Lula desinforma ao citar dados sobre inflação e legado econômico

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Em um cenário de queda nos índices de aprovação do governo e de inflação dos alimentos, o presidente Lula (PT) tem recorrido a informações enganosas ao abordar indicadores econômicos. Em ao menos três ocasiões nas últimas semanas, o presidente inflou dados positivos sobre seus mandatos anteriores e exagerou problemas enfrentados por outras gestões.

Lula desinformou ao dizer, por exemplo, que havia inflação de 80% ao mês entre as décadas de 1960 e 1970, quando ainda atuava no setor metalúrgico.

Ele também enganou ao afirmar que o Brasil não registrou crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) acima dos 3% entre 2011 e 2022, além de superestimar dados sobre superávit primário e crescimento varejista enquanto estava no poder.

Confira abaixo o que checamos:

(...) quando eu trabalhava na Villares [1966-1972] eu cheguei a pegar inflação de 80% ao mês” — em discurso, 7.mar2025

Não houve inflação de 80% ao mês no período em que o presidente Lula trabalhou nas Indústrias Villares, uma metalúrgica de São Bernardo do Campo (SP). O petista ingressou na empresa em 1966 e deixou a linha de montagem em 1972, quando assumiu uma das secretarias do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema (SP).

Como o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) foi criado apenas em 1980, é necessário usar outro indicador para analisar a inflação no período citado por Lula. De acordo com o professor de Direito Tributário do Damásio Educacional, Caio Bartine, a melhor referência é o IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna).

Calculado pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), o levantamento é amplamente usado em comparações econômicas de longo prazo, já que possui uma série histórica extensa.

“Não há registro de qualquer mês entre 1966 e 1979 [antes da criação do IPCA] em que a inflação tenha atingido 80% ao mês. O Brasil, de fato, enfrentava inflação elevada nesse período, mas os níveis mensais eram significativamente inferiores ao mencionado pelo presidente”, afirmou Bartine ao Aos Fatos.

  • A inflação mensal entre 1966 e 1972 oscilou entre 7,67% (em janeiro de 1966) e 0,71% (em dezembro de 1972) ao mês;
  • Já o acumulado anual no mesmo período oscilou entre 39,11 % (em 1966) e 15,73% (em 1972);
  • Um percentual igual ou superior a 80% ao mês foi registrado somente em março de 1990 (81,32%), mês de transição do governo de José Sarney (MDB) para o de Fernando Collor (PRD).

Durante o período da ditadura militar conhecido como “Milagre Econômico” (1968-1973), houve uma relativa estabilização da inflação em patamares mais baixos devido ao crescimento acelerado. Isso ocorreu às custas do endividamento público e do aumento da desigualdade social.

“Foi apenas a partir dos anos 1980 que a inflação brasileira começou a entrar em uma trajetória de hiperinflação, com picos mensais muito elevados”, afirma Bartine.

Outro lado. Em nota, a Secom afirmou que "é válida a comparação do presidente Lula entre os picos de inflação anual no passado e os índices registrados hoje. O Brasil, de fato, já registrou o índice anual superior a 80%. Graças à boa condução da política econômica nos governos Lula".

Conforme pode ser verificado na declaração, no entanto, Lula se referia claramente à inflação mensal e não anual.

Só cresceu [a economia brasileira] acima de 3%, a última vez que cresceu foi no meu governo, em 2010, que a economia cresceu 7,5%. De lá para cá, ela nunca mais cresceu acima de 3%.” — em discurso, 7.mar2025.

Não é verdade que a economia brasileira não cresceu acima de 3% após Lula deixar a presidência, em 2010. O PIB (Produto Interno Bruto) bateu essa marca em 2011, 2021 e 2022.

A série histórica do Banco Central mostra que, em 2011, no primeiro ano do governo de Dilma Rousseff (PT), o PIB cresceu 3,97%. Já em 2021 e 2022, no terceiro e no quarto anos do governo de Jair Bolsonaro (PL), o aumento foi de 4,6% e 3,02%, respectivamente.

Os números de 2021 e 2022 refletem um crescimento econômico em recuperação após o impacto inicial da pandemia — em 2020, o PIB sofreu retração de 3,2%. Já 2023 e 2024 registraram crescimento de 3,24% e 3,4%, respectivamente.

Outro lado. Segundo a Secom, "o crescimento do PIB em 2021 foi contaminado pelo fato de o PIB ter caído de forma expressiva no ano anterior".

A checagem, no entanto, mostra que houve um crescimento maior do que 3,5% do PIB em 2011, ano em que Dilma Rousseff governava o país, e 2022, durante o governo Bolsonaro.

Eu tive o prazer (...) de ser o presidente que fez um superávit primário de 4,25%. A inflação estava 4,5% e o comércio varejista estava crescendo a 13%.” — em entrevista a jornalistas, 12.fev.2025

A declaração de Lula sobre os dados econômicos de seus dois primeiros mandatos (2003-2010) é enganosa porque:

  • Só houve superávit primário próximo ao sugerido pelo presidente em três de seus oito anos de governo;
  • A inflação citada também só foi registrada em três dos oito anos de mandato, mas os índices só coincidiram em 2006;
  • E em nenhum ano entre 2003 e 2010 o comércio varejista teve um percentual de crescimento igual ou superior a 13%.

Houve superávit primário — diferença positiva entre receitas e despesas primárias do governo — igual ou acima de 4,25% do PIB em:

  • 2003, quando a cifra foi de R$ 66,173 bilhões, ou 4,32% do PIB;
  • 2005, quando o valor chegou a R$ 93,5 bilhões, ou 4,84% do PIB;
  • 2006, quando o saldo positivo foi de R$ 90,144 bilhões, ou 4,32% do PIB.

O menor percentual foi registrado em 2009, quando o superávit ficou em 2,06% do PIB — menos da metade do que foi citado por Lula. Houve superávit em todos os anos dos dois primeiros mandatos do presidente.

Já a inflação igual ou menor a 4,5% foi registrada em:

  • 2006, quando o índice foi de 3,14%. Nesse ano, o superávit foi superior a 4,25%;
  • 2007, quando o indicador chegou a 4,46%;
  • e em 2009, quando os números chegaram a 4,31%.

O maior índice de inflação foi registrado em 2003, primeiro ano do primeiro mandato de Lula, quando o indicador chegou a 9,3%. No último ano do segundo mandato do petista, a inflação ficou em 5,91% — ou seja, 1,66 pontos percentuais acima do que foi citado pelo presidente.

Por fim, o comércio varejista não teve um percentual de crescimento igual ou superior a 13% em nenhum momento entre 2003 e 2010. O maior índice registrado foi de 10,9%, em 2010.

Outro lado. Em nota, a Secom alega que "em nenhum momento o presidente Lula afirmou que esses índices foram registrados em todos os anos de seus dois primeiros mandatos, nem que eles se referem a todo o período entre 2003 e 2010". A checagem, no entanto, apontou que a declaração é imprecisa porque os dados não coincidem entre si.

Sobre o dado do comércio varejista, eles alegam ainda que Lula se referia ao dado de crescimento do varejo ampliado, que de fato cresceu 13,5% em 2007.

O caminho da apuração

Aos Fatos consultou especialistas em direito tributário, assim como dados econômicos compilados por IBGE, FGV e Banco Central.

Os discursos e entrevistas de Lula têm sido acompanhados pelo Aos Fatos e transcritos pela ferramenta Escriba. As declarações são categorizadas e checadas em caso de desinformação.

Esta checagem foi atualizada às 13h15 de 19.mar.2025 para acrescentar o posicionamento da Secom.

Referências

  1. CNN Brasil
  2. Aos Fatos (1 e 2)
  3. YouTube (1 e 2)
  4. FGV
  5. Brasil Indicadores
  6. BBC Brasil
  7. Banco Central

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