Foi gravado em 2024, não agora, o vídeo em que o presidente Lula (PT) rebate um jornalista ao ser questionado por que não citou a Venezuela em discurso na ONU (Organização das Nações Unidas). As peças de desinformação, que têm compartilhado a fala como se fosse uma reação à prisão do ditador Nicolás Maduro no sábado (3), enganam ainda ao omitir que o petista não deu entrevistas sobre o caso até o momento.
As peças enganosas somavam 100 mil visualizações no X, 1,2 milhão de visualizações no TikTok, e 25 mil curtidas no Instagram até a tarde desta terça-feira (6).
Com os olhos cheio de lágrimas e gaguejando o Lula fala pela primeira vez sobre a captura de Nicolás Maduro na Venezuela

Posts nas redes têm compartilhado um vídeo de 2024 como se fosse recente para alegar que Lula teria se irritado com jornalistas ao ser questionado sobre a prisão de Maduro. Por meio de busca reversa, Aos Fatos verificou que a gravação foi feita em setembro daquele ano, na posse da presidente do México, Claudia Scheinbaum.
Durante a viagem, Lula foi questionado por jornalistas sobre os motivos de não ter citado a crise política da Venezuela durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, proferido na semana anterior.
Em resposta, o presidente afirmou: "Por que eu tenho que falar da Venezuela em todo lugar? Eu não falo nem da Janja em todo lugar. Por que eu vou falar da Venezuela. Eu falo quando me interessa falar”.
Meses antes, em julho, o Conselho Nacional Eleitoral, órgão comandado por um aliado de Maduro e responsável pela contagem dos votos, declarou a vitória do ditador venezuelano antes da apuração completa das urnas. A recusa da autoridade eleitoral em mostrar as atas que comprovassem os resultados gerou suspeitas de fraude e provocou manifestações pelo país.
O governo brasileiro foi um dos países que cobrou a divulgação dos documentos, que nunca foram liberados. Em agosto de 2024, Lula afirmou pela primeira vez não reconhecer o resultado do pleito na Venezuela.
O petista não havia concedido entrevistas sobre a prisão de Maduro até a publicação desta checagem, na tarde de terça-feira (6).
Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.
— Lula (@LulaOficial) January 3, 2026
Atacar países, em…
A única declaração do presidente brasileiro até agora foi publicada no X no sábado (3), mesmo dia da captura de Maduro pelos EUA. Nela, Lula condena o uso da força e diz que a ação lembra “os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe” e ameaça “a preservação da região como zona de paz”.
Maduro e sua mulher, Cilia Flores, serão julgados pela Justiça dos EUA em um tribunal de Nova York. O governo americano acusa o ditador venezuelano de chefiar uma organização de narcotráfico que estaria enviando cocaína para os EUA.
Em audiência na segunda (5), Maduro se declarou inocente de todos os crimes apontados — entre eles, narcoterrorismo e posse de armas de explosivos — e alegou ser um “prisioneiro de guerra” de Donald Trump.
O caminho da apuração
Aos Fatos fez busca reversa para identificar a data e o contexto original do vídeo compartilhado nas redes. A reportagem localizou o registro de setembro de 2024, gravado durante viagem oficial de Lula ao México.
Em seguida, verificamos a agenda pública e as declarações recentes do presidente após a prisão de Maduro. Também analisamos publicações oficiais nas redes para confirmar que não houve entrevistas concedidas após o episódio.




