IA inunda redes com desinformação sobre a Copa

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O Brasil é outro país durante a Copa do Mundo de futebol. Pessoas andam de verde e amarelo independentemente do espectro político, bandeiras pipocam em todo lugar e imagens e notícias dos jogadores escalados aparecem 24 horas na televisão e nas redes sociais. É o momento em que a atenção de grande parte dos 213 milhões de brasileiros está voltada para o mesmo lugar.

Enquanto alguns enxergam, na Copa, um evento cultural para reunir os amigos, torcer pela seleção e passar um pouco do ponto no quesito consumo de álcool, outras pessoas veem o campeonato como uma oportunidade: se todo mundo quer saber da Copa, por que não obter engajamento com ela?

Nos últimos anos, tem sido mais fácil criar conteúdo sobre qualquer coisa. Com as ferramentas de IA, então, nem é preciso estar no local para criar imagens “exclusivas”. Em questão de minutos, artes e textos que poderiam levar horas para serem produzidos são publicados.

Então era de se esperar que, na primeira Copa do Mundo após a popularização da IA, a paixão nacional viraria alimento de todo um ecossistema de criação infinita de conteúdo de baixa qualidade — eufemismo para o termo “AI slop”.


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Um exemplo do mau uso da IA na Copa já apareceu em uma reportagem do Aos Fatos: perfis têm abusado da IA para desinformar e polarizar o tema. Páginas no Facebook, por exemplo, publicaram ao menos quatro conteúdos com frases que nunca foram ditas ou imagens que nunca foram registradas.

Uma imagem apresenta uma montagem de quatro fotografias dispostas em grade, todas sobrepostas por finas linhas diagonais pretas e com um pequeno círculo preto contendo as letras brancas 'af.' no canto inferior direito da composição. No quadro superior esquerdo, um homem de pele clara, cabelo curto e barba escuros, vestindo camiseta branca com o logotipo azul 'ge', segura um microfone em um ambiente urbano movimentado; na base, há o texto parcial em fundo amarelo: ‘Repórter da Globo diz que a próxima Copa deveria ser na Bahia: ‘Não aguento mais ver pessoas passando e gritando Bolsonaro’’. No quadro superior direito, um homem de camisa escura entrevista uma mulher de pele clara, cabelos loiros, óculos escuros e camisa amarela da seleção brasileira em frente a um estádio; o texto abaixo, com trechos em amarelo, diz: ‘Torcedora é perguntada se está gostando da Copa e responde: ‘Está ótimo, não tem nenhum petista aqui nos estádios. Como eles não gostam de trabalhar e só com auxílio do governo não dá, né?’’. No quadro inferior esquerdo, um homem de pele clara e barba escura com fios grisalhos veste camisa amarela e segura um cartaz de papelão escrito ‘PELA PRISÃO DE LULA E JANJA VOCÊ APOIARIA?’; na base, o texto destacado em amarelo informa: ‘Homem viraliza: ‘Troco o Hexa pela prisão de Lula e Janja, você apoiaria?’’. No quadro inferior direito, duas imagens lado a lado mostram um homem de pele parda, usando boné azul para trás e camisa preta, levando um objeto à boca, com a figura parcial de um policial ao lado; o texto sobreposto diz: ‘CARIOCA ACENDE 3RVA DENTRO DE ESTÁDIO NOS EUA E LEVA TAPA NO ROSTO DE POLICIAL; ‘A DIFERENÇA ENTRE O BRASIL E O MUNDO É AS ATITUDES QUE SÃO TOMADAS DENTRO DA SOCIEDADE’, DIZ INTERNAUTA’.

A mesma coisa vem acontecendo fora do país. Uma imagem falsa que mostra um torcedor fantasiado do ditador nazista Adolf Hitler, por exemplo, viralizou em diversas línguas como uma crítica à seleção da Alemanha.

Outra trend desinformativa criada com IA é a de “torcedoras gatas”. Diversas publicações têm compartilhado imagens de mulheres supostamente flagradas nas arquibancadas do campeonato para sugerir qual país teria as torcedoras mais atraentes.

Uma imagem exibe uma composição de quatro fotografias dispostas em grade, retratando mulheres em formato de retrato com pinturas faciais de bandeiras. No quadro superior esquerdo, uma mulher de pele clara e cabelos longos, ruivos e cacheados, usando uma camisa azul-escura com listras brancas nos ombros e um escudo amarelo, tem a bandeira da Escócia pintada na bochecha direita, acompanhada do texto 'Scotland' na base. No quadro superior direito, uma mulher de pele clara e cabelos longos e lisos escuros veste uma camisa amarela com listras azuis nos ombros, com a bandeira da Colômbia pintada nas bochechas e a inscrição 'Colombia' abaixo. No quadro inferior esquerdo, uma mulher de pele clara e cabelos longos escuros, vestindo uma blusa azul-escura, exibe a bandeira do Japão nas bochechas, sem texto sobreposto. No quadro inferior direito, uma mulher de pele escura e cabelos longos e ondulados escuros, vestindo uma camisa branca, possui a bandeira de Gana pintada na bochecha direita, com a palavra 'Ghana' na base. No canto inferior direito da composição geral, sobre um fundo claro, há um pequeno círculo preto contendo as letras brancas 'af.'.

Além de gerar engajamento, essas imagens também têm sido usadas para um tipo bem específico de “golpe”: alguns usuários aproveitam a viralização desse tipo de conteúdo para divulgar perfis no Telegram ou no OnlyFans e vender pornografia gerada por IA.

Essa história de criar torcedores falsos por meio de IA tem sido comum até em comunidades não relacionadas ao esporte. Páginas de fãs (ou até haters) de artistas têm feito imagens manipuladas para mostrá-los apoiando algum time.

Um exemplo é a Taylor Swift torcendo para o Brasil ao lado de Camila Cabello (veja abaixo).

Uma imagem dividida em dois painéis horizontais exibe duas cenas sequenciais cobertas por um denso efeito de granulação digital. Em ambos os quadros, duas mulheres de pele clara estão posicionadas lado a lado em uma arquibancada com assentos avermelhados. A mulher à esquerda possui cabelos longos e escuros e veste uma blusa azul curta de mangas compridas com listras amarelas, segurando um telefone celular. A mulher à direita possui cabelos longos e loiros, usa batom vermelho e veste uma blusa escura coberta por um tecido verde e amarelo com formato e cores semelhantes aos da bandeira do Brasil, além de portar um cordão escuro no pescoço. No painel superior, a mulher de cabelo escuro direciona o celular para a mulher loira, que segura o tecido no peito; no painel inferior, a mulher de cabelo escuro olha fixamente para o aparelho enquanto a mulher loira direciona o olhar para a frente.

Caso você esteja curioso, a foto real mostra a artista ao lado de sua mãe, Sinuhe Estrabao, que não se parece com Swift (veja abaixo).

Uma imagem dividida em dois painéis horizontais exibe duas cenas sequenciais. Em ambos os quadros, duas mulheres estão posicionadas lado a lado em uma arquibancada com assentos avermelhados. A mulher à esquerda possui cabelos longos e escuros, veste uma blusa azul curta de mangas compridas com listras amarelas nos braços e detalhes em amarelo no peito, e segura um telefone celular. A mulher à direita tem pele clara, cabelos loiros com franja, usa óculos de grau e veste uma blusa preta coberta por um tecido verde e amarelo com formato e cores semelhantes aos da bandeira do Brasil, além de portar um cordão escuro de credencial no pescoço. No painel superior, a mulher de cabelo escuro segura o celular um pouco mais alto e olha para a tela, enquanto a mulher loira olha em direção a ela ou ao aparelho, segurando o tecido no peito; no painel inferior, a mulher de cabelo escuro abaixa levemente as mãos, continuando a olhar para o celular, enquanto a mulher loira direciona o olhar para a frente.

Por fim, outro tipo de imagem que tem sido usada para tentar gerar engajamento são vídeos de torcedores brasileiros fazendo festa na Times Square, em Nova York. De fato há registros (veja aqui e aqui) de uma muvuca tradicional brasileira, mas vários vídeos publicados no TikTok semelhantes foram feitos por IA.

Um exemplo é uma gravação que mostra um Fuleco no meio da torcida em Nova York. Além de ser um mascote da Copa do Mundo de 2014, ele ainda veste uma camiseta com “bet nacional” escrito com letras estranhas.

Uma imagem com efeito de granulação exibe uma multidão reunida em um ambiente urbano com grandes painéis publicitários luminosos ao fundo, incluindo um com o logotipo da 'Coca-Cola'. Em primeiro plano, ao centro, há um homem de pele clara, cabelo curto escuro e barba, vestindo uma camisa com listras horizontais verdes e amarelas e segurando o que parece ser uma baqueta. À sua direita, encontra-se um mascote de canário amarelo com detalhes azuis na cabeça, vestindo uma camisa verde e amarela com o número '5' e a inscrição 'betNacional'. À esquerda, aparece um homem de pele escura usando um chapéu amarelo e camisa verde e amarela. Na extremidade direita, é visível o rosto de uma mulher de pele clara e cabelos longos e escuros com a boca aberta. As pessoas na multidão vestem roupas predominantemente verdes e amarelas e agitam bandeiras do Brasil. No centro da composição, há um ícone de reprodução de vídeo em formato de triângulo branco. Na parte superior, sobreposta à cena, uma caixa retangular branca contém o texto em letras pretas: 'Brazil fans completely took over NYC', seguido por emojis da bandeira do Brasil, da Estátua da Liberdade e de uma chama de fogo.

E há quem use a IA para atacar os jogadores brasileiros. Uma montagem bem sutil que viralizou nas redes um dia após o jogo entre Brasil e Escócia, por exemplo, mostra Neymar levemente mais gordo. A imagem original (aos 85 minutos de jogo) evidencia que a barriga do camisa 10 foi editada artificialmente (veja abaixo).

Uma imagem dividida em dois painéis verticais justapostos mostra o jogador de futebol Neymar — homem de pele clara, com cabelos e barba curtos e escuros —, vestindo o uniforme da seleção brasileira, composto por camisa amarela com o escudo da CBF e o número '10' em verde, calção branco com o número '10' em azul e munhequeiras brancas em ambos os pulsos. No painel da esquerda, a imagem está recoberta por finas linhas diagonais pretas e a figura do homem parece estar levemente distorcida horizontalmente, tendo ao fundo uma área superior azul e uma faixa inferior rosa brilhante. O painel da direita exibe a mesma fotografia em suas proporções normais e sem as linhas diagonais sobrepostas. No canto inferior direito da composição geral, sobre um fundo claro, há um pequeno círculo preto contendo as letras minúsculas 'af.' em branco.

Fora do âmbito das imagens artificiais, há também um tipo de conteúdo que, vamos combinar, não dá mais: previsões de quem vai ganhar a Copa. Até veículos de imprensa entraram nessa e noticiaram coisas como “IA prevê campeã”.

São tantos os problemas que vamos elencar:

  • Ferramentas como o ChatGPT e o Claude são modelos de linguagem que preveem palavras para escrever textos;
  • Não se sabe qual foi o prompt que gerou a tal “previsão”. Somam-se os casos de LLMs que tentam “bajular” o usuário, então não é difícil pensar que essas ferramentas mudem suas “previsões” de acordo com o usuário;
  • E se IA fosse boa de fazer previsões, era só pedir os números da Mega Sena.

Para exemplificar, perguntamos três vezes para o ChatGPT (uma em um perfil pessoal e duas em abas anônimas) qual será a final da Copa do Mundo de 2026. Em uma, a ferramenta disse que França venceria o Brasil na final, em um jogo que termina em 2x1. Em outra, dá Espanha 2x1 França. E na última, Brasil 1x0 contra a Espanha.

No final, essas trends desinformativas mostram que não só a IA, mas também as redes, não compreendem o que é a Copa do Mundo para grande parte dos brasileiros.

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