Japinha do CV não morreu e, na verdade, sequer é quem todo mundo pensava que era

Compartilhe

Se você segue páginas de fofoca ou jornais que flertam com o sensacionalismo, provavelmente ficou sabendo da existência da mais nova subcelebridade brasileira: a Japinha do CV — ou Musa do CV, Penélope Charmosa, entre outras variações. E se a gente te falar que aquela mulher que apareceu em todos os lugares não é a Japinha do CV?

Durante a semana, uma repórter do Aos Fatos foi responsável por acompanhar o assunto que seria, mais tarde, reunido nesta newsletter. Quando rechecamos as informações, no entanto, percebemos inconsistências na história e descobrimos que, na verdade, a jovem cuja foto estampou notícias e foi apontada por todo mundo como a Japinha do CV é uma pessoa completamente diferente.

Para quem não está por dentro do assunto, aqui vai um resumo: divulgaram que a Japinha do CV teria morrido durante a megaoperação no Rio de Janeiro e, no final, descobriu-se que isso não era verdade. Usuários nas redes simplesmente ficaram fascinados com a situação e passaram a buscar pistas do atual paradeiro da mulher em todo lugar.

Após uma semana de investigação, vamos resumir a história dessa personagem que virou destaque no noticiário desde a megaoperação.


Assine a newsletter A Que Ponto Checamos e receba análises sobre as desinformações mais absurdas da internet brasileira.


Do cemitério aos holofotes

28 de outubro

Policiais realizam megaoperação contra o CV (Comando Vermelho) no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro. No final da tarde, já circulava a alegação de que mais de cem pessoas haviam morrido no confronto.

29 de outubro

Começa a viralizar nas redes a história de que a Japinha do CV teria morrido durante a ação policial. Junto com a alegação, imagens de um corpo vestido com roupas camufladas e rosto desfigurado passam a ser compartilhadas.

Uma montagem exibe duas fotografias lado a lado, sobrepostas por texto. A imagem da esquerda mostra uma pessoa cuja identidade é ocultada por um lenço estampado, vestindo roupa de padrão camuflado, um colete tático de cor bege e luvas pretas, enquanto segura um fuzil preto na posição vertical. A fotografia da direita é um retrato de uma mulher de pele parda, cabelo castanho cacheado na altura do queixo e olhos escuros. O texto superior identifica a figura como 'Penélope Charmosa, a Japinha do CV', e o texto inferior a descreve como a 'musa do crime'.
Publicação feita no dia 29 de outubro no X afirmava que Penélope seria uma ‘figura de confiança’ do CV (Reprodução)

O interesse no caso pauta a imprensa, que noticia que ela teria morrido com um tiro de fuzil no rosto. Segundo diversos veículos, a informação foi passada por autoridades policiais.

Naquele mesmo dia, portais jornalísticos começam a publicar perfis da Japinha, descrevendo, por exemplo, como ela atuava dentro da facção. Uma coluna do Metrópoles chegou a divulgar mensagens de amigos e familiares que lamentavam a suposta morte.

30 de outubro

Outros veículos de imprensa (exemplos aqui e aqui) entram na história, afirmando que Japinha havia morrido. Em coluna, o Metrópoles publica inclusive mensagens que ela teria supostamente enviado a uma amiga “antes de ser fuzilada”.

Nesse dia, no entanto, começam a circular publicações que questionam a informação e afirmam que, na verdade, ela teria sobrevivido.

Uma captura de tela de um vídeo exibe o rosto de uma mulher em primeiro plano, identificada na legenda como 'penelope da penha'. Ela possui pele parda, cabelo castanho e cacheado, e pequenas sardas no nariz e bochechas. A mulher tem um piercing de metal com duas esferas pequenas abaixo do lábio inferior. A palavra 'VIVA' está sobreposta em letras maiúsculas amarelas na parte inferior do rosto. Abaixo da imagem, um texto de legenda inclui as frases 'penelope da penha roupa camuflada', 'Operação No Rio De Janeiro' e 'operação no complexo do alemão 2025', seguidas por hashtags.
Vídeo publicado no dia 30 de outubro, que afirmava que Japinha do CV estaria viva, foi assistido mais de 500 mil vezes (Reprodução/TikTok)

31 de outubro

Aos Fatos recebe os primeiros pedidos de checagem de publicações que afirmam que Japinha não teria morrido. Naquele momento, não havia por que duvidar: policiais haviam afirmado que ela tinha sido assassinada e havia até imagens do suposto corpo.

Só que a apuração mostrou que o caso não era tão simples assim:

  • Em primeiro lugar, o registro do corpo tinha uma qualidade muito baixa, que não permitia identificar ou apontar semelhanças com a mulher;
  • Questionados sobre o assunto, a Secretaria de Segurança Pública, a Polícia Civil, a Polícia Militar, o governo fluminense e a Defensoria Pública não responderam.

Naquele dia, também viralizou nas redes um suposto áudio em que Japinha teria dito “deixa a galera achar que eu morri, é melhor assim”. Não conseguimos confirmar a autoria da gravação.

Também passaram a circular vídeos e fotos da dançarina Thawany Micaelly, que foi confundida com Japinha nas redes, junto com alegações de que ela estaria viva.

1º e 2 de novembro

No final de semana, a equipe do Aos Fatos descansa — mas a máquina desinformativa das redes não.

Facebook, Instagram, X e TikTok são inundados de publicações sobre a Japinha. Só na primeira rede, Aos Fatos identificou ao menos 80 posts caça-cliques que inventavam diferentes histórias sobre a mulher:

  • Segundo essas peças de desinformação, diferentes policiais teriam declarado que Japinha teria implorado para que poupassem sua vida;
  • Outros posts que compartilhavam fotos de pessoas chorando por outras vítimas foram identificadas falsamente como registros de familiares da mulher;
  • Por fim, publicações inventaram até que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) teria se pronunciado sobre o assunto (veja abaixo).
Uma colagem de quatro imagens apresenta, no quadrante inferior direito, os políticos Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. Jair Bolsonaro, um homem de pele branca e cabelo castanho-claro, veste terno escuro, camisa branca e gravata verde e gesticula com o dedo indicador direito para cima. Ao seu lado, Flávio, um homem de pele branca e cabelo castanho-escuro, usa terno escuro, camisa branca e gravata com detalhes amarelos. O quadrante superior esquerdo exibe o torso de um homem de pele parda e cabeça calva, que veste um uniforme escuro de manga curta e parece estar falando. Os outros quadrantes contêm fotos de uma mulher de pele parda e cabelo castanho, identificada em textos sobrepostos como 'Japinha do CV', e uma imagem de outra mulher em estado de angústia.
Exemplos de caça-cliques envolvendo a Japinha do CV que viralizaram nas redes (Reprodução/Facebook)

Como se já não bastasse todo o barulho, uma coluna do Metrópoles publica um vídeo antigo de Japinha para mostrar que ela já havia se fingido de morta após outras operações. O autor, no entanto, reafirma que, desta vez, ela teria morrido de fato.

3 de novembro

Voltando ao trabalho, na manhã de segunda-feira (3), percebemos que a história havia ficado ainda maior. Mais e mais publicações falavam sobre a Japinha, fosse para explorar sua suposta morte, fosse para dizer que ela havia sobrevivido.

Pedimos, então, para que a repórter Bianca Bortolon retomasse a investigação. O primeiro passo foi verificar a lista dos mortos na megaoperação, que havia sido divulgada pelo governo fluminense na noite de domingo. Minutos depois de ler a lista, ela avisou: “gente, não tem nome de mulher, não”.

Bianca, então, voltou a contatar as autoridades para questionar se a jovem teria ou não morrido. A única que respondeu foi a assessoria da Polícia Civil, que disse que “não tinha nenhuma informação sobre o caso” e que já havia divulgado a lista com os nomes das vítimas.

A redação, então, entrou em consenso: tudo indicava que Japinha estava viva.

Naquela noite, o Metrópoles publica que o corpo que foi identificado como a Japinha no vídeo viral era, na verdade, de um homem.

Também começa a viralizar em diferentes redes um vídeo que supostamente mostraria a “fuga” de Japinha. A gravação de baixíssima qualidade nada mais mostra do que uma mulher caminhando (veja abaixo).

Uma captura de tela de um vídeo, com baixa resolução e aparência enevoada, mostra uma cena em uma superfície clara e inclinada. Um grande círculo vermelho com uma seta, sobreposto à imagem, aponta para uma figura central vestida com roupas escuras, que está em uma posição inclinada para trás. Ao fundo, outras figuras humanas desfocadas estão presentes na mesma superfície.
Print do vídeo que circulou nas redes como se mostrasse a fuga de Japinha do Complexo da Penha (Reprodução/X)

4 de novembro

A Polícia Civil carioca confirma que o corpo era, na verdade, de Ricardo Aquino dos Santos, jovem natural da Bahia que tinha dois mandados de prisão em aberto. A organização também reitera que nenhuma mulher estava entre os mortos da megaoperação.

E aí, para a surpresa de zero pessoas, começam a pipocar diversos perfis falsos da Japinha — uns com gravações e fotos antigas, outros com vídeos gerados por IA (inteligência artificial).

Segundo a CBN, que conversou com fontes da Segurança Pública do Rio de Janeiro, as forças policiais passaram a confirmar que Japinha estaria viva e “movimentando as redes sociais”.


E é assim que a saga de Japinha, dada como morta durante quase uma semana, termina.

Só que não!

Usuários encontraram esse perfil no Instagram e, acreditando que ele seria o oficial da Japinha na rede social, começaram a segui-la. Hoje, já passam dos 600 mil seguidores. Na madrugada de terça-feira (4), a conta publicou um vídeo em que a jovem aparece dançando ao lado de um homem, identificado como Nathan Nael.

De volta à vida, ela e seu suposto namorado, aproveitando que estão ganhando seguidores a cada dia que passa, agora estão divulgando casas de apostas online.

Uma captura de tela de um story do Instagram da usuária 'penelope_ph77' exibe uma mão segurando um smartphone. A tela do dispositivo mostra uma página de carregamento azul com o título 'Subway ORIGINAL' em letras amarelas e laranjas e o texto 'Carregando' no topo. Abaixo do título, há uma barra de progresso em '0%' e uma lista de recursos que inclui 'VELOCIDADE E JOGABILIDADE IGUAL AO JOGO ORIGINAL', 'SAQUES 24H INSTANTÂNEOS' e 'LEGALIZADO PELA SIGAP'. Sobreposta à imagem do celular, uma figurinha de link direciona para 'Osubwayoriginal.site', acompanhada pela frase 'esse é o melhor que tem!'. Na parte inferior da captura, uma notificação mostra um 'Pix Recebido' no valor de 'R$1233,90' de 'Subway Pagamentos LTDA'.
Exemplo de propaganda de jogo de azar divulgado pela jovem nos últimos dias (Reprodução/Instagram)

E quando você achava que não havia mais reviravoltas, vem a última: e se eu te disser que essa Japinha que foi dada como morta e agora está hitando nas redes e divulgando bets nunca foi a Japinha do CV? Essa pelo menos é a teoria publicada pelo site BNews e que, pelo que conseguimos apurar, parece sólida.

A história é a seguinte:

  • Quando houve a divulgação de que a Japinha do CV havia morrido, fotos de uma outra jovem, identificada como “Maria Eduarda”, começaram a circular junto da “notícia”;
  • Segundo mensagens anônimas divulgadas pela advogada Laís Albuquerque, a verdadeira Japinha seria outra pessoa que até “tinha saído do crime”;
  • De fato, é possível ver que, ao comparar os rostos divulgados na imprensa, trata-se de duas pessoas diferentes (veja abaixo).
Uma montagem de imagem exibe, lado a lado, as fotografias de duas mulheres diferentes com setas vermelhas apontando para seus rostos e ombros. A mulher na imagem da esquerda possui pele parda, cabelo preto liso com franja e está usando fones de ouvido pretos sobre as orelhas. A mulher na imagem da direita possui pele parda, cabelo longo, cacheado e de cor castanho-clara e veste um top preto de alças finas e um colar com pingente em formato de flor.
Além de nariz e olhos em formatos diferentes, mulher da esquerda, que foi apontada como ‘Japinha do CV’ pela imprensa, tem tatuagem que não aparece no ombro de Maria, que tem sido identificada como Japinha nas redes (à dir).
  • Um perfil no Instagram chamado @danielle_santos78 afirma que sua filha, Maria Eduarda, “nunca esteve morta e muito menos envolvida com o crime”.
  • De fato, há um perfil chamado @maria_saitx no Instagram, com fotos da jovem e de Nathan Nael.

Na descrição do perfil de Maria, ela diz que é assessora do cantor de trap Jay Ice. Entramos em contato com o artista, que confirmou que ela faz sua assessoria e que foi confundida com a Japinha do CV.

Enviamos outras perguntas para descobrir mais sobre o contexto da situação, mas ele não respondeu até a publicação desta newsletter.

De qualquer maneira, sendo a jovem ligada ou não ao CV, podemos afirmar que ela não está morta.

Agora, sobre o paradeiro da “verdadeira” Japinha do CV — levando em consideração que a mulher que aparece ali na parte esquerda da comparação seja ela —, a dúvida permanece viva.


Atualização 12.nov.2025

Na noite de terça-feira (11), Maria Eduarda publicou um vídeo em seu Instagram oficial para confirmar que está viva. A jovem ainda disse que a internet e a imprensa a vincularam à "Japinha do CV", uma figura que nunca existiu.

"Tenho minha vida, minha história. Tem coisas da minha vida que eu prefiro deixar no passado. E... Não levo mais pra minha vida hoje em dia. Não faço parte. Quero que deixe no passado. E é isso", afirmou Maria Eduarda.

Ainda na sexta-feira (7), a outra mulher que foi identificada como Japinha pela imprensa (a que possui uma tatuagem de flor no ombro), gravou um vídeo também dizendo que estaria viva e que deixou a vida do crime para se dedicar à sua gravidez.


Esta newsletter foi atualizada às 12h50 do dia 12.nov.2025 para acrescentar informações divulgadas por Maria Eduarda e pela outra mulher identificada como "Japinha do CV" nas redes sociais.

Compartilhe

Leia também

falsoÉ falso que Lula só venceu eleições após adoção das urnas eletrônicas

É falso que Lula só venceu eleições após adoção das urnas eletrônicas

falsoVídeo que mostra manifestação de caminhoneiros em Brasília foi gerado por IA

Vídeo que mostra manifestação de caminhoneiros em Brasília foi gerado por IA

falsoPosts inventam que PF revelou dossiê contra Nikolas Ferreira e irmão de Bolsonaro

Posts inventam que PF revelou dossiê contra Nikolas Ferreira e irmão de Bolsonaro

fátima
Fátima