Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), os dois candidatos mais bem posicionados na disputa presidencial deste ano, têm dado declarações falsas e distorcidas desde que o caso Master desembocou em uma crise institucional sem precedentes no STF (Supremo Tribunal Federal).
O petista, por exemplo, disse que Flávio poderia ter votado a favor da nomeação de Alexandre de Moraes ao Supremo em 2017, no governo Temer (MDB). Isso, no entanto, não é possível porque, na época, ele era deputado estadual no Rio de Janeiro.
O presidenciável do PL, por sua vez, desinforma ao dizer que a postura do ministro André Mendonça sempre foi a de investigar todo mundo, com transparência. O magistrado só abriu o sigilo das investigações após pedido, reiterado, de Edson Fachin, presidente da Corte, e é acusado por colegas de promover vazamentos seletivos.
Aos Fatos checou três afirmações enganosas de cada um dos candidatos sobre a crise do Supremo e suas repercussões. Confira abaixo:
1. Lula (PT)
Quando o Alexandre de Moraes foi indicado para ministro do Supremo, [o Flávio] era senador. Ele deve ter votado nele. — 16.set.2026.
Flávio Bolsonaro não era senador quando Moraes foi indicado e aprovado ao cargo, em fevereiro de 2017. Na época, ele era deputado estadual do Rio de Janeiro. Logo, não participou da sabatina ou da votação da indicação no Senado.
Moraes foi indicado pelo ex-presidente Michel Temer (MDB), em 3 de fevereiro de 2017, e teve seu nome aprovado pelo Senado por 55 votos a 13 em 22 de fevereiro de 2017. Flávio só tomou posse como senador quase dois anos depois, em 1º de fevereiro de 2019.
Lula mencionou a indicação de Moraes ao se defender da tentativa de Flávio de associá-lo ao ministro em meio ao caso Master, com o slogan “votar no Lula é votar no Moraes”.
Alexandre de Moraes, sabe, mandou prender o cara que matou a Marielle — 16.set.2026.
O ministro Alexandre de Moraes não determinou a prisão de Ronnie Lessa, autor dos disparos que mataram a vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista, Anderson Gomes. Lessa foi preso em março de 2019 durante a Operação Lume, realizada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro. A prisão foi determinada pelo juiz Gustavo Kalil, do 4º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro, a pedido do Ministério Público estadual.
É fato, porém, que Moraes ordenou, em março de 2024, a prisão preventiva dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, apontados pela Polícia Federal como mandantes do crime, e do delegado Rivaldo Barbosa, acusado de participar do planejamento do crime e obstruir as investigações.
As prisões foram posteriormente confirmadas por unanimidade pelo plenário do STF.
O presidente mencionou o caso ao atribuir a rivalidade entre Flávio e Moraes às decisões tomadas pelo ministro, e não às investigações do caso Master. Segundo Lula, Flávio teria uma “obsessão” pelo magistrado porque ele atuou no caso Marielle e relatou ação penal que resultou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Só é importante você lembrar que a primeira reforma no Poder Judiciário fui eu que fiz — 15.set.2026.
É verdade que foi durante o primeiro mandato de Lula que o Congresso aprovou a Emenda Constitucional 45/2004, conhecida como reforma do Judiciário. A medida proporcionou diversas mudanças na Justiça brasileira, entre elas a criação do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).
A reforma, porém, não foi iniciativa do governo Lula, como a fala do presidente pode fazer parecer. A proposta que deu origem à emenda foi apresentada pelo então deputado federal Hélio Bicudo (PT-SP) em 1992 e tramitou por cerca de 13 anos no Congresso antes de ser promulgada.
O governo Lula de fato participou e atuou ativamente nas articulações para a aprovação da proposta à época, mas a discussão e a elaboração da reforma atravessaram diferentes governos e legislaturas.
2. Flávio Bolsonaro (PL)
Eu queria muito que todos do Supremo fossem iguais ao Mendonça, não pesassem para lado nenhum. Investiga tudo, todo mundo, com transparência, mostra pra imprensa, mostra pro povo — 11.set.2026.
O ministro André Mendonça tornou públicos documentos das investigações relacionadas ao caso Master, mas a divulgação não foi voluntária ou integral nem ocorreu de uma só vez. Inicialmente, o ministro retirou o sigilo de materiais que revelaram apenas as conversas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.
Na noite de 10 de setembro, o presidente do STF, Edson Fachin, solicitou a Mendonça que enviasse à presidência e aos demais ministros “todos os procedimentos contidos ou relacionados” ao caso Master.
Na sexta-feira (11), Moraes encaminhou um ofício no qual acusava o colega de manter documentos sob sigilo de forma seletiva e alegava que Mendonça deixou de divulgar ao menos 180 peças.
A Moraes, o ministro negou ter selecionado documentos e disse que parte do material deveria permanecer protegido para não atrapalhar o andamento das ações em curso ou expor dados dos investigados.
Foi somente após uma segunda determinação de Fachin que Mendonça tornou públicos os outros procedimentos que ainda permaneciam sob sigilo mesmo sem risco de atrapalhar as investigações.
Mesmo após essa nova divulgação, outros ministros continuam acusando Mendonça de vazamento seletivo. Nesta quinta (17), Gilmar Mendes fez uma publicação no X em que compara o caso Master à Lava Jato. Segundo ele, a divulgação das informações nos dois casos ocorreu de forma seletiva para influenciar a percepção pública.
Em resposta, o gabinete de Mendonça divulgou uma nota em que diz que o pedido para retirada do sigilo “de todo e qualquer procedimento, sem exceção” não partiu do ministro, mas de quem “se diz indignado com a publicidade dos autos”, em uma referência velada a Mendes.
Todo mundo viu o PGR, que é citado nas investigações, dando sua opinião também, o que é completamente um tapa na cara da população brasileira — 15.set.2026.
Nesta declaração, Flávio critica a participação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, durante o julgamento do STF sobre a admissão de investigação sobre Alexandre de Moraes. Segundo o candidato, o PGR, por ser citado nas investigações, não poderia opinar sobre o caso.
Mas a fala do senador distorce o que de fato aconteceu: em seu voto, o ministro André Mendonça disse que, apesar de haver citação do nome do procurador-geral da República nas mensagens do celular de Vorcaro, não foram encontrados elementos que justificassem abertura de investigação.
Gonet, então, mesmo não tendo se registrado para falar, pede a palavra, o que é concedido pelo presidente e pelos ministros presentes. Ele agradece a Mendonça por ter “reconhecido que não havia nada do que foi colhido que pudesse induzir a alguma prática de ilícito por parte do procurador-geral da República”.
Ele complementa ainda dizendo que “o único encontro que eu tive com o senhor Vorcaro se deu com várias autoridades, em abril de 2024. A única ligação, intermediada por advogado, foi brevíssima e banal”.
Gonet, portanto, não opinou sobre o tema que estava sendo discutido na ocasião — se o relatório da PF usado por Mendonça era ou não válido para embasar abertura de investigação contra Alexandre de Moraes.
Não tem absolutamente nada de errado com esse filme, não tem um centavo de dinheiro público, eu já cansei de falar. — 10.set.2026.
A declaração de Flávio Bolsonaro ocorreu após o ministro Flávio Dino determinar uma operação de busca e apreensão em meio à investigação do financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A declaração foi considerada FALSA porque o que a PF apura é, justamente, se emendas parlamentares abasteceram o longa-metragem.
A ação investiga um repasse de R$ 2 milhões em emendas do deputado federal Mário Frias (PL-RJ) para o Instituto Conhecer Brasil, entidade ligada à Karina Ferreira da Gama, proprietária da GoUP, empresa responsável pela produção do filme sobre a vida do ex-presidente.
Segundo o pedido de Dino, a PF identificou que Karina seria a “destinatária de recursos financeiros provenientes de pessoas e empresas relacionadas ao núcleo investigado, revelando possível integração patrimonial e operacional com as entidades beneficiárias das emendas parlamentares”.
A investigação segue em andamento, e, portanto, não é possível confirmar ou negar a existência de qualquer irregularidade.
Outra frente de investigação também foi aberta por André Mendonça na petição 16369, de 22 de julho, que apura os repasses feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao filme. Os detalhes do caso, no entanto, permanecem em sigilo.
Flávio já disse, repetidas vezes, que divulgaria o contrato e prestaria contas sobre o projeto. No entanto, ele nunca cumpriu a promessa e repassou a responsabilidade para a GoUp.
A produtora, por sua vez, apresentou à Justiça uma perícia contratada de forma terceirizada. Porém, nela não constam as notas fiscais, os recibos e os extratos bancários que detalhariam as despesas do longa.
Um dos pontos não explicados é a origem dos recursos repassados à produtora pelo fundo Havengate, gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Uma das suspeitas da PF é que parte desses valores foi utilizada para custear as despesas do ex-deputado federal, que se mudou para os Estados Unidos com a família em fevereiro de 2025.
Outro lado
Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de imprensa dos dois candidatos e enviou um resumo com as checagens feitas pela equipe. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.
As checagens podem ser atualizadas caso haja retorno.
O caminho da apuração
Aos Fatos acompanhou as falas dos candidatos e transcreveu suas entrevistas e discursos das últimas semanas. As declarações foram checadas com base em documentos da Justiça, reportagens na imprensa e informações oficiais de promulgação de leis.
Aos Fatos procurou as duas campanhas na tarde desta quinta-feira (17) para abrir espaço para comentários. Nenhuma respondeu até a publicação desta reportagem.





