta-feira (1º).
O VOTO DAS MULHERES NO 2º TURNO.

São falsas as informações contidas em um mapa que alega mostrar a divisão dos votos femininos para Lula e Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2022. A imagem indica que o atual presidente teria vencido seu antecessor na preferência das eleitoras em todos os estados, à exceção de Roraima, Rondônia e Santa Catarina.
O TSE não coleta dados demográficos de quem votou nas eleições porque isso seria uma violação do sigilo do voto, previsto em lei. Logo, não é possível atribuir à Justiça Eleitoral a autoria dessas informações, como faz a peça desinformativa.
“Não é possível associar os votos registrados na urna à identidade ou ao perfil cadastral da eleitora ou do eleitor. A Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997), no artigo 59, estabelece que os votos são registrados individualmente pelo sistema de votação, preservado o anonimato da pessoa votante”, afirma um trecho da nota enviada pelo TSE.
Na base de dados do tribunal, informações como gênero e estado civil só estão disponíveis em relação ao eleitorado geral (veja abaixo), não de quem de fato votou nos dois turnos do pleito. Ou seja, não é possível descobrir quem foi o preferido de homens e mulheres por estado.
Raphael Nishimura, estatístico da Universidade de Michigan, aponta ainda que os dados do mapa seriam matematicamente questionáveis.
“Para que as mulheres no Acre, onde Bolsonaro obteve 70,3% dos votos no 2º turno, tenham votado majoritariamente em Lula, como indica esse mapa, ao menos 92% dos homens nesse estado deveriam ter votado em Bolsonaro, o que é bastante improvável”, exemplifica.
Aos Fatos não encontrou sequer pesquisas eleitorais que divulgassem dados semelhantes. Naquele ano, não houve levantamento de boca de urna nem no primeiro e nem no segundo turno.
É fato, no entanto, que as pesquisas eleitorais anteriores ao pleito mostraram que o presidente Lula registrava maior intenção de voto do que Bolsonaro entre as mulheres (veja aqui e aqui, por exemplo). Esses levantamentos, no entanto, não representam o resultado da eleição, nem são divididos exatamente por todos os estados.
Origem. Por meio de busca reversa, Aos Fatos identificou que o mapa desinformativo foi publicado originalmente há duas semanas por uma usuária do Instagram que se classifica como “de esquerda”. No post, ela celebra o suposto resultado ao dizer que foram as mulheres que teriam impedido a reeleição de Bolsonaro.
Imagens semelhantes, no entanto, vêm sendo publicadas por páginas bolsonaristas desde o início do ano para criticar a qualidade do voto feminino (veja abaixo).

Essas publicações seguem um movimento que tem crescido nos últimos anos nos EUA para questionar o direito de voto das mulheres. Alguns pastores americanos, por exemplo, defendem que cada família deveria ter direito a apenas um voto — coincidentemente, o do marido.
O presidente Donald Trump também tem aumentado a pressão sobre o Congresso dos EUA para aprovar projeto que exige a apresentação de documento de identidade e comprovante de cidadania dos eleitores.
Porém, a proposta tem sido criticada por dificultar o voto de mulheres e pessoas trans: a lei determina que o nome do eleitor deve ser o mesmo do seu certificado de nascimento, o que cria uma barreira não só para pessoas com nome social como também para mulheres que adotaram o sobrenome do marido após o casamento.
O caminho da apuração
Aos Fatos fez uma busca reversa pela imagem e encontrou diversas publicações e versões do mesmo gráfico. Todas elas indicavam, de forma incorreta, que a fonte seria o próprio TSE.
Procuramos os dados disponíveis na base do tribunal e também entramos em contato com a assessoria da instituição, que desmentiu o conteúdo das publicações. Também buscamos pesquisas eleitorais que apontassem resultados semelhantes, mas não encontramos.
Por fim, conversamos com o estatístico Rafael Nishimura, que, além de confirmar que o TSE não possui os dados, também apontou que os resultados apresentados pelo mapa são matematicamente improváveis.





