Lula, Bolsonaro, Ciro e Tebet iniciam campanha com declarações falsas sobre economia

Por Marco Faustino, Amanda Ribeiro e Priscila Pacheco

19 de agosto de 2022, 19h26

Na primeira semana da campanha eleitoral, os presidenciáveis Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jair Bolsonaro (PL), Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) deram declarações enganosas sobre temas econômicos e sociais.

O petista disse que, em seu governo, 90% das categorias tiveram aumentos reais, o que não procede. O atual presidente enganou ao dizer que o Brasil é o único país com deflação. O candidato do PDT afirmou que a distribuição de renda do país é a pior do mundo, quando não é. Já a postulante do MDB subestimou o número de pagamentos do auxílio emergencial a falecidos.

Confira a seguir o que checamos:

  1. Luiz Inácio Lula da Silva
  2. Jair Bolsonaro
  3. Ciro Gomes
  4. Simone Tebet

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA


Selo falso

“Durante todo o tempo que eu fui presidente, 90% das categorias organizadas (...) recebiam aumento de salário acima da inflação” - em evento na USP (16.ago.2022)


Apenas em três dos oito anos de Lula na Presidência (2003-2010) o percentual de categorias profissionais que conquistaram reajustes salariais acima da inflação foi próximo do citado pelo petista: 2006 (86,3%), 2007 (87,7%) e 2010 (87,7%). Os dados são do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), que compara a concessão de aumentos com os dados da inflação do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Em 2003, 18,8% das categorias tiveram aumento real. No ano seguinte, 54,9%. Em 2005, 2008 e 2017, essas parcelas foram de 71,7%, 76,6% e 79,5%, respectivamente.


Selo falso

“E nós [governos do PT] já acabamos com a fome uma vez (...)” - em encontro em São Paulo (SP) com empresários de pequenas e médias empresas (17.ago.2022)

O Brasil não acabou com a fome durante os governos petistas, embora o menor índice de insegurança alimentar grave no país tenha sido registrado durante este período, em 2013.

Em nenhum momento da série histórica da pesquisa do IBGE sobre insegurança alimentar, iniciada em 2004, o Brasil deixou de registrar milhões de pessoas na categoria “grave”, quando de fato falta o que comer.

Em 2013, no governo Dilma Rousseff, o Brasil registrou o menor índice de pessoas nessa situação: 7,2 milhões ou 3,6% da população da época.

Naquele ano, 25,8% da população vivia em algum grau de insegurança alimentar, o que inclui quem reduziu o número de refeições, quem optou por produtos mais baratos e menos nutritivos e os que não tinham alimentos.

O Brasil deixou o Mapa da Fome da ONU (Organização das Nações Unidas) em 2014. Apesar de um indicador positivo de redução do flagelo, isso não significa que o país deixou de registrar pessoas com insegurança alimentar grave, como já verificado pelo Aos Fatos.

O país voltou ao mapa neste ano, segundo relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) divulgado em julho. O documento apontou que 61 milhões de brasileiros enfrentaram dificuldades para se alimentar entre 2019 e 2021, sendo que 15 milhões passaram fome.

JAIR BOLSONARO


Selo falso

“O [Brasil é o] único país do mundo com deflação”. - em Juiz de Fora (MG), durante discurso (16.ago.2022)

O Brasil não é o único país do mundo a registrar deflação, como afirmou o presidente. Apenas entre as 20 maiores economias, reunidas no G20, a Rússia também registrou inflação negativa em julho ante junho deste ano.

No Brasil, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) foi de -0,68%. Na Rússia, a variação no período foi de -0,39%. Fora do G20, outros países também registraram deflação, como Espanha (-0,3%) e Grécia (-1,4%).

Apesar de não terem tido redução, Japão e Estados Unidos também não registraram aumento dos preços em seus dados econômicos mais recentes.

Apesar da queda no último mês, a inflação acumulada no Brasil em 12 meses é superior à da maioria dos países do G20. Com 10,07%, o país está atrás apenas da Turquia (79,6%), da Argentina (71%) e da Rússia (15,1%).


Selo falso

“Basta lembrar que entre 2014 e 2015, perdemos no Brasil quase 3 milhões de empregos." - em discurso em Brasília (DF) durante encontro com prefeitos (17.ago.2022)

É FALSO que o Brasil tenha perdido quase 3 milhões de empregos entre 2014 e 2015, no governo Dilma Rousseff (PT). Segundo o Rais (Anuário Estatístico da Relação Anual das Informações Sociais), do Ministério do Trabalho e Previdência, o saldo de carteiras assinadas no período foi de 623.077 e -1.510.703, respectivamente. Logo, ao longo desses dois anos, foram perdidos 887.626 postos de trabalho, não 3 milhões.

O Rais não agrega dados referentes a trabalhadores informais, mas a alegação de Bolsonaro estaria errada mesmo se considerasse o total da população ocupada. Segundo a Pnad Contínua do IBGE, havia 92,2 milhões de pessoas ocupadas — formal ou informalmente — no quarto trimestre de 2013, e 92,4 milhões no mesmo período de 2015. A diferença é, então, de cerca de 200 mil.

CIRO GOMES


Selo falso

“Erradicar a miséria, a fome, a doença e todas as sequelas da sociedade mais injusta [a brasileira] de pior distribuição de renda do mundo - em discurso em Santana de Parnaíba (SP), durante caminhada (17.ago.2022)

Ciro Gomes erra ao dizer que o Brasil tem a pior distribuição de renda do mundo. O país está na 8ª posição entre as nações com maior desigualdade, segundo o último relatório de desenvolvimento humano publicado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento), com dados de 2019.

O índice de Gini — indicador usado para medir a distribuição de renda — do Brasil é de 53,9, atrás de Moçambique (54), Suazilândia (54,6), República Centro-Africana (56,2), São Tomé e Príncipe (56,3), Zâmbia (57,1), Namíbia (59,1) e África do Sul (63). Quanto maior o índice, maior a desigualdade. No relatório anterior, o Brasil ficou em sétimo lugar, com um coeficiente de 53,3.

SIMONE TEBET


Selo falso

"Só no ano passado, 35… o ano retrasado, 35 mil beneficiários que ganharam o Auxílio Brasil estavam mortos." - em entrevista na OAB-SP (18.ago.2022)

A presidenciável do MDB confunde o auxílio emergencial, pago durante a pandemia de Covid-19, e o Auxílio Brasil, que substituiu o Bolsa Família, e erra o número de falecidos teriam recebido um desses benefícios. Assim, a declaração dela foi classificada como FALSA.

Uma auditoria da CGU (Controladoria-Geral da União) indicou que, entre 2020 e 2021, o auxílio emergencial teria sido pago a 135,7 mil beneficiários mortos. Aos Fatos não localizou informações similares relativas ao Auxílio Brasil.

Outro lado. O Aos Fatos entrou em contato com as assessorias de imprensa de todos os candidatos para que pudessem comentar sobre as checagens, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem.

Referências:

1. Aos Fatos
2. Dieese
3. Agência Brasil
4. FAO (Fontes 1 e 2)
5. IBGE (Fontes 1, 2 e 3)
6. Bloomberg
7. e-Stat
8. INE
9. Statistics.gr
10. TCMB
11. INDEC
12. Ministério do Trabalho
13. IPEA
14. UNDP
15. UOL
16. Ministério da Cidadania (Fontes 1 e 2)
17. Folha de S. Paulo
18. Correio do Povo

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