Não é verdade que o presidente Lula (PT) criticou a participação de mulheres na política ao dizer: “se a mulher entrar na política, quem é que vai fazer a janta?”. As peças de desinformação distorcem um discurso proferido pelo petista no dia 13. Na ocasião, Lula afirmou que é obrigação do Estado melhorar as condições de vida das mulheres para que elas possam participar mais ativamente da vida política.
Publicações com o conteúdo enganoso acumulavam 20 mil curtidas no Instagram e 5.000 compartilhamentos no Facebook até a tarde desta segunda-feira (20).
Lula comete misoginia ao vivo, e é aplaudido de pé.

Publicações têm tirado de contexto um discurso de Lula para alegar que ele teria questionado “quem vai fazer a janta?” ao abordar a participação feminina na política. Os posts omitem que o presidente na verdade criticava a desigualdade de condições entre homens e mulheres no Brasil.
A declaração compartilhada fora de contexto foi proferida em 13 de abril, durante cerimônia no Palácio do Planalto para assinatura da regulamentação do reembolso-creche para trabalhadores terceirizados da administração federal. A medida também prevê a ampliação do número de beneficiados pela jornada de trabalho reduzida de 40 horas semanais.
Ao abordar a importância das creches, Lula defendeu que o Estado tem papel central na criação de condições para que mulheres possam trabalhar e participar da vida pública em igualdade com os homens. Segundo ele, a falta de apoio no cuidado com os filhos ainda impõe barreiras concretas à inserção feminina, inclusive na política.
Veja abaixo o discurso completo:
Nesse contexto, o presidente afirmou: “A gente às vezes quer que a mulher entre na política, porque tem pouca mulher na política. Mas muitas vezes é difícil para a mulher entrar na política. Muitas vezes a mulher tem dois filhos, três filhos, um filho. Quem é que vai dar janta para aquela criança? Quem é que vai dar banho naquela criança? Quem é que vai colocar aquela criança para dormir, se ela não tem nenhuma ajuda?”.
“Ela [a mulher] está prejudicada na participação política dela, porque a liberdade para ela é mais teórica do que prática. Cabe a nós, então, criarmos as condições para que a mulher seja tratada efetivamente em igualdade”, continuou o petista.
Ele seguiu o discurso afirmando que a igualdade de condições só pode existir quando houver um padrão de organização em que mulheres possam ter creches para deixar os filhos e parceiros que cuidem ativamente das tarefas domésticas, e que é papel do Estado garantir isso.
Procurada por Aos Fatos, a Secom (Secretaria de Comunicação Social) da Presidência da República reforçou que a fala foi tirada de contexto. Segundo a pasta, o governo “tem adotado medidas concretas para ampliar a participação das mulheres na vida pública e no mercado de trabalho, relacionadas ao cuidado e à autonomia econômica feminina”.
Esta não é a primeira vez que falas isoladas do presidente são tiradas de contexto. Recentemente, Aos Fatos desmentiu publicações que editaram o vídeo de uma declaração do petista para dar a entender que ele teria ofendido os habitantes da região Nordeste.
É fato, porém, que Lula já teve falas consideradas misóginas desde que assumiu seu terceiro mandato. Em março de 2025, por exemplo, o presidente afirmou ter escolhido “uma mulher bonita” para chefiar a Secretaria de Relações Institucionais, em referência à deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), para melhorar a articulação do governo com os presidentes da Câmara e do Senado.
Um mês depois, em abril, Lula fez um comentário depreciativo sobre a diretora-geral do FMI (Fundo Monetário Internacional), Kristalina Georgieva, referindo-se a ela como “aquela mulherzinha” e adotando um tom de deboche ao imitar uma fala da economista durante um encontro entre ambos em 2023, no Japão.
Em outro momento, desta vez em julho de 2024, Lula afirmou em uma reunião no Palácio do Planalto ser "inacreditável" que a violência contra mulheres aumente depois de jogos de futebol. Logo em seguida, porém, ele complementou dizendo que “se o cara é corintiano, tudo bem”.
Atualização: Esta reportagem foi atualizada às 14h28 do dia 22 de abril de 2026 para incluir o posicionamento da Secom.
O caminho da apuração
Aos Fatos realizou uma busca textual da fala de Lula e constatou que ela integra um discurso feito em 13 de abril deste ano. Em seguida, utilizamos a ferramenta Escriba para transcrever as declarações do presidente e entender o contexto completo da fala.





