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Impacto social das Olimpíadas é explorado seletivamente

Por Sérgio Spagnuolo

5 de agosto de 2016, 16h52

O impacto social das Olimpíadas tem muitas faces. Muitas delas tratam do desenvolvimento do esporte no país e do desenvolvimento de programas com essa finalidade. Em relatórios oficiais, no entanto, as disparidades entre quem é servido e quem não é por esses serviços costumam ficar em segundo plano.

Um relatório do COI de 2013 relata a criação de projetos para desenvolvimento esportivo e social em muitos países com a participação do comitê, inclusive para promover a realização dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidos pela ONU no começo do século para melhorar a qualidade de vida no mundo.

Esses projetos incluem programas esportivos na Zâmbia, programas para fornecimento de alimentação e recreação para crianças na África e na Ásia, por exemplo. Além dos projetos de fomento nas cidades sede e em outros lugares, o próprio fato de se realizar um evento dessa magnitude é significativo para o esporte.

De acordo com um estudo feito por Kyriaki Kaplanidou, professora-assistente da Universidade da Flórida, a realização dos Jogos nas quatro cidades-sede por ele analisadas — Atlanta, Sidney, Atenas e Pequim — tiveram impactos “moderados ou muito importantes” no desenvolvimento esportivo local. “Sediar mais eventos esportivos foi um legado comum de desenvolvimento esportivo para todos os respondentes", notou o autor, que fez questionários online e entrevistou residentes das cidades analisadas durante julho de 2010.

Mas há também um lado perverso, especialmente para comunidades mais pobres. De acordo com dossiê do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro, mais de 20 mil famílias foram removidas de suas casas na cidade, totalizando cerca de 80 mil pessoas.

“Muitas vezes, embora esteja claro que a remoção decorre de obra relacionada ao projeto Rio Cidade Olímpica, o dado é mascarado por outras justiˆficativas, como ser área de risco ou de interesse ambiental, o que muitas vezes não se conˆfirma”, diz o relatório.

O estudo da Universidade da Flórida ressalta: “Um plano de longo prazo para gerenciamento de legados também deve se focar em manter as instalações dos Jogos Olímpicos e comunicar aos residentes de cada cidade como isso é feito e por quê". Isso significa, segundo o estudo, que as cidades-sede devem criar comitês de recursos humanos posteriores aos Jogos, de modo a auxiliar moradores impactados positiva ou negativamente pelas consequências do evento.

“Em suma, os dados deste estudo sugerem que os aspectos tangíveis de infraestrutura são importantes para todas as cidades-sede, mas mais importantes para cidades-sede mais recentes que as antigas”, afirmou Kaplanidou.

A pesquisadora também afirma que residentes de cidades-sedes de Jogos Olímpicos remotos focam-se mais nos aspectos intangíveis do legado. A identificação e a distinção entre os vários tipos de infraestrutura que foram criados para os Jogos e que seriam construídos mesmo sem a realização do evento pode ser difícil. À medida que o tempo passa, as conexões emocionais parecem ser mais importantes para a qualidade de vida dos residentes. Daí a importância de se certificar que haja mais boas lembranças do que traumas.

Emprego. Como as Olimpíadas ajudam também na geração de emprego na cidade, os impactos sociais que não envolvem infraestrutura podem ser sentidos.

Segundo análise publicada pelo Federal Reserve, banco central dos EUA, há “evidências de um significativo aumento na criação de empregos que dura, em geral, de seis anos antes das Olimpíadas a até um ano depois dos Jogos, com um aumento marginal de até oito anos depois.”

O autor do estudo, Lee Tucker, examinou todas as edições dos Jogos de 1984 a 2004 e constatou, através de modelos estatísticos, que os gastos das cidades na realização do evento “estão negativamente correlacionados com o tamanho do efeito olímpico”, e sugere que o impacto da geração de empregos “pode ser maior em países mais ricos.”

“Talvez, mais importante, as descobertas do modelo [estatístico aplicado] também indicam que maiores níveis de gastos com infraestrutura têm um forte impacto negativo”, escreveu Tucker.

Segundo ele, as cidades que pareceram receber os maiores benefícios de empregos dos Jogos Olímpicos são aquelas que gastaram menos. "Esta descoberta é altamente significativa e se provou ser altamente robusta. Isso sugere que, embora os Jogos tenham impacto positivo, esse impacto é maior quando os gastos são mantidos no mínimo possível. Por exemplo, os ganhos em postos de trabalho podem ser diminuídos quando políticos usam os Jogos como fachada para se engajar em caros projetos que não seriam viáveis de outra forma.”

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