O Brasil é outro país durante a Copa do Mundo de futebol. Pessoas andam de verde e amarelo independentemente do espectro político, bandeiras pipocam em todo lugar e imagens e notícias dos jogadores escalados aparecem 24 horas na televisão e nas redes sociais. É o momento em que a atenção de grande parte dos 213 milhões de brasileiros está voltada para o mesmo lugar.
Enquanto alguns enxergam, na Copa, um evento cultural para reunir os amigos, torcer pela seleção e passar um pouco do ponto no quesito consumo de álcool, outras pessoas veem o campeonato como uma oportunidade: se todo mundo quer saber da Copa, por que não obter engajamento com ela?
Nos últimos anos, tem sido mais fácil criar conteúdo sobre qualquer coisa. Com as ferramentas de IA, então, nem é preciso estar no local para criar imagens “exclusivas”. Em questão de minutos, artes e textos que poderiam levar horas para serem produzidos são publicados.
Então era de se esperar que, na primeira Copa do Mundo após a popularização da IA, a paixão nacional viraria alimento de todo um ecossistema de criação infinita de conteúdo de baixa qualidade — eufemismo para o termo “AI slop”.
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Um exemplo do mau uso da IA na Copa já apareceu em uma reportagem do Aos Fatos: perfis têm abusado da IA para desinformar e polarizar o tema. Páginas no Facebook, por exemplo, publicaram ao menos quatro conteúdos com frases que nunca foram ditas ou imagens que nunca foram registradas.

A mesma coisa vem acontecendo fora do país. Uma imagem falsa que mostra um torcedor fantasiado do ditador nazista Adolf Hitler, por exemplo, viralizou em diversas línguas como uma crítica à seleção da Alemanha.
Outra trend desinformativa criada com IA é a de “torcedoras gatas”. Diversas publicações têm compartilhado imagens de mulheres supostamente flagradas nas arquibancadas do campeonato para sugerir qual país teria as torcedoras mais atraentes.

Além de gerar engajamento, essas imagens também têm sido usadas para um tipo bem específico de “golpe”: alguns usuários aproveitam a viralização desse tipo de conteúdo para divulgar perfis no Telegram ou no OnlyFans e vender pornografia gerada por IA.
Essa história de criar torcedores falsos por meio de IA tem sido comum até em comunidades não relacionadas ao esporte. Páginas de fãs (ou até haters) de artistas têm feito imagens manipuladas para mostrá-los apoiando algum time.
Um exemplo é a Taylor Swift torcendo para o Brasil ao lado de Camila Cabello (veja abaixo).

Caso você esteja curioso, a foto real mostra a artista ao lado de sua mãe, Sinuhe Estrabao, que não se parece com Swift (veja abaixo).

Por fim, outro tipo de imagem que tem sido usada para tentar gerar engajamento são vídeos de torcedores brasileiros fazendo festa na Times Square, em Nova York. De fato há registros (veja aqui e aqui) de uma muvuca tradicional brasileira, mas vários vídeos publicados no TikTok semelhantes foram feitos por IA.
Um exemplo é uma gravação que mostra um Fuleco no meio da torcida em Nova York. Além de ser um mascote da Copa do Mundo de 2014, ele ainda veste uma camiseta com “bet nacional” escrito com letras estranhas.

E há quem use a IA para atacar os jogadores brasileiros. Uma montagem bem sutil que viralizou nas redes um dia após o jogo entre Brasil e Escócia, por exemplo, mostra Neymar levemente mais gordo. A imagem original (aos 85 minutos de jogo) evidencia que a barriga do camisa 10 foi editada artificialmente (veja abaixo).

Fora do âmbito das imagens artificiais, há também um tipo de conteúdo que, vamos combinar, não dá mais: previsões de quem vai ganhar a Copa. Até veículos de imprensa entraram nessa e noticiaram coisas como “IA prevê campeã”.
São tantos os problemas que vamos elencar:
- Ferramentas como o ChatGPT e o Claude são modelos de linguagem que preveem palavras para escrever textos;
- Não se sabe qual foi o prompt que gerou a tal “previsão”. Somam-se os casos de LLMs que tentam “bajular” o usuário, então não é difícil pensar que essas ferramentas mudem suas “previsões” de acordo com o usuário;
- E se IA fosse boa de fazer previsões, era só pedir os números da Mega Sena.
Para exemplificar, perguntamos três vezes para o ChatGPT (uma em um perfil pessoal e duas em abas anônimas) qual será a final da Copa do Mundo de 2026. Em uma, a ferramenta disse que França venceria o Brasil na final, em um jogo que termina em 2x1. Em outra, dá Espanha 2x1 França. E na última, Brasil 1x0 contra a Espanha.
No final, essas trends desinformativas mostram que não só a IA, mas também as redes, não compreendem o que é a Copa do Mundo para grande parte dos brasileiros.





