É falso que Lula não negociou com EUA para evitar tarifaço

Não é verdade que o governo Lula não tentou negociar com os EUA para evitar um novo tarifaço, como dizem posts que circulam nas redes desde o anúncio da medida pela gestão Trump. Registros do Itamaraty e da imprensa comprovam que foram realizadas mais de 30 reuniões, inclusive entre os presidentes dos dois países, para tentar demover os americanos da imposição de mais taxas sobre as exportações brasileiras.

A alegação enganosa foi localizada em publicações e comentários no Facebook e no X nesta quinta-feira (16).

Que fique bem claro, Lula não negociou com os EUA.

Uma captura de tela de uma postagem em rede social exibe, na parte superior, um cabeçalho com a foto e o nome do perfil borrados digitalmente (pixelados). Logo abaixo, o autor da postagem escreveu em português: ‘Que fique bem claro, Lula não negociou com os EUA’. Embutida nessa publicação, há uma captura de outra postagem feita pela conta ‘Secretary Marco Rubio’ (@SecRubio), identificada com um selo cinza de verificação e um ícone de conta governamental, publicada há 11 horas. O texto desta postagem, em inglês, diz: ‘Today, President Trump directed USTR to impose a 25% tariff on most Brazilian imports. Let there be no confusion about why: President Lula and his government have not negotiated with the US in good faith. His economic policies are bad for Americans and bad for Brazilians. For’ (o texto é cortado no final).

Publicações nas redes enganam ao tentar fazer crer que os EUA vão impor a nova taxa de 25% sobre exportações brasileiras porque o presidente Lula (PT) não quis negociar com o governo americano. Há farta documentação nos canais do Ministério das Relações Exteriores e registros na imprensa que desmentem essa alegação.

Desde que a primeira rodada do tarifaço foi anunciada, em 9 de julho de 2025, o governo e autoridades americanas fizeram mais de 30 reuniões, de acordo com o Itamaraty. A última delas foi na terça-feira (14), um dia antes do anúncio das tarifas, com Jamieson Greer, representante comercial dos EUA.

Após o encontro, o governo chegou a divulgar uma nota dizendo que a aplicação de qualquer sobretaxa seria “injusta” e que “nenhuma das razões apontadas justificam a aplicação das tarifas recomendadas”.

O USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) justificou a imposição de tarifas dizendo que o Brasil adota práticas que oneram ou restringem o comércio com os EUA. Entre os motivos apontados está o PIX, a taxação do etanol e o desmatamento ilegal.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, disse nesta quinta-feira (16) que as demandas apresentadas nas negociações eram “irrazoáveis” e buscavam a abertura total, irrestrita e exclusiva de setores da economia aos americanos. “Todas as alegações dos norte-americanos para justificar a aplicação de tarifas não têm lastro na realidade”, afirmou.

O Palácio do Planalto, por meio da Secom (Secretaria de Comunicação Social), afirmou nesta quinta-feira (16) que, ao longo do último ano, o governo brasileiro atuou ininterruptamente junto à USTR pelo encerramento das investigações.

O caminho do tarifaço

Veja uma linha do tempo das negociações entre Brasil e EUA

Donald Trump anuncia que os EUA pretende impor tarifas às importações de aço e alumínio. Ainda não havia indicação de tarifas específicas por país.

Os EUA passam a aplicar 25% de tarifas sobre produtos do México e Canadá e 20% sobre produtos chineses. Trump disse que poderia reverter a decisão caso esses países "construíssem fábricas nos EUA".

Tarifas gerais

Governo americano amplia a lista de países tarifados, incluindo o Brasil. Naquele momento, o país tinha uma tarifa básica de 10% sobre os produtos. Segundo o Itamaraty, nesse mesmo dia, o ministro Mauro Vieira conversou com o representante do USTR por telefone.

Trump manda uma carta a Lula para anunciar que aumentaria as tarifas aplicadas ao Brasil para 50%. Na justificativa, o presidente americano diz que o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) era uma "vergonha internacional". Lula, então, respondeu que "o Brasil é um país soberano" e que "não aceitará ser tutelado por ninguém".

O USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) anuncia uma investigação sobre "práticas desleais de comércio no Brasil". O órgão citava como "desleais", por exemplo, o sistema de pagamento brasileiro Pix, o comércio na 25 de Março e a remoção de conteúdos de redes sociais a pedidos da Justiça brasileira.

O governo americano divulga uma lista de produtos brasileiros que não teriam a taxa adicional de 40% e, portanto, ficariam apenas com a inicial, de 10%. Entre os 694 itens, estavam, por exemplo, minério de ferro e suco de laranja.

Entram em vigor as tarifas de 50% a produtos brasileiros. O governo brasileiro recorre à OMC (Organização Mundial do Comércio) para avaliar o caso. Segundo o Itamaraty, "ao impor as citadas medidas, os EUA violam flagrantemente compromissos centrais assumidos por aquele país na OMC, como o princípio da nação mais favorecida e os tetos tarifários negociados no âmbito daquela organização".

Governo brasileiro enviou uma carta para argumentar que as práticas brasileiras eram legítimas e não prejudicavam o comércio dos EUA. Outra carta foi enviada, depois, no dia 10 de setembro.

Lula e Trump se encontram, presencialmente, pela primeira vez, durante a assembleia na ONU. O presidente americano elogiou Lula e disse que os dois iriam se reunir em uma data próxima.

Mauro Vieira e Marco Rubio se encontram em Washington para discutir o tarifaço. Naquela época, o ministro disse que "prevaleceu a atitude construtiva e voltada a aspectos práticos da retomada das negociações entre os dois países, em sintonia com a boa química e o que foi decidido sobretudo no telefonema recente entre o presidente Lula e o presidente Trump".

Reunião bilateral

O encontro entre Trump e Lula aconteceu, de fato, na Malásia. Segundo Lula, foram discutidas a agenda comercial e econômica e, especificamente, as tarifas e sanções aplicadas contra produtos brasileiros.

Após pressão dos consumidores americanos, Trump retira a tarifa inicial, de 10%, de alguns produtos.

Trump remove também a tarifa extra de 40% de alguns produtos agrícolas do Brasil.

A Suprema Corte dos EUA derruba o tarifaço imposto por Trump, entendendo que o presidente extrapolou sua autoridade ao promover tarifas sem o aval do Congresso.

Visita de Lula

Os dois presidentes se encontram novamente, dessa vez na Casa Branca. Segundo o governo brasileiro, Lula tinha o objetivo de tentar convencer Trump a derrubar o restante das tarifas.

Ocorre a primeira reunião de "alto nível" entre o Itamaraty, o Ministério do Desenvolvimento e assessores da Presidência e representantes do comércio dos EUA. Os encontros se repetiram em junho e julho.

O USTR conclui a investigação sobre o Brasil e recomenda que os EUA taxem as importações brasileiras em 25%.

Os EUA promovem uma audiência pública com representantes do setor produtivo para debater a tarifa proposta pelo USTR. O senador Flávio Bolsonaro compareceu e pediu que as tarifas fossem postergadas para depois das eleições. O governo brasileiro não enviou nenhum representante para falar na audiência porque entendia que "este espaço, das audiências públicas, não é o adequado para negociação real, e sim, as conversas técnicas e de alto nível que têm havido nas últimas semanas e que estão programadas para os próximos dias". Porém, a embaixada em Washington enviou representantes, na condição de observadores.

Na última reunião antes do prazo estipulado pela investigação, negociadores do governo Lula disseram que os representantes da Casa Branca se mostraram "inflexíveis" e fizeram demandas "inegociáveis". Segundo os ministros, Lula pediu para que o Brasil não deixasse a mesa de negociação.

Governo confirma a aplicação de 25% de tarifas aos produtos brasileiros, que entra em vigor no dia 22 de julho. Alguns produtos, no entanto, ficaram de fora do tarifaço, como carnes, café e minérios.

Integrantes do Itamaraty dizem, à imprensa, que a decisão dos EUA é uma "politização evidente" e acusam o governo americano de justificar as tarifas com dados falsos.

Algumas publicações citam um tweet do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, como prova de que o governo não teria negociado o fim das tarifas. No post, publicado nesta quinta-feira (16), no entanto, Rubio diz que Lula “não negociou com os EUA com boa-fé”.

“Desde o primeiro momento, o presidente Lula buscou o diálogo e enfatizou sua disposição de negociar qualquer tema”, disse Vieira no pronunciamento desta quinta. Ele classificou as declarações de Rubio de “inaceitáveis e ofensivas ao povo brasileiro e ao governo brasileiro”.

A alegação de que o governo Lula não demonstrou disposição de negociar com a gestão Trump já vinha sendo usada pelo senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e seus apoiadores desde a audiência pública realizada nos EUA no início do mês.

O governo disse que enviou observadores para o encontro e afirmou que não se inscreveu para participar porque já havia apresentado uma resposta formal às investigações da USTR. O Itamaraty disse não ver a audiência como um canal oficial de negociação.

O caminho da apuração

Aos Fatos procurou a Secom e o Itamaraty e enviou as publicações com a alegação enganosa. Os dois órgãos responderam, alegando que foram feitas dezenas de reuniões com autoridades americanas e que as negociações não foram frutíferas porque as demandas dos EUA eram “irrazoáveis”.

A reportagem também recuperou informações na imprensa sobre o tarifaço desde 2025, quando as primeiras taxas foram anunciadas por Trump, além das investigações conduzidas pelo USTR.

Aos Fatos acompanhou o pronunciamento do ministro Mauro Vieira e a entrevista coletiva do vice-presidente Geraldo Alckmin e ministros nesta quinta-feira (16). Foi coletado ainda o tweet publicado por Marco Rubio.

Por fim, Aos Fatos procurou o senador Flávio Bolsonaro para que o político pudesse comentar a citação feita na reportagem. Em nota, a assessoria do senador afirmou que o governo Lula teria desinteresse na negociação com Trump.

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