Vídeo é editado para fazer crer que Lula xingou o PT

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Um trecho de um discurso do presidente Lula (PT) foi editado e tirado de contexto para fazer crer que ele disse que o PT seria “uma merda”. Os vídeos que têm sido compartilhados omitem que o petista, na verdade, parafraseava uma citação da economista Maria da Conceição Tavares. Em 2005, ao comentar o desempenho da então gestão Lula, ela afirmou: “pode ser um governo de merda, mas é o meu governo”.

Postagens enganosas reuniam ao menos 23 mil compartilhamentos no Facebook e 12 mil curtidas no Instagram até a tarde desta quinta-feira (20).

‘O PT é uma merda? É. Mas é a minha merda’, diz Lula

Captura de tela de um vídeo com um botão de reprodução escuro sobreposto ao centro. Em destaque à esquerda, está Luiz Inácio Lula da Silva — homem de pele clara e barba grisalha —, vestindo um chapéu claro com faixa escura e uma jaqueta bege, segurando um microfone com a mão direita. Sentado à direita, observa-se um homem de pele clara e cabelo grisalho comprido amarrado, usando terno cinza e gravata clara, com a mão direita repousada próxima ao rosto. No canto inferior direito, um pequeno quadro sobreposto exibe uma intérprete de libras — mulher de pele clara, cabelo escuro e óculos —, vestindo blusa preta. O fundo mostra uma tela branca com gráficos de barras verticais em azul-claro. Na parte inferior esquerda, há uma etiqueta azul com o texto 'POLÍTICA' em letras brancas, e logo abaixo, um letreiro branco com a seguinte inscrição em letras maiúsculas pretas: 'O PT É UMA MERDA? É. MAS É A MINHA MERDA', DIZ LULA.

São enganosas as publicações que mostram um vídeo em que o presidente Lula diz que o “PT é uma merda”. Apesar de real, a gravação foi editada para omitir o real contexto: o petista citava uma declaração de outra pessoa naquele momento.

Por meio de busca reversa, Aos Fatos identificou que a fala foi feita no dia 7 de agosto deste ano, quando Lula visitou o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). No trecho destacado, ele se referia a uma história envolvendo a economista Maria da Conceição Tavares (1930-2024):

“O Brasil é grande, nós temos potência, nós temos base intelectual, nós temos base científica. O que precisa é a gente colocar a cara para fora. Se a gente colocar, eu existo, eu gosto de mim. Eu lembro de uma vez a Maria da Conceição Tavares — eu vou falar um palavrão aqui — ela brigando com um cara, eu vi ela brigando com o cara, e o cara falou um tanto de merda, o cara falou muito mal do PT, ela falou: ‘O PT, o PT é ruim, o PT é uma merda, é, mas é a minha merda, não é a sua, então só eu posso falar dela’. Então, o Brasil, nós temos que ter orgulho do Brasil, gente. Nós não somos inferior”.

A declaração de Tavares, no entanto, não foi bem essa: durante uma palestra de Tarso Genro no Rio de Janeiro, em 2005, a economista interveio dizendo que “pode ser um governo de merda, mas é o meu governo. O PT, só não rasgo a carteirinha, porque, quando entrei, ainda era um partido sério. Enquanto eu tiver saúde, ultimamente eu tenho tido muita, eles vão saber o que é gritar”.

Tavares foi filiada ao MDB e, em 1994, entrou para o PT, partido pelo qual se elegeu deputada federal. Depois do mandato, que durou entre 1995 e 1999, virou consultora para assuntos econômicos do partido. Permaneceu nos quadros do PT até a sua morte, em 2024, mas deixou claras suas discordâncias com a legenda.

Desinformações que editam falas do petista para dar um sentido diferente da declaração real têm sido comuns desde antes de Lula ser eleito, principalmente quando o intuito é sugerir que ele estaria insultando trabalhadores e eleitores (veja exemplos aqui e aqui).

Essa peça de desinformação também foi checada pela AFP Checamos.

O caminho da apuração

Aos Fatos fez uma busca reversa pelo vídeo e encontrou a gravação original. A reportagem transcreveu o discurso de Lula no Escriba e analisamos a íntegra de sua fala.

Aos Fatos também procurou informações sobre a fala de Maria da Conceição Tavares, bem como o contexto no qual ela criticou o partido do qual ela participou até morrer, em 2024.

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