Janones engana ao dizer que Bolsonaro é investigado nos EUA por fraude em cartão de vacinação

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O deputado federal André Janones (Avante-MG) enganou ao afirmar nas redes sociais nesta quarta-feira (3) que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi condenado pela Justiça dos EUA e é investigado pelo FBI por fraudar o cartão de vacinação contra Covid-19. Não há indícios ou evidências que comprovem a alegação do parlamentar, embora o ex-mandatário tenha sido alvo de operação de busca e apreensão da PF (Polícia Federal) por suspeita de fraude no documento.

A investigação atingiu Bolsonaro e aliados, como o coronel do Exército e ex-ajudante de ordens Mauro Cid Barbosa, que foi preso, e foi autorizada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito que investiga as milícias digitais. Segundo a polícia, a falsificação de dados de cartões de vacinação serviria para viabilizar a viagem do ex-presidente aos EUA. Não há, no entanto, nenhuma informação de que americanos tenham participado da operação.

Procurado, Janones não respondeu até a publicação desta checagem.

Confira abaixo, em detalhes, a checagem:


Selo falso

Após a justiça dos Estados Unidos indicar que Bolsonaro deve pegar 10 anos de cadeia no país e o FBI começar a investigar o caso, Bolsonaro ACABA DE CONCEDER a senha do seu aparelho de celular aos policiais!

Janones engana ao dizer, em tuíte, que justiça americana condenou Bolsonaro e que FBI investiga o ex-presidente

Após a notícia de que a PF teria realizado uma operação de busca e apreensão na casa de Jair Bolsonaro nesta quarta-feira (3), em meio a uma investigação de fraude do cartão de vacinação, o deputado André Janones (Avante-MG) desinformou ao publicar nas redes sociais que o ex-presidente estaria sendo investigado e processado nos Estados Unidos:

  • Diferentemente do que afirma Janones, não há nenhum posicionamento do Judiciário americano sobre o caso até o momento;
  • E também não há nenhum indício de que o FBI tenha começado a investigar o caso.
  • Não há citações a autoridades dos EUA na decisão do ministro Alexandre de Moraes, que autorizou a operação de hoje.

Aos Fatos não encontrou nenhuma notícia de que a Justiça americana teria “indicado que Bolsonaro deve pegar 10 anos de cadeia no país”, como disse Janones nas redes. Não há qualquer informação sobre processos judiciais similares envolvendo Bolsonaro nos Estados Unidos, como Aos Fatos constatou em busca nos principais órgãos de imprensa e no Court Listener, site que compila movimentações e documentos de ações judiciais que tramitam em tribunais americanos.

O deputado, na verdade, distorce uma informação da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, de que a lei americana pode punir quem entrar com documentos falsos no país. “As consequências são sérias. Se você cometer fraude, você não receberá o benefício imigratório que você busca. Você também pode enfrentar multas ou prisão”, diz a nota. De acordo com a lei americana, a pena de prisão nesses casos pode chegar até 10 anos.

A tese da PF é que Bolsonaro teria usado os dados falsos, inseridos entre novembro de 2021 e dezembro de 2022, “para burlar as restrições sanitárias vigentes imposta pelos poderes públicos (Brasil e Estados Unidos) destinadas a impedir a propagação de doença contagiosa, no caso, a pandemia de Covid-19”.

Entretanto, presidentes, ex-presidentes e funcionários em missões diplomáticas têm passaporte diplomático e, portanto, não precisam apresentar o cartão de vacinação para entrar nos Estados Unidos, de acordo com a Embaixada americana. Esse teria sido o caso na viagem de dezembro, segundo o Financial Times.

Bolsonaro podia entrar no país, mas alguns locais e serviços poderiam exigir a apresentação do documento. Em setembro de 2021, quando esteve no país para participar da Assembleia da ONU, por exemplo, restaurantes de Nova York exigiam o comprovante. Naquela época, o então presidente apareceu comendo pizza na rua para burlar essa regra.

Também não há, seja na imprensa brasileira ou na americana, informação de que o FBI teria começado a investigar o caso dos comprovantes de vacinação que teriam sido fraudados. As reportagens publicadas por agências internacionais e veículos americanos não trazem nenhuma citação ao órgão americano de investigação. Seu nome também não consta na lista de procurados do FBI.

CELULAR

A suposta senha do celular do ex-presidente, que foi apreendido pela polícia, suscitou uma divergência de informações. No início da manhã de hoje, alguns veículos de imprensa noticiaram que Bolsonaro teria se negado a entregar a senha do aparelho aos policiais. Horas mais tarde, Lauro Jardim, colunista do Globo, disse que Bolsonaro acabou fornecendo o código de acesso “depois de relutar”. Em nenhum momento da nota, no entanto, há a informação de que ele teria dado a senha após ouvir que seria investigado pela Justiça americana.

Bolsonaro, no entanto, nega que o celular apreendido fosse protegido por meio de senha. Em entrevista à imprensa, concedida logo após a operação policial, o ex-presidente disse que “não tem nada a esconder” e que não cometeu crime.

O CASO

A investigação que culminou na prisão de seis pessoas e na apreensão do celular de Bolsonaro na manhã desta terça-feira (3) foi iniciada ainda durante o governo anterior. O ex-ministro da CGU (Controladoria-Geral da União), Wagner Rosário, pediu para que a PF apurasse uma inserção falsa de dose da vacina da Covid-19 no cartão de vacinação do ex-presidente.

De acordo com a apuração da polícia, aliados de Bolsonaro falsificaram dados do cartão de vacinação do ex-presidente e de familiares para incluir o registro de imunização contra a Covid-19. O objetivo do esquema era emitir falsos comprovantes de vacinação que permitissem que Bolsonaro acessasse locais onde os certificados eram exigidos.

OUTRO LADO

Aos Fatos entrou em contato com o gabinete de Janones para que ele pudesse comentar o resultado da verificação, mas não recebeu nenhum retorno até a publicação desta checagem.

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