Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

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Ethel Rudnitzki e Aline Melo, da Agência Pública

Com novas páginas e perfis, alvos de inquéritos abertos no STF (Supremo Tribunal Federal) e no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) têm publicado conteúdos virais sobre o pleito deste ano. A Agência Pública identificou dez influenciadores digitais investigados por desinformação ou tentativa de golpe de Estado que seguem ativos na campanha de 2026. Todos eles já tiveram páginas derrubadas pela Justiça, embora não seja possível saber se as decisões seguem válidas, pois os processos estão em sigilo.

Ao menos quatro deles estão foragidos e publicam conteúdos desinformativos desde o exterior.

Um deles é Leonardo Rodrigues de Jesus, primo do candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, e também de seus irmãos Eduardo (PL-SP) e Carlos Bolsonaro (PL-SC). Conhecido como Léo Índio, ele é um dos alvos do inquérito do Supremo que investiga a tentativa de golpe de Estado em 2022 e teve a prisão decretada em 2025, após ser flagrado na fronteira com a Argentina. O influenciador também já foi acusado de se beneficiar de um esquema de rachadinhas no gabinete de Flávio, à época deputado estadual no Rio de Janeiro. Reportagens da época apontaram que o chefe de gabinete do parlamentar teria bancado o aluguel de Léo Índio.


Diretamente de Puerto Iguazu, no lado argentino da tríplice fronteira, Léo administra um perfil no Instagram que compartilha vídeos gerados por inteligência artificial sobre política brasileira, como uma deepfake publicada em 9 de agosto em que o presidente Lula (PT) é retratado recebendo um saco de dinheiro de seu filho. Em outra ocasião, ele publicou um vídeo com deepfakes do presidenciável do Missão, Renan Santos, e outros militantes do MBL (Movimento Brasil Livre) seminus em uma sauna.

Os conteúdos são republicados por uma rede de ao menos 31 páginas dedicada à produção de conteúdos sintéticos que foi denunciada pelo PT no TSE por ataques contra Lula. Segundo a ação, a rede soma mais de 1,4 milhões de seguidores e 23 mil publicações, com milhares de visualizações no Instagram. A Federação Brasil da Esperança pede a remoção das contas e a aplicação de multas por propaganda antecipada e uso indevido de inteligência artificial. A ação ainda está em fase inicial e foi delegada ao ministro Kassio Nunes Marques, atual presidente da corte.

Denunciado por associação criminosa no âmbito do inquérito que investiga o 8 de janeiro, o blogueiro Oswaldo Eustáquio também fez parceria com páginas de conteúdos políticos gerados por inteligência artificial enquanto esteve foragido na Espanha, que negou sua extradição em dezembro de 2025.

Através do Instagram, ele tem publicado conteúdos em conjunto com a página “Dona Maria”, influenciadora gerada por inteligência artificial que publica vídeos com ataques ao governo federal e em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Entre eles, um vídeo em que diz que o ex-mandatário foi o criador do PIX. Na verdade, a ferramenta foi idealizada e implementada pelo Banco Central. Em abril, o perfil foi alvo de ação no TSE por campanha antecipada.

Procurado, Oswaldo respondeu: “O Pix foi uma iniciativa do Banco Central na gestão do governo Bolsonaro. Essa é uma verdade incontestável. O perfil da Dona Maria tem rótulo de IA e atacar o perfil é querer brigar com a tecnologia”.

Na realidade, nenhum presidente foi responsável por ter “criado” o Pix. Ao invés disso, o sistema foi desenvolvido por técnicos do BC, sem interferência de governos.

A primeira menção sobre uma solução de pagamentos do tipo ocorreu em um relatório publicado em 2014, na gestão Dilma Rousseff (PT). Modelos começaram a ser estudados ainda durante a presidência de Michel Temer (MDB). O lançamento ocorreu em 2020, no governo de Jair Bolsonaro, após anos de pesquisa e desenvolvimento.

Oswaldo Eustáquio faz publicações em colaboração com páginas de conteúdo político gerado por inteligência artificial (Reprodução)


Outro foragido que segue desinformando sobre as eleições brasileiras é o blogueiro Allan dos Santos, que reside nos Estados Unidos e tem um mandado de prisão preventiva decretado pelo STF desde outubro de 2021. Considerado foragido pela Justiça, ele teve o bloqueio de suas contas bancárias e perfis digitais no Brasil. São diversas as investigações em torno dele, entre elas o inquérito das fake news e das milícias digitais, por disseminação de conteúdo falso e ataques a autoridades e monetização Ilícita para financiar organização criminosa e auferir vantagens econômicas de maneira ilegal.

Ainda assim, o influenciador conseguiu abrir novas páginas e canais nas redes sociais, onde continua disseminando conteúdos desinformativos sobre o processo democrático. Entre as publicações recentes estão alegações sobre uma suposta interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras, incluindo menções a uma possível ação militar contra instituições do país. “Vá logo, Trump. Pegue o Lula!", escreveu em 13 de julho. A publicação acompanha uma montagem que mostra o presidente brasileiro vendado e vestindo um moletom cinza, em referência à foto da prisão de Nicolás Maduro.

No ano passado, ele se juntou a Alexandre Ramagem – ex-chefe da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) durante o governo Bolsonaro, condenado a 16 anos pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e atualmente foragido – com quem faz lives diárias no canal de extrema-direita TimeLine, que pertence a Allan dos Santos.

Em mais de uma ocasião, os investigados chegaram a disseminar desinformação sobre o processo eleitoral, entre elas falsas associações entre as eleições brasileiras com a empresa Smartmatic, acusada de fraude na Venezuela. No dia 16 de junho, Allan fez um tweet em que diz que as urnas eletrônicas não seriam auditáveis, o que é falso. Os equipamentos passam por uma série de etapas de auditoria antes e depois do pleito. O influenciador também compartilhou em 10 de junho um vídeo antigo de Jair Bolsonaro dizendo que Lula só vence eleições devido à urna eletrônica, insinuando que haveria fraude.

Para Yasmin Curzi, professora e pesquisadora de direito digital na FGV Rio, o fato dos influenciadores estarem fora do Brasil pode limitar o alcance da Justiça brasileira sobre os conteúdos que eles publicam nas redes. “A efetividade das decisões depende de cooperação internacional", explica.

Conteúdos persistem também no Brasil

Mesmo em território nacional, outros influenciadores que já foram alvos de decisões do STF e do TSE por desinformar contra o Estado Democrático e o processo eleitoral seguem ativos na campanha de 2026.

Além de manter perfis nas redes sociais, o youtuber Fernando Lisboa da Conceição, conhecido pelo canal Vlog do Lisboa, foi oficializado como candidato a deputado estadual pelo PL de São Paulo. Em seus canais oficiais registrados junto ao TSE, ele publica vídeos em que insinua a invasão do Brasil e a prisão de Lula pelo governo dos Estados Unidos.

Lisboa também foi candidato em 2022, quando concorreu ao cargo de deputado federal pelo PL de São Paulo. Na época, reportagem da Agência Pública mostrou que o influenciador recebeu R$ 200 mil em verbas públicas de campanha do partido, que foram gastos para impulsionar anúncios e administrar suas redes sociais, onde publicava conteúdos desinformativos.

Neste ano, ele tem repercutido declarações de políticos e autoridades dos EUA sobre o Brasil e sobre eleições, entre elas questionamentos sobre a segurança de urnas eletrônicas. No final do ano passado, chegou a defender a proibição dos equipamentos nas eleições americanas. Em julho, divulgou resultado de pesquisa realizada por aliado de Trump sobre eleições brasileiras para insinuar que o país estaria “na mira” dos Estados Unidos. O levantamento não foi registrado junto ao TSE.

Alvo de investigação no TSE por desinformação sobre o processo eleitoral, a youtuber Bárbara Zambaldi Destefani teve suas contas banidas no âmbito de inquérito que investiga a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro. A investigação segue aberta, mas é sigilosa. Em junho de 2023, ela reativou o canal Te Atualizei no X, Instagram e YouTube, e mantém também um aplicativo próprio.

Nesses canais, ela publica frequentemente ataques a decisões do STF, defende a possibilidade de impeachment de ministros do Supremo, além de apoiar intervenções dos Estados Unidos no Brasil. Em vídeo publicado em março deste ano, ela exibiu uma imagem gerada por inteligência artificial que mostra Alexandre de Moraes em uma cela de cadeia, sendo observado por Donald Trump e Elon Musk.

As publicações também recorrem a estratégias de compartilhamento de conteúdos de forma “privada”, como o convite: “Comente ‘FAMÍLIA’ para receber acesso aos vídeos secretos da Família Te Atualizei.

Após a publicação, Bárbara Stefani respondeu à Pública afirmando que nunca foi investigada por financiar atos antidemocráticos. A íntegra da sua resposta está no final da reportagem.

Além disso, ela defendeu as postagens que pedem o impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes, como “instituto previsto no ordenamento jurídico brasileiro e sujeito aos mecanismos constitucionais e legais pertinentes”.

Também diz que “não corresponde à realidade afirmar ou insinuar que eu defenda uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil. O que faço, em meu trabalho, é comentar fatos, declarações e manifestações públicas amplamente documentados pela imprensa, no exercício legítimo da liberdade de expressão, inclusive quando me manifesto em tom crítico, satírico ou irônico”.

Bárbara também negou defender golpe de Estado e afirmou que “trata-se de charge” a imagem gerada por inteligência artificial que mostrava o ministro Alexandre de Moraes preso, publicada por seu canal em março. “O uso de sátira, caricatura e charge como formas de expressão e crítica política possui longa tradição no debate público brasileiro e, por si só, não pode ser equiparado a ataque ou prática ilícita.

Enzo Leonardo Suzi Momenti, conhecido como Enzuh em seu canal no YouTube, também foi alvo da CPMI das Fake News e do chamado inquérito das fake news, no qual foi alvo de operação de busca e apreensão e teve redes sociais bloqueadas.

Mesmo assim, seu canal mantém alta frequência de conteúdos que estimulam teorias conspiratórias sobre o 8 de Janeiro, levantam suspeitas sobre a segurança das urnas eletrônicas e promovem ataques frequentes ao STF, especialmente a Moraes. Também repercute declarações de Trump sobre o Brasil e menciona a possibilidade de impeachment de ministros do Supremo, recorrendo frequentemente a manchetes de tom sensacionalista. São publicados cerca de três ou mais conteúdos por dia.

Em 15 de agosto, ele publicou vídeo dizendo que as urnas teriam apresentado erros durante testes de auditoria, o que é falso. Não foram encontradas falhas nos equipamentos até o momento.

Enzo afirmou à reportagem que todas as suas redes foram desbloqueadas e que é investigado há sete anos sem saber o porquê. Sobre o vídeo, ele afirmou ser um clickbait e que incentiva seus seguidores a irem votar: “não promovo nenhuma conspiração”.

Vídeos publicados entre 8 e 9 de julho de 2026 no canal de Enzo Momenti no YouTube (Reprodução)

Também seguem ativos e publicando sobre política nacional, os perfis Brasileirinhos, associado a Eduardo Fabris Portella, e Dr. Marcelo Frazão, ambos investigados pelo STF no inquérito 4874, sobre a organização de atos antidemocráticos em 2021. Já o perfil RoboConservador de Rafael Moreno, investigado no inquérito das fake news, tem sido usado para impulsionar a campanha de Bárbara Kogos (Novo-SP) para deputada federal.

Marcelo Frazão publicou live em defesa da campanha de Flávio Bolsonaro e associando Lula ao comunismo (Reprodução)

Para Curzi, a persistência de perfis e páginas associados a pessoas já investigadas por desinformação se explica pela escalabilidade dos conteúdos. “A suspensão de conteúdos e contas funciona como ferramenta de contenção pontual, mas não há uma solução estrutural para o problema da desinformação. O volume de conteúdo enganoso segue crescendo, agora amplificado por IA generativa”, avalia.

Ela também explica que o cumprimento de determinações judiciais por plataformas pode ser falho. Segundo a pesquisadora, muitas vezes, as empresas “tiram um ou outro perfil do ar, mas mantém outros sem a transparência adequada", diz.

Desde a decisão do STF que revisou o artigo 19 do Marco Civil, em junho do ano passado, no entanto, as plataformas não precisam de decisão judicial para remover conteúdos antidemocráticos e “incorrem em culpa por omissão caso não adote, as medidas necessárias para evitar o espraiamento desse tipo de conteúdo”.

Outro lado. A reportagem questionou a Meta, empresa responsável por Instagram e Facebook, e o Google, dona do YouTube, sobre as medidas de combate à desinformação eleitoral e iniciativas de colaboração com o TSE. Em resposta, a plataforma de vídeos do Google afirmou que “atua em estrita conformidade com a legislação local e cumpre as ordens judiciais válidas emitidas pelos tribunais competentes, incluindo o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral", mas que “não comenta publicamente casos específicos sob apuração".

Já a Meta se limitou a encaminhar um link com informações sobre a abordagem da plataforma para essas eleições em que informa ter firmado parceria com autoridades e “intensificando ações contra o uso indevido de imagens de candidatos e figuras públicas".

Os perfis citados foram procurados pela nossa reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.

CORREÇÃO: Esta reportagem afirmava anteriormente que Bárbara Destefani foi investigada por financiar atos antidemocráticos, o que não é verdade. Investigada pelo TSE por desinformar sobre o processo eleitoral, Destefani também teve suas contas banidas no âmbito de inquérito que investiga a tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro. A investigação segue aberta, mas é sigilosa. Assim, esta publicação foi alterada em 20 de agosto de 2026, às 11h14. A íntegra da resposta de Destefani segue abaixo:

Prezados,

Registro de forma clara e inequívoca: é falsa e gravíssima a afirmação de que eu teria sido investigada por financiar atos antidemocráticos. Nunca fui investigada por esse fato, tampouco tenho conhecimento de qualquer elemento que sustente tal insinuação. Associar meu nome ao financiamento de condutas criminosas sem fundamento ultrapassa o campo da crítica jornalística e atinge diretamente minha honra e reputação.

Também considero indevida qualquer tentativa de criminalizar a defesa pública do impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal, instituto previsto no ordenamento jurídico brasileiro e sujeito aos mecanismos constitucionais e legais pertinentes.

Da mesma forma, não corresponde à realidade afirmar ou insinuar que eu defenda uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil. O que faço, em meu trabalho, é comentar fatos, declarações e manifestações públicas amplamente documentados pela imprensa, no exercício legítimo da liberdade de expressão, inclusive quando me manifesto em tom crítico, satírico ou irônico.

Quanto à imagem produzida por inteligência artificial utilizada na capa de um vídeo publicado em março, tratava-se de uma charge de caráter político, relacionada ao acontecimento que estava em discussão naquele momento: as manifestações públicas de Elon Musk a respeito do ministro Alexandre de Moraes. O uso de sátira, caricatura e charge como formas de expressão e crítica política possui longa tradição no debate público brasileiro e, por si só, não pode ser equiparado a ataque ou prática ilícita.

Esclareço ainda que a investigação relacionada às chamadas “fake news” ocorreu em contexto específico, envolvendo comentário a respeito de processo real e existente. Não houve fabricação consciente de fato sabidamente inverídico nos termos que a matéria possa eventualmente sugerir.


Esta reportagem foi realizada dentro do projeto LIE - Laboratório de Investigação Eleitoral, uma parceria entre Agência Pública, Amado Mundo, Aos Fatos e Núcleo Jornalismo.

Referências

  1. Uol
  2. g1 (1 e 2)
  3. TSE (1 e 2)
  4. O Globo
  5. Migalhas
  6. CNN Brasil
  7. STF
  8. Agência Pública (1 e 2)
  9. Aos Fatos
  10. Agência Lupa
  11. Facebook

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