Lobby do agro usa governo de SP como vitrine de projeto de interferência na educação

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Em 5 de novembro de 2023, estudantes de todo o país enfrentaram o primeiro dia de Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Na manhã seguinte, representantes da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) divulgaram nota para protestar contra três questões da prova que, segundo eles, promoviam “negacionismo científico” contra o agronegócio.

Duas das perguntas abordavam o avanço da fronteira agrícola sobre a Amazônia e o impacto dos latifúndios sobre comunidades tradicionais do Cerrado, enquanto a terceira fazia um paralelo entre o envolvimento de bilionários na corrida espacial com as consequências da chegada dos europeus para os povos indígenas. Tratavam de problemas reais.

Entidades científicas criticaram a iniciativa da FPA, chamando-a de “tentativa de censura”, e o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) negou a anulação das questões, argumentando que as respostas corretas dependiam de interpretação de texto, não de opinião.

Já na Seduc-SP (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo), o rumo foi outro, segundo relatos. “Na segunda ou na terça depois do Enem, o [secretário Renato] Feder teve um encontro com um grupo do agronegócio”, diz uma fonte que testemunhou a orientação que saiu da reunião para a Fundação Vanzolini, onde era produzido material didático para a rede estadual.

“Eles pediram que os PowerPoints que seriam usados nas aulas em nenhum momento fizessem essas referências [aos problemas do agro]”, diz o depoimento, concedido sob a condição de anonimato.

A secretaria nega qualquer interferência sobre o conteúdo pedagógico ministrado na rede estadual de ensino. "Não houve reunião externa, nem tampouco quaisquer reuniões institucionais com representantes dos setores produtivos que tivessem determinado, recomendado ou interferido em questões pedagógicas", afirmou o órgão em nota.

Íntegra do posicionamento da Seduc-SP

A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) informa que não há qualquer interferência externa sobre o conteúdo pedagógico ministrado na rede estadual de ensino. Não houve reunião externa, nem tampouco quaisquer reuniões institucionais com representantes dos setores produtivos que tivessem determinado, recomendado ou interferido em questões pedagógicas.

O conteúdo pedagógico da rede estadual de ensino é formulado exclusivamente com base técnica, curricular e legal. O agronegócio é abordado em aulas de Geografia e Ciências sob múltiplas perspectivas, que incluem aspectos econômicos, sociais, tecnológicos e ambientais.

O planejamento, escolha e produção dos materiais didáticos impressos e digitais utilizados por mais de 3,1 milhões de estudantes na rede estadual obedecem fluxo estruturado, técnico e rastreável.

A produção passa por diferentes instâncias técnicas (autores, editores pedagógicos e revisores, externos e internos). Há ainda etapas de checagens editoriais adicionais. Os materiais podem passar por eventuais ajustes, decorrentes de critérios pedagógicos, adequação didática ou alinhamento a habilidades previstas no currículo oficial.

Todas as alterações ficam registradas no Sistema de Controle de Produção (SCP), garantindo rastreabilidade integral e transparência aos processos.

Trabalhadores do mercado editorial ouvidos pelo Aos Fatos, porém, relatam que, desde que era secretário da Educação no Paraná, Feder tem fama de “implicar” com alguns conteúdos, como a presença cada vez maior da história africana nos livros didáticos.

Quando o empresário foi chamado por Tarcísio de Freitas (Republicanos) para assumir a mesma pasta em São Paulo, suas posições não representavam um obstáculo. Pelo contrário, a simpatia em relação ao agronegócio era justamente um dos pontos de convergência com o novo governo.

Na gestão de Tarcísio, São Paulo se tornou a principal vitrine da investida do lobby do agro na educação pública, movimento que se expande para outros estados, como o Rio Grande do Sul.

Num dos eixos dessa parceria está a Donme (De Olho no Material Escolar), associação financiada por empresários que é acusada de pressionar editoras para retirar dos livros escolares menções aos problemas socioambientais do agro.

Na série Mentiras Plantadas, Aos Fatos mostra como a entidade deturpa a ciência e dissemina negacionismo climático com a ajuda de um convênio com a Esalq-USP (Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo).

Na mira estão temas considerados sensíveis para o agronegócio, como a relação direta do setor com o desmatamento da Amazônia e as mudanças climáticas — a agropecuária é a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil.

Em São Paulo, a Donme é recebida de portas abertas. A entidade já foi premiada pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios e escolheu o estado para estrear seu programa de capacitação de professores, o Mestres no Agro, que em 2024 treinou 220 educadores do ensino técnico estadual.

O treinamento foi doado pela ONG ao governo paulista e teve custo estimado em R$ 286.095, segundo o termo de doação obtido pelo Aos Fatos por meio da Lei de Acesso à Informação.

No mesmo ano, uma emenda parlamentar apresentada pelo deputado estadual Lucas Bove (PL) tentou destinar R$ 100 mil em dinheiro público à associação para a aquisição de “equipamentos, mobiliário e bens diversos”, mas foi impedida por falta de documentação.

Aos Fatos enviou um pedido de posicionamento ao gabinete de Bove, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.

Paixão nacional

A atuação da Donme não deve ser vista de forma isolada. A formalização da associação, em 2021, coincide com a criação do movimento Todos a Uma Só Voz, que nasceu para unificar entidades de diversos ramos do agronegócio com o objetivo de melhorar a imagem da atividade entre as populações urbanas.

Dessa iniciativa surgiu a “Marca Agro do Brasil”, projeto que tem como meta “tornar o agro uma paixão nacional”, estimulando a admiração pelo setor — “da criança na pré-escola ao estudante de jornalismo”, informa a apresentação da iniciativa.

No vídeo de introdução, é previsto que o projeto “Marca Agro do Brasil” criaria um hub de conteúdo, com equipe própria, para produzir material para abastecer seu portal e todas as ações de comunicação do projeto.

“Um dos grandes diferenciais deste hub será a presença de um especialista em sistemas de ensino. Ele adequará os conteúdos para os diversos públicos. Assim, o mesmo conteúdo terá versões diferentes para as crianças, jovens e adultos”, diz o vídeo.

O esforço de marketing, liderado pela ABMRA (Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro), veio após uma pesquisa constatar que, dos 30% da população brasileira que tinham uma imagem negativa do agro, metade eram jovens de 15 a 29 anos.

Lançado em 2022, o estudo listava entre os principais aspectos negativos ligados ao setor o uso abusivo de agrotóxicos, o desmatamento, a ocupação ilegal de terras e a emissão de gases de efeito estufa, dentre outros problemas reais que hoje entidades representativas do agro tentam retirar dos livros didáticos sob a acusação de “desinformação”.

Questionado por Aos Fatos sobre o que entendia como “desinformação sobre o agro”, Gedeão Pereira, vice-presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), mencionou uma suposta campanha de ONGs, financiadas com dinheiro europeu, para atacar a imagem do setor.

Ele passou a listar, então, uma série de informações não embasadas na ciência que provariam a sustentabilidade da agropecuária nacional. “O metano que o bovino emite é compensado pelo crescimento das plantas”, argumentou. Essa desinformação, de alcance internacional e patrocinada pela indústria da carne, também está presente no material didático distribuído pela Donme, como Aos Fatos mostrou.

A entrevista com Pereira foi feita durante a COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), evento que colocou a desinformação na agenda das negociações por considerar que a circulação de mentiras faz com que governos e sociedade adiem a adoção de medidas consideradas urgentes para o planeta.

A agropecuária é a principal fonte de emissões de gases do efeito estufa no Brasil. Para o vice-presidente da CNA, porém, o problema do agro passa pela comunicação. “Não existe opinião pública, existe opinião publicada”, defendeu, reconhecendo que o setor já obteve avanços nesse quesito.

“Em uma determinada época, nós éramos latifundiários, gigolôs de vacas. Eram esses apelidos que nos davam. De repente, nós passamos a ser o agronegócio, e o agronegócio passou a ser considerado”, disse. “Dificilmente hoje tu vê alguma reportagem da grande mídia que possa denegrir a imagem do agronegócio”.

Outro lado

Questionada sobre o Mestres no Agro, a Donme disse que o programa "é uma iniciativa de caráter técnico e educacional voltada à disseminação de conhecimento científico atualizado sobre o agronegócio para profissionais do ensino". A associação discorda da avaliação de que dissemina desinformação climática e diz que sua atuação é baseada em evidências científicas.

A ONG também nega que defenda a exclusão de temas sensíveis dos livros escolares, como desmatamento e mudanças climáticas, e sustenta que mantém diálogo aberto com editoras, apresentando pareceres e sugestões sem a pretensão de impor alterações (leia a íntegra abaixo).

Já a ABMRA sublinha que não possui nenhuma relação com a Donme e afirma que, entre os profissionais que atuarão no seu hub de conteúdo, “haverá um especialista responsável pela curadoria, assegurando que as informações sejam verídicas, provenientes de fontes seguras e livres de deturpações”.

A entidade também ressalta que “toda a comunicação e as ações do Projeto Marca Agro do Brasil serão pautadas por informações fornecidas por fontes confiáveis, como a Embrapa, o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Ibama e o Cepea Esalq-USP, além de outras instituições de notório reconhecimento no meio científico e acadêmico” (leia a nota).

A Fundação Vanzolini e a CNA não responderam aos pedidos de posicionamento. Este texto será atualizado em caso de resposta.

Posicionamento da De Olho no Material Escolar

A Donme é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, laica e apartidária. Com quatro anos de atuação, tem como objetivo institucional contribuir para a melhoria da qualidade da educação brasileira, por meio de um ensino pautado em evidências científicas, conectado à vivência prática e orientado a resultados de aprendizagem, de modo a ampliar as oportunidades de desenvolvimento pleno, produtividade e prosperidade das futuras gerações.

Um diferencial central da associação, em relação a outras instituições do campo educacional, é o seu foco na conexão entre educação e setor produtivo, compreendendo que essa aproximação, quando feita de forma responsável, transparente e baseada em dados, contribui para tornar o processo educacional mais significativo para os estudantes. Nesse contexto, o agronegócio aparece com frequência em nossas iniciativas por se tratar de um setor altamente relevante e estruturante da economia brasileira, mas não de forma exclusiva.

O que nos mobiliza atualmente é um cenário educacional profundamente desafiador, amplamente reconhecido por indicadores oficiais e avaliações internacionais. Para citar apenas alguns dados públicos e amplamente consolidados:

– 40,8% das crianças brasileiras não estavam alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental (Saeb – Ideb, 2023);

– O Brasil ocupa a 55ª posição em matemática entre 58 países avaliados ao final do 4º ano (TIMSS, IEA, 2023);

– Os estudantes brasileiros estão na 39ª posição em leitura entre 43 países ao final do 4º ano (PIRLS, IEA, 2021);

– Nenhum estado brasileiro atingiu a meta nacional de 5,2 no ensino médio (Ideb, 2023).

É nesse contexto que a Donme reuniu especialistas multidisciplinares, em áreas como formação docente, alfabetização, violência escolar e avaliação educacional – para elaborar diagnósticos e propostas que contribuam para o debate público, inclusive no âmbito do novo Plano Nacional de Educação, cujo texto foi aprovado na Câmara dos Deputados e segue em tramitação no Senado Federal.

ABAIXO COMENTÁRIOS PARA AS PERGUNTAS:

1) Sobre alegação de pressão para retirada de conteúdos “negativos” ao agronegócio.

Resposta: Nossa metodologia consiste em analisar conteúdos pontuais, sempre com base em dados verificáveis, fontes oficiais e referências academicamente reconhecidas, apontando eventuais imprecisões, generalizações ou desatualizações.

Não propomos a exclusão de temas sensíveis ou desafiadores e sempre estivemos abertos ao diálogo e ao contraditório técnico.

2) Sobre contatos com editoras por meio de eventos, e-mails, visitas e relatórios.

Resposta: A comunicação da De Olho com editoras, autores e conteudistas é pautada pelo diálogo, transparência e escuta ativa. Apresentamos pareceres e sugestões de caráter consultivo, sem qualquer poder regulatório ou pretensão de imposição.

Nosso objetivo é contribuir tecnicamente para a melhoria da qualidade da educação, sempre abertos a contrapontos e debates qualificados.

3) Sobre a alegação de que alterações ocorreram por interesses mercadológicos.

Resposta: Decisões editoriais não decorrem exclusivamente da atuação da De Olho, mas de um ecossistema amplo de atores. As recomendações da associação são exclusivamente técnicas, baseadas em evidências científico-acadêmicas e dados oficiais, amplamente utilizados inclusive pelo poder público.

A De Olho é uma organização sem fins lucrativos e não possui poder decisório sobre os conteúdos finais, limitando-se a sensibilizar e recomendar, nunca impor.

4) Sobre relatos de medo, intimidação ou abordagem inadequada.

Resposta: A atuação da De Olho é orientada por princípios de conduta ética, respeito e cordialidade. Não temos conhecimento de episódios como os relatados, que não condizem com nossa prática institucional.

Ainda assim, estamos totalmente à disposição para ouvir diretamente os envolvidos, esclarecer eventuais mal-entendidos e, se necessário, nos retratar por qualquer desconforto causado.

5) Sobre o relatório produzido pela FIA (Fundação Instituto de Administração).

Resposta: O trabalho foi desenvolvido por especialistas da FIA/USP, com metodologia apresentada pela própria instituição, total autonomia técnica e assessoria especializada. A isenção institucional foi condição básica para o desenvolvimento do projeto.

As centenas de unidades de referência analisadas — trechos que contêm palavras-chave relacionadas ao setor agro — possuem documentação metodológica específica e podem ser apresentadas sempre que necessário.

O principal resultado do estudo aponta que mais de 85% das unidades de referência identificadas não possuíam vínculo com referência bibliográfica, sendo classificadas como autorais pelos próprios autores do projeto. Essa constatação dialoga diretamente com uma das principais bandeiras da Associação: que todas as informações apresentadas aos estudantes tenham base científica ou em fontes oficiais, ainda que em linguagem simples e acessível.

6) Sobre críticas de educadores ao relatório.

Resposta: O estudo teve como foco verificar se as menções apresentam fontes científicas e se estão atualizadas em relação à realidade do campo. Não se propõe o uso de textos acadêmicos no ensino fundamental ou médio, mas sim uma melhor contextualização dos temas, sempre acompanhados de fontes científicas atualizadas e rastreáveis.

A linguagem deve ser adequada a cada faixa etária ou nível escolar, o que é essencial para o aprendizado. A existência de uma referência científica como base para discussão de veracidade ou atualidade não implica a transcrição direta de trabalhos científicos para o material didático.

7) Sobre o encontro com editoras realizado na Fiesp

Resposta: Em relação a um encontro com editoras ocorrido há alguns anos na Fiesp, foram apresentadas críticas a conteúdos exibidos sobre o Cerrado e sua relação com atividades produtivas.

Em nossas apresentações, não divulgamos qualquer conteúdo que não esteja fundamentado em fontes científicas atualizadas e rastreáveis. Defendemos que todos os biomas sejam amplamente estudados em sala de aula, assim como a importância de seu uso sustentável, com base em evidências científicas.

Sugerimos que a abordagem dos biomas permita aos alunos compreender suas diversidades, peculiaridades e a forma como diferentes atividades econômicas interagem com cada um deles.

8) Sobre falas atribuídas à presidência da associação em evento.

Resposta: A associação reconhece a existência de práticas criminosas no agronegócio, assim como em outros setores produtivos, e jamais defendeu que esses temas deixem de ser abordados.

O que se defende é uma abordagem equilibrada e contextualizada, que trate desafios reais, mas também apresente boas práticas, inovação, tecnologia e desenvolvimento, oferecendo aos estudantes uma visão mais completa e responsável.

9) Sobre comparação com outros movimentos e atuação de pais e escolas.

Resposta: A De Olho no Material Escolar é uma instituição laica, apartidária e de caráter técnico. Pais e escolas não atuam em nome da associação, nem se dirigem às editoras sob sua chancela.

A instituição realiza escuta ativa de diferentes atores, mas nenhuma manifestação individual é automaticamente endossada. Toda contribuição passa por rigorosa análise técnica e curadoria interna antes de se tornar recomendação institucional.

10) Sobre a Agroteca e o convênio com a Esalq.

Resposta: Foi afirmado que a Agroteca disponibilizaria conteúdos de desinformação climática e utilizaria o convênio com a Esalq para conferir legitimidade a esse material.

Colocamo-nos à disposição para receber a fundamentação detalhada que sustente essa afirmação. A curadoria científica realizada em parceria com instituições de ensino e pesquisa é justamente a garantia de que os conteúdos da Agroteca sejam cientificamente embasados e passíveis de atualização.

Em 2026, está em curso um planejamento de reavaliação dos mais de 500 conteúdos disponíveis, com o objetivo de verificar sua atualização, aprimorar a catalogação, indicar faixas etárias, relação com a BNCC e ampliar conteúdos.

O convênio com a ESALQ tem previsão de incluir trabalho conjunto com a Casa do Produtor Rural (ESALQ/USP) e nova parceria com o Instituto Brasileiro de Agricultura Regenerativa (IBA), ampliando a abordagem sobre sustentabilidade e processos regenerativos.

11) Sobre o fact-checking de conteúdos da Agroteca e a relação entre pecuária e desmatamento.

Resposta: Foi realizado fact-checking de conteúdos disponibilizados na Agroteca, incluindo material que aborda a relação entre pecuária e desmatamento.

A conclusão de que a afirmação apresentada seja falsa não nos parece adequada, ainda que tenha sido endossada por análises baseadas em leituras parciais dos dados disponíveis. Estamos completamente à disposição para o diálogo técnico com quaisquer instituições interessadas, com o objetivo de aprofundar o debate e contribuir para um melhor esclarecimento do tema.

É importante esclarecer o ponto central: o argumento não é negar a existência de desmatamento no país, tampouco afirmar que a pecuária não tenha qualquer relação com dinâmicas territoriais. O que se afirma, de forma objetiva, é que o crescimento da pecuária brasileira não depende do desmatamento.

Reiteramos que existe correlação entre áreas de desmatamento e áreas ocupadas por pastagens — fato nunca negado por técnicos e pesquisadores ouvidos por nossa equipe. O que se defende é a análise da causalidade de forma mais completa e contextualizada.

A produção pecuária no Brasil tem crescido de forma consistente mesmo com a redução da área total de pastagens, evidenciando ganhos de produtividade. Isso não elimina a existência de desmatamento legal ou ilegal, mas demonstra que tais práticas não explicam nem sustentam o crescimento do setor, que envolve uma parcela muito pequena dos produtores rurais.

Portanto, a análise deve considerar séries históricas, produtividade e eficiência, evitando conclusões simplificadas sobre um tema complexo, que exige base técnica sólida e diálogo científico contínuo.

12) Sobre a aproximação com o governo do Estado de São Paulo.

Resposta: A Associação esclarece que o programa Mestres no Agro é uma iniciativa de caráter técnico e educacional voltada à disseminação de conhecimento científico atualizado sobre o agronegócio para profissionais do ensino, especialmente professores dos cursos técnicos em agronegócio, além de professores do Ensino Fundamental 1, 2 e Médio.

Os encontros são conduzidos por especialistas, pesquisadores e profissionais das áreas de ciência, tecnologia e inovação no campo, de instituições de notório saber - que apresentam dados, evidências e avanços técnicos do setor. O conteúdo tem natureza informativa e formativa e contribui para a atualização dos educadores sobre temas contemporâneos relacionados ao agro brasileiro, tendo, inclusive, obtido das melhores avaliações por parte dos professores. NPS da Seduc-SP foi de 86. A média de 2025 foi NPS de 76.

O programa já foi realizado em diferentes localidades, sempre com o mesmo formato técnico e científico e com o objetivo de conectar com o currículo de sala de aula.

A Associação atua com foco na oferta de conteúdos baseados em evidências referenciadas e na formação técnica de educadores.

Esta é a terceira reportagem do projeto Mentiras Plantadas, produzido em parceria com o Pulitzer Center.

Atualização: este texto foi atualizado às 11h21 de 20 de fevereiro de 2026, para incluir o posicionamento da Seduc-SP, e às 17h21 de 24 de fevereiro de 2026, para complementar a resposta da Donme com seu comentário sobre o programa Mestres no Agro.

O caminho da apuração

Aos Fatos conversou com profissionais que atuaram na Fundação Vanzolini durante a apuração da primeira reportagem desta série, que tratou da pressão do lobby do agro sobre as editoras de livros didáticos.

A investigação foi complementada por técnicas de Osint (Open Source Intelligence) e pela entrevista com Gedeão Pereira, que foi feita durante a COP30, evento para o qual Aos Fatos viajou como parte do programa “Reporting from the frontline of the global climate crisis in an era of fake news”, do Danida Fellowship Center.

No final da apuração, a reportagem entrou em contato com as entidades mencionadas no texto para abrir espaço para posicionamento.

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