Leopoldo Silva / Agência Senado

Na CPI, Hang falseia fatos sobre Covid-19, Sete de Setembro e empréstimos do BNDES

Por Amanda Ribeiro, Débora Ely, Marco Faustino e Priscila Pacheco

29 de setembro de 2021, 13h21

Em depoimento à CPI da Covid-19 nesta quarta-feira (29), o empresário Luciano Hang disse que nunca duvidou da doença nem foi contra a vacina. No entanto, dezenas de registros em suas contas nas redes sociais demonstram que o dono das lojas Havan já usou argumentos desinformativos para minimizar a letalidade do novo coronavírus e para atacar a credibilidade da CoronaVac.

Apoiador ferrenho do presidente Jair Bolsonaro, Hang repetiu na comissão ainda uma informação falsa dita pelo mandatário, de que as manifestações no 7 de Setembro foram as maiores da História. O comício das Diretas Já em São Paulo e atos pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) atraíram mais público que os protestos bolsonaristas.

O dono da Havan também falseou informações ao alegar que não solicitou empréstimos ao BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) nos governos do PT. Recursos da instituição proporcionaram financiamentos de cerca de R$ 20 milhões à empresa dele entre 2005 e 2014, em valores não ajustados pela inflação.

Em resumo, o que checamos:

  1. É FALSO que a Havan não foi beneficiada por linhas de financiamento do BNDES nos governos do PT, como disse Hang. Entre 2005 e 2014, a empresa obteve 50 empréstimos do Finame e do BNDES Automático, que somam cerca de R$ 20 milhões;
  2. Hang disse que jamais forçaria seus funcionários a votar em alguém, o que é FALSO. Ele divulgou vídeos para seus colaboradores dizendo que poderia fechar a Havan caso Bolsonaro não ganhasse e fez propaganda eleitoral do então candidato nas lojas, o que motivou uma condenação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
  3. É FALSO que a manifestação de 7 de setembro de 2021 a favor de Jair Bolsonaro tenha sido a maior da história do Brasil. Pelo menos três atos públicos levaram mais pessoas às ruas: dois a favor do impeachment de Dilma Rousseff, em 2015 e 2016, e um comício das Diretas Já, em 1984;
  4. Hang disse aos senadores que nunca negou ou duvidou da Covid-19, o que é EXAGERADO. O empresário recorreu a alegações enganosas para tentar minimizar a letalidade da doença em pelo menos 15 ocasiões;
  5. É IMPRECISA a alegação de Hang de nunca foi contra as vacinas da Covid-19, porque em pelo menos duas ocasiões nas redes sociais o empresário se posicionou contra a CoronaVac;
  6. É VERDADE que Hang enviou 200 cilindros de oxigênio para Manaus. O governo amazonense confirmou ao Aos Fatos que os equipamentos foram recebidos entre 29 de janeiro e 12 de fevereiro.


Eu estou falando que durante o governo do PT eu não peguei nenhum empréstimo do BNDES. Comprei máquinas através do Finame.

É FALSO que Luciano Hang não tenha sido beneficiado por linhas de financiamento do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) nos governos do PT. Entre 2005 e 2014, a Havan obteve 50 empréstimos de Finame e BNDES Automático, que somam cerca de R$ 20 milhões, em valores nominais (não ajustados pela inflação). Nessas modalidades, o crédito do banco é feito de forma indireta, tendo uma instituição financeira como intermediária.

No Finame, criado para auxiliar na compra de máquinas e equipamentos, foram 45 empréstimos. Por meio dele, empresas são autorizadas a solicitar financiamentos com essa finalidade a instituições financeiras credenciadas, que, por sua vez, recebem os recursos do banco federal de fomento para custear o empréstimo.

Já o BNDES Automático, destinado ao financiamento de obras, projetos, equipamentos e treinamento, foi obtido pela Havan em cinco ocasiões entre 2005 e 2008. Essas operações também são financiadas indiretamente pela instituição pública, por meio do aporte de recursos em bancos privados: neste caso, Bradesco, Itaú e Safra.


Jamais eu iria forçar meu funcionário a votar em alguém.

A declaração é FALSA, porque a Justiça condenou Hang por tentar coagir funcionários a votarem em Jair Bolsonaro em 2018. Em 2019, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) decidiu que o empresário havia feito propaganda eleitoral irregular ao declarar seu voto em discurso dentro de uma loja Havan e pedir que os empregados saudassem o então candidato do PSL. Hang desistiu de recorrer e a ação foi extinta após ele pagar uma multa de R$ 2 mil.

Em outro vídeo, divulgado na rede interna da empresa em 2018, o empresário afirma que os funcionários da Havan poderiam perder o emprego caso Bolsonaro não vencesse o pleito. “E aí, se eu não abrir mais lojas, ou se nós voltarmos para trás, você está preparado para sair da Havan? Você está preparado para ganhar a conta na Havan?”.

Esta gravação e denúncias de 35 funcionários motivaram uma ação judicial impetrada pelo MPT-SC (Ministério Público do Trabalho de Santa Catarina) em outubro daquele ano. O pedido de tutela antecipada foi acolhido pela 7ª Vara do Trabalho de Florianópolis, que determinou multa de até R$ 500 mil caso Hang voltasse a constranger os funcionários. O processo corre hoje sob sigilo.


[Sete de Setembro] … onde houve a maior manifestação da história do Brasil.

É FALSO que as manifestações pró-Bolsonaro ocorridas durante o último 7 de setembro tenham sido as maiores da história do país. Em checagem anterior, Aos Fatos verificou que apenas seis estados fizeram estimativas oficiais sobre os protestos, que, somadas, levam a um público de 442 mil pessoas. O número é menor do que o de pelo menos outros três atos ocorridos no Brasil: dois contra a então presidente Dilma Rousseff (PT) e outro pelas Diretas Já.

Levantamento feito pelo G1 com base em dados divulgados pelas polícias militares indicou que cerca de 3,6 milhões de pessoas participaram de protestos pelo impeachment de Dilma em 13 de março de 2016. Já no dia 15 de março de 2015, a estimativa foi de 2,4 milhões de pessoas em atos contra a petista.

Além disso, em 15 de abril de 1984, 1,5 milhão de pessoas participaram de um comício do movimento Diretas Já no Vale do Anhangabaú, em São Paulo.


Nunca neguei ou duvidei da doença [Covid-19].

Aos Fatos não localizou registros públicos de que Luciano Hang tenha negado a existência do novo coronavírus ou da Covid-19 em si, mas, em pelo menos 15 ocasiões, ele recorreu a alegações enganosas nas redes sociais para tentar minimizar a letalidade da doença. Assim, a declaração do empresário à CPI foi considerada EXAGERADA.

Em pelo menos duas oportunidades, Hang desinformou no Instagram (veja aqui e aqui) ao recorrer a dados de atestados de óbito da plataforma dos cartórios brasileiros para alegar que as mortes pela Covid-19 no país seriam infladas nas estatísticas oficiais. O sistema, porém, tem métodos e prazos diferentes para compilar os dados em relação às bases de dados do Ministério da Saúde e do consórcio de veículos de imprensa.

O registro de um óbito pode levar até 14 dias corridos para ser incluído no Portal da Transparência do Registro Civil. O período equivale ao prazo fixado para que os documentos sejam enviados à CRC Nacional (Central Nacional de Informações do Registro Civil), que atualiza a plataforma, e pode ser ainda maior em cidades menores.

Em outras seis publicações no Instagram (veja aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), plataforma em que é mais popular, Hang destacou o dado de pacientes "curados" da Covid-19 em detrimento dos números de casos e mortes. Apesar de constar das estatísticas oficiais, essa informação não é essencialmente positiva, pois um alto grau de "recuperados" indica também grande incidência de infecções. Em três postagens (veja aqui, aqui e aqui), ele ainda desacreditou os dados oficiais ao questionar se as pessoas morreram "de Covid-19 ou "com Covid-19".

O empresário ainda mencionou, em quatro postagens no Instagram (veja aqui, aqui, aqui e aqui), o número de mortos por milhão de habitantes no Brasil para alegar que a crise sanitária seria menos grave do que a realidade. Porém, esse índice não é suficiente para demonstrar uma melhora no combate à pandemia. As diferenças entre as fases da pandemia nos países, as características populacionais — como idade e densidade demográfica — e o baixo índice de testagem no Brasil tornavam as comparações feitas por Hang erradas.


Eu não sou e nunca fui contra a vacina.

Embora Hang tenha defendido a vacinação contra a Covid-19 neste ano, ele se posicionou publicamente contra a CoronaVac, vacina do Instituto Butantan, em ao menos duas ocasiões nos últimos doze meses. Portanto, a afirmação do empresário é IMPRECISA.

Em 23 de outubro de 2020, o dono da Havan compartilhou no Instagram uma entrevista do neurocirurgião Paulo Porto de Melo ao programa Pânico, da Jovem Pan (veja aqui), na qual o médico questiona se a CoronaVac “não vai matar ou prejudicar mais gente do que a própria evolução da doença”. “Você tomaria uma vacina que os efeitos colaterais podem ser piores do que a própria doença?”, acrescentou Hang na postagem.

A alegação é falsa, como Aos Fatos checou. Isso porque o médico comparou incorretamente uma taxa estimada de letalidade global da doença e a parcela dos que receberam a CoronaVac na China e tiveram algum efeito colateral.

Já em 12 de janeiro deste ano, o empresário publicou uma postagem (veja aqui) sugerindo que as pessoas estariam protegidas “pela metade” devido à taxa de eficácia global de 50,38% da CoronaVac. “Você usaria um paraquedas com 50% de chances de abrir?”, escreveu o empresário. A comparação não procede, porque a taxa indica que a vacina oferece proteção suficiente contra a Covid-19 e nenhum imunizante é considerado 100% eficaz.


Eu mandei 200 cilindros de oxigênio para Manaus

A declaração é VERDADEIRA. No fim de janeiro, Hang doou 200 cilindros de oxigênio para hospitais de Manaus (AM). O governo do Amazonas confirmou ao Aos Fatos que 50 cilindros doados pelo empresário chegaram ao estado no dia 29 de janeiro e que outros 150 foram entregues em 12 de fevereiro.

O colapso no abastecimento de oxigênio no Amazonas começou em janeiro com o avanço acelerado de casos de Covid-19. Com a crise, a média móvel de óbitos aumentou 183% na primeira quinzena do ano no estado. A situação mobilizou empresários e artistas que fizeram doações de cilindros e, entre as notícias sobre o apoio, surgiu a desinformação de que Hang também havia feito uma doação. Após a publicação de checagens sobre o assunto, o empresário anunciou que de fato enviaria os 200 cilindros a Manaus.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com a assessoria do empresário Luciano Hang durante o depoimento à CPI, mas até o momento não houve resposta. Eventuais respostas serão adicionadas à reportagem posteriormente.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7)
2. Havan
3. G1 (Fontes 1, 2 e 3)
4. Instagram Luciano Hang (Fontes 1 e 2)
5. BNDES (Fontes 1, 2, 3 e 4)
6. UOL
7. TSE
8. Twitter The Intercept
9. O Globo (Fontes 1 e 2)
10. Conjur

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