Não é verdade que estudos recentes comprovaram que a ivermectina possui 70% de eficácia no tratamento da Covid-19, como tem dito posts nas redes. A alegação mistura resultados de pesquisas de baixa qualidade com dados de uma plataforma criticada por metodologias inadequadas. Especialistas e autoridades sanitárias afirmam que não há evidências científicas para recomendar o fármaco no tratamento da doença.
O conteúdo enganoso acumulava 1 milhão de visualizações no X, 37 mil curtidas no Instagram e 10,9 mil compartilhamentos no Facebook até a tarde desta sexta-feira (7).
Bolsonaro tinha razão. Ivermectina 70% de eficácia

Publicações nas redes sociais enganam ao afirmar que a ivermectina apresentou eficácia de 70% contra a Covid-19. Especialistas consultados por Aos Fatos e autoridades sanitárias afirmam que não há evidências robustas para recomendar seu uso no tratamento da doença.
A própria fabricante da ivermectina, a Merck, já se manifestou afirmando que “não há base científica para um potencial efeito terapêutico do medicamento contra a Covid-19 a partir dos estudos pré-clínicos, nem evidências significativas de atividade clínica ou eficácia em pacientes”.
Instituições nacionais e internacionais também negaram a eficácia da ivermectina no combate à Covid-19. O Ministério da Saúde disse que não há evidências científicas que comprovem a eficácia do fármaco no tratamento da doença. Segundo a pasta, os cuidados no SUS (Sistema Único de Saúde) seguem protocolos clínicos e estudos atualizados.
“Para os casos indicados, o tratamento é feito com a associação dos antivirais nirmatrelvir e ritonavir. O medicamento é destinado a imunocomprometidos com 18 anos ou mais e idosos com 65 anos ou mais e deve ser iniciado em até cinco dias após o início dos sintomas”, afirmou a pasta.
Segundo o ministério, a vacinação continua sendo a principal medida para prevenir casos graves, internações e mortes. A pasta também reforçou que medidas como higienizar as mãos, cobrir nariz e boca ao tossir ou espirrar, usar máscara quando indicado e manter ambientes ventilados ajudam a reduzir a transmissão do vírus.
A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) também disse que o fármaco não tem eficácia comprovada nem indicação para a prevenção ou o tratamento da doença.
Já a FDA, agência regulatória americana, afirma que não aprovou nem autorizou o uso do fármaco para prevenção ou tratamento da Covid-19.
No Brasil, a Anvisa divulgou uma nota técnica, em março de 2021, reforçando que o uso da ivermectina no tratamento de Covid-19 não está previsto em bula, e a utilização off label não tem o respaldo das agências reguladoras, bem como do fabricante do medicamento.
A ivermectina foi um dos medicamentos mais estudados durante a pandemia após pesquisas em laboratório sugerirem que ela poderia inibir a replicação do SARS-CoV-2 em culturas de células. No entanto, os resultados não se confirmaram em estudos clínicos conduzidos em humanos.
Bruno Caramelli, cardiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), explica que a alegação de que o fármaco teria 70% de eficácia, como afirmam as peças desinformativas, não é nova e se baseia em metanálises antigas que reuniam estudos limitados e de baixa qualidade.
Metanálises são revisões estatísticas de dois ou mais estudos independentes com objetivo de reforçar a hipótese em questão. Para ser considerada de qualidade, as pesquisas avaliadas devem ser robustas, atualizadas e ter metodologias similares.
No caso da ivermectina, as peças desinformativas se escoram na alegação de que "106 estudos envolvendo mais de 200 mil pacientes mostram que a ivermectina funciona". O suposto dado foi retirado do site c19early (antigo IvmMeta ou c19ivm), uma plataforma mantida por um grupo independente e anônimo que reúne estudos e metanálises sobre diversos medicamentos para a Covid-19, incluindo a ivermectina.

Leandro Tessler, professor de Física da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e membro do Edres (Grupo de Estudos de Desinformação em Redes Sociais), observa que a plataforma c19early reúne estudos sem crivo de qualidade e trata o resultado como se fosse um placar. “O que é bizarro do ponto de vista metodológico, além de jogar com a ignorância das pessoas sobre esse tema”, entende o pesquisador.
A plataforma reúne estudos com diferentes níveis de qualidade metodológica e os analisa em conjunto, o que pode superestimar os benefícios de um tratamento e comprometer a interpretação das evidências científicas. A metodologia já foi alvo de críticas entre pesquisadores.
“Esse tipo de afirmação parte de pessoas sem treinamento científico, que não conseguem avaliar a qualidade de um artigo. Partem do princípio de que, se está publicado, então deve estar certo”, diz Tessler.
Na medicina baseada em evidências, recomendações sobre medicamentos devem ser fundamentadas em revisões sistemáticas confiáveis e atender a uma série de critérios metodológicos, segundo Caramelli:
- Randomizado: os participantes são distribuídos de forma aleatória entre os grupos que receberão o medicamento em teste e o placebo ou tratamento padrão;
- Duplo-cego: nem os participantes nem os pesquisadores sabem quem recebeu o medicamento e quem recebeu o placebo durante o estudo;
- Controlado por placebo: um dos grupos recebe um placebo — uma substância sem efeito terapêutico — ou, em alguns casos, o tratamento padrão;
- Prospectivo: os participantes são acompanhados ao longo do tempo a partir do início do estudo;
- Avaliação de desfechos objetivos: a pesquisa deve medir resultados clínicos claramente definidos antes do início da pesquisa, como mortalidade, necessidade de internação, admissão em UTI ou tempo de recuperação.
Além disso, o ensaio deve ter tamanho amostral adequado, dados verificáveis, monitoramento independente e resultados reproduzíveis. “Isso não existe para o uso de ivermectina ou hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19”, explica ele.
Como exemplo de revisão sistemática conduzida com rigor metodológico, Caramelli cita as meta-análises da Cochrane, organização internacional especializada em medicina baseada em evidências.
"A Cochrane reuniu vários estudos de boa qualidade e concluiu que não há benefício da ivermectina. É disso que estamos falando quando falamos em evidência científica”, concluiu.
Contexto. Publicações desinformativas sobre a Covid-19 voltaram a circular nesta semana após uma audiência realizada por uma comissão do Senado dos Estados Unidos, comandada por republicanos, para discutir a condução da pandemia e as origens do coronavírus.
Na sessão, os senadores interrogaram Anthony Fauci, principal assessor médico da Casa Branca durante a pandemia e ex-diretor do NIAID (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas), cargo que ocupou entre 1984 e 2022.
Porém, Fauci se recusou a responder a maior parte das perguntas ao recorrer à 5ª Emenda da Constituição dos EUA, que garante o direito de uma pessoa não produzir provas contra si própria. A decisão foi interpretada por críticos como um indício de que ele estaria ocultando informações, embora o exercício desse direito constitucional não constitua, por si só, admissão de culpa.
O depoimento ocorreu mais de um ano após o então presidente Joe Biden conceder a Fauci um perdão presidencial preventivo para eventuais crimes federais relacionados à sua atuação durante a pandemia. A medida buscava protegê-lo de processos considerados politicamente motivados.
Especificamente sobre a ivermectina, o debate voltou à tona depois que o senador republicano Ron Johnson acusou Fauci de ter ignorado supostas “evidências favoráveis” ao uso do medicamento e da hidroxicloroquina durante a pandemia.
O caminho da apuração
Inicialmente, Aos Fatos consultou o Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e a Fiocruz sobre a eficácia da ivermectina contra a Covid-19.
A reportagem também analisou notas técnicas e posicionamentos da Anvisa, da FDA e da fabricante Merck, além de entrevistar os pesquisadores Leandro Tessler (Unicamp) e Bruno Caramelli (USP) sobre a qualidade das evidências científicas e a metodologia das meta-análises citadas pelas publicações.
Por fim, Aos Fatos verificou a origem da alegação dos "106 estudos" e analisou a metodologia da plataforma c19early.





