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Jornais querem ser vacina, mas agem como cloroquina

Por Tai Nalon

1 de março de 2021, 13h10

A publicação, na última terça-feira (23), de um informe publicitário que incentiva o "tratamento precoce" contra a Covid-19 é apenas mais uma camada na torta de climão que está assando nas fornalhas da indústria jornalística. Jornalões nacionais usaram nesta semana seus editoriais para criticar o veto do Facebook a links de notícias na Austrália. O argumento é que, para fugir das amarras da regulação e da responsabilidade editorial, a empresa seria leniente com desinformação.

Dois dias antes de o jornal O Globo veicular em seu primeiro caderno um anúncio fraudulento do grupo Médicos do Tratamento Precoce Brasil, seu editorial afirmava que "no mesmo período em que o Facebook passou a desempenhar o papel vergonhoso de antro do negacionismo e do charlatanismo, o trabalho da imprensa profissional se tornou ainda mais fundamental durante a pandemia".

Já a Folha de S.Paulo publicou naquela fatídica terça-feira que o banimento do jornalismo profissional "reforça a má impressão que o Facebook tem deixado em suas ações. Mostra-se seguidamente uma empresa pouco confiável e errática. Afirma valorizar o jornalismo, mas age em sentido contrário".

É fácil concordar com essa retórica, difícil é ser coerente na prática. Como Aos Fatos mostrou, o informe publicitário surge das profundezas do mesmo "antro do negacionismo e do charlatanismo" que vemos trafegar, por exemplo, no WhatsApp. Os responsáveis pela publicidade enganosa que ocupou ao menos outros seis jornais, além de O Globo e Folha, sequer têm um site habilitado. Usam como fonte outros cinco sites com autores anônimos e análises sem metodologia clara.

Muito do que tem se discutido no mundo tem a ver com a legitimidade ou não de plataformas como Facebook, Twitter e afins poderem banir conteúdo de acordo com o que chamam de "regras da comunidade". Foi com base nesse conjunto de normas que as mais diferentes redes sociais decidiram expulsar Donald Trump de seus canais, assim como de vetar, excluir ou tarjar publicações que incluíam práticas anticiência durante a pandemia. Veículos de comunicação aproveitaram esses episódios para provar que essas empresas têm, sim, por óbvio, padrões editoriais.

Ao mesmo tempo, uma rápida análise na tabela de preços de anúncios da Folha, por exemplo, evidencia que os parâmetros comerciais do matutino são mais vagos que aqueles adotados pelas plataformas. Diz que anúncios como os de fone erótico e controle de pragas precisam ser contratados com termos de responsabilidade que isentam a empresa que controla o jornal. Admite também que o anúncio pode não ser publicado e que, nesse caso, o valor contratado será devolvido ao cliente. Não diz, contudo, o que seria um anúncio inadequado e por que não se prestará a publicá-lo.

O episódio demonstra que nenhum veículo ou mídia mantém o monopólio da virtude editorial. Ao pressionar as gigantes de tecnologia por mais regulação e mais dinheiro de publicidade, é necessário provar que mesmo a área comercial do jornalismo opera com parâmetros mais rigorosos de informação.


Esta análise foi publicada em 27 de fevereiro de 2021 na newsletter #67 do Aos Fatos Mais. Clique aqui para apoiar e receber análises exclusivas antecipadamente toda semana.

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