Não é verdade que juíza mandou soltar Bolsonaro

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Não é verdade que uma juíza “desafiou” o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e ordenou a soltura do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A mulher identificada como a magistrada pelos posts enganosos é a política e ativista americana Gloria Molina. Além disso, o ordenamento jurídico brasileiro impede que juízes de instâncias inferiores desrespeitem decisões do Supremo.

As publicações falsas acumulavam 2.000 curtidas no Instagram até a tarde desta sexta-feira (24). As peças também circulam no WhatsApp, plataforma em que não é possível estimar o alcance dos conteúdos.

Juíza corajosa desafia Moraes e manda libertar Jair Bolsonaro.

A imagem é uma montagem composta por várias fotos de pessoas organizadas em duas fileiras. Na parte superior, à esquerda, está a foto de Gloria Molina, uma mulher de cabelos curtos e pretos, mas com uma faixa grisalha em destaque, falando ao microfone com o braço levantado e estendido; à direita, está a imagem de Alexandre de Moraes, um homem careca vestindo terno escuro e gravata, com expressão séria e o braço cruzado sobre o peito. No centro da imagem há uma faixa preta com texto em letras grandes amarelas e brancas que diz ‘JUÍZA CORAJOSA DESAFIA MORAES E MANDA LIBERTAR JAIR BOLSONARO’. Na parte inferior há quatro retratos lado a lado: à esquerda está Jair Bolsonaro, um homem de terno e gravata verde com expressão séria; ao lado, Gloria Molina sentada à mesa falando; em seguida aparece Moraes, também de terno e ajustando a gravata; e à direita está a imagem de Lula, um homem de barba branca, falando ao microfone. Abaixo das fotos há uma faixa azul com texto em letras brancas que diz ‘ESSA JUÍZA É PORRETA PARABÉNS PELA CORAGEM’.

Publicações nas redes enganam ao afirmar que uma juíza teria contrariado uma decisão do ministro Alexandre de Moraes e determinado a soltura de Bolsonaro, condenado em setembro do ano passado por tentativa de golpe de Estado e outros crimes.

Além de não identificarem a suposta magistrada, as peças de desinformação usam fotos da ativista e política californiana Gloria Molina, morta em 2023.

Molina teve uma longa trajetória na política americana, com passagens pelos equivalentes a câmara de vereadores de Los Angeles e a assembleia legislativa da Califórnia. Ela ficou conhecida por sua atuação em pautas sociais, ambientais e de representação de comunidades latinas nos Estados Unidos.

A imagem mostra Gloria Molina em primeiro plano, falando ao microfone. Ela tem cabelo escuro na altura dos ombros, com algumas mechas grisalhas, e usa brincos, colar de pérolas e um segundo colar com pingente. Veste um blazer escuro com lapelas claras e uma peça de roupa clara por baixo. Seu braço direito está levantado e estendido para frente, com a mão aberta.
Foto usada por peças desinformativas é da política americana Gloria Molina, não de juíza brasileira (SGVN/Leo Jarzomb)

As publicações também são juridicamente inconsistentes. A advogada e mestre em direito processual pela Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) Taisa Vargas afirma que, no ordenamento processual, decisões de tribunais superiores, como o STF, não podem ser derrubadas por juízes de instâncias inferiores.

Segundo ela, o Supremo pode convocar juízes ou desembargadores para realizar interrogatórios e outros atos de instrução, mas essas atividades permanecem sob a supervisão do relator do caso — neste caso, o ministro Alexandre de Moraes.

Todas as decisões referentes aos desdobramentos do caso de Bolsonaro são públicas e podem ser consultadas no site do STF. Lá, é possível verificar que o processo segue sob responsabilidade de Moraes e só pode ser revisto pelo próprio STF de forma colegiada.

É fato, porém, que a competência da Corte foi tema de debate durante o julgamento de Bolsonaro. Em seu voto sobre o caso, feito em 10 de setembro de 2025, o ministro Luiz Fux entendeu que o ex-presidente deveria ser julgado em primeira instância por não ocupar mais cargo político e, portanto, não contar com o foro por prerrogativa de função, o chamado “foro privilegiado”.

Historicamente o STF adotava uma interpretação restritiva do foro privilegiado, que entende que a prerrogativa se aplicaria apenas a crimes cometidos durante o exercício do cargo e relacionados às funções desempenhadas.

No entanto, uma evolução recente da jurisprudência ampliou esse entendimento. Hoje, prevalece a tese de que o foro pode ser mantido mesmo após o fim do mandato, desde que os crimes tenham sido praticados no exercício da função e em razão dela.

Condenado a 27 anos e três meses de prisão, Bolsonaro atualmente cumpre pena temporariamente em regime domiciliar. A medida, decretada no fim de março após o ex-presidente ser internado por uma broncopneumonia, tem validade de 90 dias.

O caminho da apuração

Por meio de busca reversa, Aos Fatos encontrou as fotografias originais e constatou que a mulher presente nas peças desinformativas é a política americana Gloria Molina, morta em 2023. Ela não tem nenhuma relação com a prisão de Jair Bolsonaro.

A reportagem também entrevistou a advogada Taisa Vargas e buscou informações em portais jurídicos sobre a possibilidade de um juiz de tribunal inferior anular uma decisão do Supremo.

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