Gabriela Biló / Estadão Conteúdo

Luciano Hang acumula 5,5 milhões de interações no Instagram só com desinformação sobre Covid-19

Por Débora Ely e João Barbosa

29 de setembro de 2021, 11h28

O empresário Luciano Hang, ouvido pela CPI da Covid-19 nesta quarta-feira (29), alcançou 5,5 milhões de interações com conteúdos desinformativos sobre a pandemia no Instagram — rede social em que é mais popular. O montante representa a soma de curtidas e comentários das 120 postagens com alegações enganosas relacionadas ao novo coronavírus identificadas pelo Radar Aos Fatos no perfil do dono das lojas Havan.

Chamado à CPI para explicar se ajudou o governo Bolsonaro a disseminar informações falsas desde o início da pandemia, Hang demonstra em sua conta no Instagram, com 3,8 milhões de seguidores, alinhamento total ao discurso adotado pelo presidente. Ele defendeu medicamentos ineficazes para combater a Covid-19 e distorceu informações ao se posicionar contra o distanciamento social e ao comentar dados de óbitos e da vacinação.

Remédios ineficazes

A alegação falsa mais frequente no perfil do empresário é a promoção de remédios do suposto “tratamento precoce” contra a Covid-19, como hidroxicloroquina e ivermectina. Hang defendeu o uso de drogas, que não funcionam para prevenir e curar a doença, em 61 posts, atingindo mais de 2,3 milhões de interações.

Nessas publicações, Hang associou a administração dos medicamentos à retomada do trabalho presencial no país mesmo quando já havia evidências científicas contrárias. Em 3 de março deste ano, por exemplo, escreveu: “Precisamos vacinar, aplicar o tratamento precoce e trabalhar!”. O empresário também mencionou casos de cidades como Chapecó (SC), Porto Feliz (SP) e Rancho Queimado (SC) para defender o uso das medicações, argumento que já foi desmentido por Aos Fatos.

Também foi recorrente o uso de alegações enganosas para atacar medidas de distanciamento social implementadas por prefeitos e governadores, como restrições de atividades comerciais. Hang publicou 38 posts desinformativos sobre o tema, atingindo 2 milhões de interações.

Na maior parte desses conteúdos, o empresário alega que o lockdown é “inútil” ou que não tem “comprovação científica” para frear o contágio. Este argumento é falso, uma vez que diversos estudos indicam que medidas de restrição de circulação têm papel determinante na redução da transmissão do vírus. Discurso semelhante já foi repetido ao menos 43 vezes por Bolsonaro, de acordo com o contador de checagens do Aos Fatos.

Em suas críticas ao lockdown, Hang também propagou a tese de “isolamento vertical”, que consistiria na restrição de circulação apenas de idosos e de pessoas com comorbidades. Os senadores que compõem a CPI investigam se essa ideia, que já foi defendida por figuras como o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), teria sido uma das apostas do governo federal para aumentar a contaminação em busca da chamada “imunidade de rebanho”.

Hang ainda publicou outros 21 posts, que atingiram pouco mais de um milhão de interações, com distorções a respeito de dados de óbitos por Covid-19 e imprecisões sobre o status da vacinação no país. Entre abril e julho, por exemplo, ele afirmou que o Brasil estava entre os países que mais haviam vacinado no mundo, levando em conta números absolutos e não proporcionais à população — Bolsonaro também recorreu à alegação semelhante mais de 50 vezes nos últimos meses.

Apareceram ainda no Instagram do empresário outras narrativas usadas pelo presidente ao longo da crise, como a de que o STF (Supremo Tribunal Federal) atribuiu a responsabilidade de ações para o controle da pandemia a governadores e prefeitos e a de que a CoronaVac não é eficaz contra a doença — o que é falso.

Por fim, o Radar Aos Fatos identificou que Hang fez referência, em pelo menos 18 postagens, a pessoas que são apontadas pela CPI como integrantes de um “gabinete paralelo” que estaria assessorando Bolsonaro à margem do Ministério da Saúde. Esses posts tiveram 1,8 milhão de interações, e o nome mais mencionado foi o do empresário Carlos Wizard. Ele e Hang encamparam uma campanha frustrada pela compra de vacinas pela iniciativa privada.

Outro lado

O Radar Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de imprensa das lojas Havan, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Metodologia

O Radar Aos Fatos coletou por meio da ferramenta CrowdTangle todos os posts publicados por Luciano Hang no Instagram entre 11 de março de 2020, data em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou a pandemia, e a última segunda-feira (27), que continham termos relacionados à Covid-19 — no total, foram 406 publicações. Depois, analisou individualmente cada uma das postagens e classificou aquelas que continham alegações enganosas sobre o novo coronavírus.

Os termos pesquisados foram: coronavírus, Covid, Covid-19, lockdown, kit covid, cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida, annita, vitamina D, tratamento precoce, protocolo precoce, atendimento precoce, tratamento inicial, atendimento inicial, vacina, CoronaVac, AstraZeneca, Janssen, Pfizer e passaporte sanitário.

Referências:
1. G1
2. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10)
3. BBC Brasil
4. Poder360
5. CrowdTangle

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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