Não é verdade que o presidente Lula (PT) disse que o Brasil está preparado para ajudar Cuba caso os Estados Unidos decidam invadir a ilha. As publicações distorcem um posicionamento feito em carta pública conjunta de Brasil, Espanha e México em que é reiterada a defesa do respeito à soberania dos países e a solução de conflitos pelo diálogo.
Publicações com a declaração falsa acumulavam mais de 4.000 curtidas no Instagram e 1.500 compartilhamentos no Facebook até a tarde desta segunda-feira (20).
Lula diz que, se Trump invadir Cuba, Brasil estará pronto para ajudar a proteger a ‘soberania’ do país.

Publicações nas redes inventaram uma fala de Lula para tentar fazer crer que o presidente teria afirmado que o Brasil iria ajudar a proteger Cuba militarmente de uma eventual invasão americana.
O primeiro registro da peça de desinformação, publicado no Facebook no domingo (19), indica que a declaração teria sido feita por meio de carta divulgada no dia anterior. O documento citado, no entanto, não traz nenhuma passagem semelhante.
Assinada pelos governos brasileiro, mexicano e espanhol, a Declaração Conjunta Sobre a Situação em Cuba reitera “a necessidade de respeitar, em todos os momentos, o direito internacional e os princípios da integridade territorial, da igualdade soberana e da solução pacífica de controvérsias” e pede “um diálogo sincero, respeitoso e em conformidade com o direito internacional”.
Não há menção à proteção de Cuba contra uma suposta invasão americana.
Aos Fatos procurou por alusões ao país em outros discursos e entrevistas recentes do presidente, mas não encontrou nada similar ao que é dito pelas peças de desinformação:
- Na mesma data da publicação da carta, Lula discursou em um evento no Fórum de Defesa da Democracia, na Espanha. Ele disse que está muito preocupado com a situação de Cuba, mas que “é um problema dos cubanos. Não é um problema do Lula”;
- Um dia antes, o presidente concedeu uma entrevista ao El País na qual reiterou a importância de Cuba e criticou o bloqueio imposto pelos americanos ao país. Em nenhum momento, no entanto, o petista comentou sobre uma possível invasão dos EUA;
- Na manhã desta segunda-feira (20), Lula foi questionado sobre qual seria o posicionamento do governo brasileiro caso Trump atacasse Cuba. O petista respondeu: “eu serei contra a invasão de Cuba. Como eu fui contra a da Venezuela, como eu fui contra a da Ucrânia, como eu fui contra a de Gaza, como eu sou contra a do Irã. Eu sou contra a falta de respeito à integridade territorial das nações. Eu sou contra qualquer país do mundo se meter a ter ingerência política de como a sociedade de um país deve se organizar ou não”.
Procurada pelo Aos Fatos, a Secom (Secretaria de Comunicação Social) da Presidência da República afirmou que o conteúdo das publicações é falso: “a posição pública do presidente Lula é a defesa da soberania das nações e da resolução pacífica de conflitos, princípios que orientam historicamente a política externa brasileira”.
Tensão. As peças de desinformação circulam em um contexto de tensão crescente entre EUA e Cuba. Na sexta-feira (17), o presidente americano Donald Trump disse que uma mudança no país caribenho iria acontecer “em breve”.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, disse então que o país está pronto para enfrentar uma agressão militar americana: “não a queremos, mas é nosso dever nos prepararmos para evitá-la e, se for inevitável, vencê-la".
Desde que foi reeleito, Trump ameaça invadir Cuba. No início deste ano, por exemplo, ele disse em entrevista que seria “uma grande honra” tomar o país: “posso libertá-la ou conquistá-la, acho que posso fazer o que eu quiser com ela”.
Cuba é alvo de um embargo econômico imposto pelos EUA desde 1962. Segundo o Departamento de Estado americano, o bloqueio deve continuar enquanto o regime cubano “se recusa a aderir à democratização e a um melhor respeito aos direitos humanos”.
O caminho da apuração
Aos Fatos procurou a íntegra do documento citado nas peças de desinformação e também analisou todas as falas do presidente feitas na última semana que citam a palavra “Cuba”. Buscamos ainda informações mais recentes para ilustrar a tensão entre o país caribenho e os EUA.
Por fim, procuramos a Secom da Presidência para abrir espaço para comentários.





