Índia não suspendeu vacinação, nem uso de ivermectina controlou a Covid-19 no país

Por Luiz Fernando Menezes

25 de junho de 2021, 16h09

Não é verdade que a Índia suspendeu a vacinação contra Covid-19 após controlar a pandemia com ivermectina, como alegam postagens nas redes (veja aqui). O país aplicou 6 milhões de doses somente entre quinta (24) e sexta-feira (25). E, por mais que o governo recomende o antiparasitário em alguns quadros da doença, dados não evidenciam que há relação entre a droga e a recente queda de casos. Até agora, a ivermectina só se provou eficaz contra o novo coronavírus em laboratório e em dosagem tóxica para humanos.

Postagens no Facebook com a falsa alegação reuniam centenas de compartilhamentos até a tarde desta sexta-feira (25) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da plataforma ‌(‌saiba‌ ‌como‌ ‌funciona‌). A mensagem enganosa também circula no Instagram, onde acumula dezenas de milhares de interações.


A Índia acaba de reabrir o seu maior ponto turístico, o Taj Mahal, pois o Covid foi controlado após a suspensão da vacinação em massa em maio de 2021 e adoção de Ivermectina em todo o país (a Índia é um dos maiores produtores de ivermectina). Era um país de 1.400.000.000 de habitantes que estava incinerando cadáveres em praças públicas em abril-maio. Daí suspendeu a vacinação massiva, controlou completamente a Covid-19 a ponto de poder reabrir o turismo. E mais: a Ordem dos advogados indianos está processando a OMS por não estar divulgando os efeitos benéficos da ivermectina na profilaxia e terapia da Covid-19, com índices surpreendentes de sucesso.

Postagens nas redes sociais enganam ao afirmar que a campanha de vacinação contra a Covid-19 na Índia foi suspensa porque o país conseguiu controlar a expansão da doença liberando o uso de ivermectina. Somente nas últimas 24 horas anteriores à publicação desta checagem, 6 milhões de doses de imunizantes haviam sido aplicadas, segundo o Ministério da Saúde e Bem-Estar Familiar da Índia.

Desde que a campanha de imunização começou, em dezembro de 2020, o país já administrou 307,9 milhões de vacinas, sem interrupções. A plataforma Our World in Data, mantida pela Universidade de Oxford, aponta ainda que 247 milhões de indianos já tomaram ao menos uma dose (17,9% da população) e 51,6 milhões completaram a proteção contra o vírus (cerca de 3,7% do total de habitantes).

A ivermectina é de fato recomendada pelo governo indiano para casos assintomáticos e médios da Covid-19 desde 28 de abril e consta no atual protocolo de manejo clínico indiano, publicado em 24 de maio. A orientação, entretanto, pode ser revertida caso o Conselho de Pesquisas Médicas da Índia aprove uma revisão feita pela Diretoria Geral de Serviços de Saúde que excluiu a ivermectina da lista de alternativas para o tratamento da infecção.

Correlação. Por mais que a prescrição do antiparasitário esteja de fato liberada na Índia, os dados disponíveis não permitem apontar uma relação entre a utilização do remédio pela população e a recente queda nos registros de casos e mortes pela Covid-19 no país.

O Aos Fatos não encontrou, por exemplo, informações oficiais sobre quantas doses de ivermectina foram distribuídas e consumidas no país, nem em quais condições isso aconteceu, dados essenciais para avaliar se há correlação. O governo indiano também não disponibiliza evidências da eficácia do medicamento para combater o avanço da Covid-19.

A alegação de causa e efeito das postagens checadas também ignora o fato de que outras medidas reconhecidamente eficazes para conter avanço de casos de Covid-19, como lockdown e incentivo ao uso de máscaras, também foram adotadas na Índia.

As mortes diárias pela infecção no país também continuaram em um patamar elevado mesmo após a inclusão da ivermectina no protocolo oficial, mostram dados do Our World in Data. No dia 10 de junho, por exemplo, o país notificou 7.374 mortes pela doença.


A Índia registrou um grande aumento no número de casos diários em março de 2021, atingindo o pico em 6 de maio, com 414 mil confirmados em um só dia, segundo o Our World in Data. O surto de Covid-19 se deu após o relaxamento de medidas de combate à pandemia, justificadas pela estagnação no número de casos. No início de março, o ministro da Saúde indiano chegou a declarar que o país teria vencido o vírus.

O número de casos notificados pelas autoridades indianas vem caindo atualmente, o que levou ao relaxamento de restrições, como a reabertura do Taj Mahal, citada pela peça de desinformação, em 16 de junho. A atração turística ficou dois meses fechada.

As publicações distorcem ainda ao afirmar que a OMS (Organização Mundial da Saúde) teria sido processada por uma associação de advogados indianos equivalente à OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) por “não divulgar os efeitos benéficos da ivermectina”. A ação movida pela entidade é direcionada à Soumya Swamianatha, cientista-chefe da OMS na Índia, acusada de promover uma "campanha desinformativa" contra a droga.

Remédio. Até o momento, estudos demonstraram que a ivermectina inibiu a replicação do novo coronavirus apenas em experimentos com células em laboratório e em dosagens que são consideradas tóxicas para o consumo humano. Estudos clínicos abrangentes, como um da Universidade de Oxford, estão em curso para avaliar o potencial da droga no tratamento de infectados com a doença, mas, até o momento, não há comprovação de sua eficácia.

A OMS afirma que a evidência da eficácia do remédio é inconclusiva e que a droga só pode ser usada em testes clínicos. Ao menos 47 estudos registrados ainda estão em andamento.

Uma alegação semelhante à desta peça de desinformação circulou também nos Estados Unidos em maio de 2021 e foi checada pelo Health Feedback.

Referências:

1. Ministério da Saúde e Bem-Estar Familiar da Índia (1, 2, 3 e 4)
2. Our World in Data
3. Business Today
4. Aos Fatos
5. BBC
6. The Economic Times
7. Taj Mahal
8. The Print
9. Antiviral Research
10. UOL
11. OMS
12. Clinical Trials


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