Haddad não ‘trava’ ao ser perguntado sobre privatização; vídeo foi editado

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Não é verdade que o pré-candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad (PT) não conseguiu responder a uma pergunta sobre a privatização da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). O corte usado em postagens nas redes altera a velocidade de reprodução e exclui o trecho da gravação original em que o ex-ministro da Fazenda conclui o raciocínio.

Postagens desinformativas reuniam ao menos 30 mil interações no Instagram e no Facebook até a tarde desta quinta-feira (30).

TAXADD NÃO CONSEGUE RESPONDER À PERGUNTA DE JORNALISTA E PASSA VERGONHA AO VIVO!

A imagem é uma montagem em formato vertical dividida em duas partes. Na parte superior, sobre um fundo escuro, aparece em letras grandes e brancas a frase 'PASSOU VERGONHA!'. Logo abaixo, ocupa a maior parte da imagem um frame de uma entrevista em estúdio. Fernando Haddad e Heródoto Barbeiro estão sentados frente a frente em poltronas, separados por uma pequena mesa redonda de madeira com dois copos de água. À esquerda está Barbeiro, que segura um cartão azul enquanto olha para o entrevistado. À direita está Haddad, que veste terno cinza e camisa branca, está sentado com as pernas cruzadas e faz um gesto com a mão direita estendida em direção ao apresentador. Ao fundo, há um painel azul com o logotipo 'Grupo Thathi' e a inscrição 'ELEIÇÕES 2026'. Na parte inferior da montagem, sobre uma faixa preta, aparece uma frase em letras brancas maiúsculas: 'TAXADD NÃO CONSEGUE RESPONDER À PERGUNTA DE JORNALISTA E PASSA VERGONHA AO VIVO!'.

Posts nas redes compartilham um vídeo editado para fazer crer que Fernando Haddad não soube responder a um questionamento sobre a privatização da Sabesp durante uma sabatina. As peças desinformativas cortam o fim da resposta do petista e congelam a imagem por alguns segundos para dar a impressão de que ele ficou sem reação.

Na entrevista, o jornalista Heródoto Barbeiro pergunta se a Sabesp era uma empresa estatal ou de capital misto. Neste momento, antes da resposta de Haddad, a gravação congela para sugerir que o petista “travou”.

Na gravação original, porém, Haddad responde imediatamente que a companhia era controlada pelo Estado, "como o Banco do Brasil". Na sequência, Barbeiro diz que a pergunta não havia sido respondida e insiste no tema.

Para concluir o raciocínio, Haddad pede calma ao entrevistador e começa a explicar que o Banco do Brasil, assim como a Sabesp, é uma companhia estatal com ações negociadas em bolsa. Antes que termine o argumento, Barbeiro volta a interrompê-lo e afirma ter aprendido que empresas de capital misto não poderiam ser consideradas estatais.

É nesse momento que se encerra o vídeo compartilhado nas redes, criando a falsa impressão de que Haddad não soube responder ao questionamento. Na gravação original, a discussão continua e o petista responde:

“O que define uma empresa ser estatal ou não, é o controle. A Petrobras, a antiga Sabesp, o Banco do Brasil, a antiga Eletrobrás antes da privatização, eram empresas estatais de capital aberto, mas empresa estatal. O privado participava como sócio minoritário, mas o controle é estatal”, disse, em referência ao controle acionário das empresas citadas.

Barbeiro então pede que Haddad explique melhor a diferença entre empresa pública, sociedade de economia mista e empresa privada, afirmando que essa distinção é "confusa para muita gente".

O petista reforça que a classificação depende de quem exerce o controle acionário, e não apenas da existência de acionistas privados, e detalha que Petrobras, Banco do Brasil e a antiga Sabesp eram sociedades de economia mista sob controle estatal:

“Você tem três [tipos]: a empresa 100% pública, como a Caixa Econômica Federal; você tem uma empresa de capital misto com controle estatal, caso da Petrobras, caso do Banco do Brasil, caso das antigas Sabesp antes da privatização, [e empresas privadas]. O que o Tarcísio vendeu foi o controle da companhia, prometendo que a conta ia cair, e ela subiu, e o serviço piorou. É disso que estamos falando”.

Ou seja, há três tipos:

  • Empresa pública: Criada pelo governo (União, estados ou municípios) cujo dinheiro e patrimônio pertencem 100% ao Estado.
  • Sociedade de economia mista: Empresa formada com a união de dinheiro público e dinheiro de pessoas particulares (investidores);
  • Empresa privada: Empresa cujo capital e controle pertencem a particulares (pessoas físicas ou jurídicas de direito privado), sem participação majoritária ou controle do Estado.

Já o termo “empresa estatal” pode englobar tanto empresas públicas quanto sociedades de economia mista.

A gravação completa está disponível abaixo. O trecho manipulado pelas publicações começa aos 22min05s.

A privatização da Sabesp foi concluída em julho de 2024, quando o governo paulista vendeu o controle da companhia em uma operação de cerca de R$ 14,8 bilhões. Com a transação, a participação do Estado caiu de pouco mais de 50% para cerca de 18%. A Equatorial tornou-se a investidora de referência.

Com a privatização, a Sabesp mudou de regime: de economia mista para empresa privada.

A operação foi defendida pelo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) sob o argumento de ampliar os investimentos em saneamento e antecipar a universalização do serviço até 2029. O plano prevê investimentos de R$ 69 bilhões para ampliar o acesso à água potável e à coleta e ao tratamento de esgoto.

Desde a privatização, a empresa passou a registrar crescimento dos resultados financeiros. No primeiro trimestre de 2026, a Sabesp teve aumento do lucro líquido, por exemplo. Ao mesmo tempo, dados da Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo) apontam aumento no número de reclamações de consumidores em 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior.

O processo de privatização também foi alvo de críticas de representantes dos trabalhadores. Segundo o Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo), mais de 2 mil funcionários foram demitidos desde a privatização. A entidade afirma que a redução do quadro aumenta o risco de falhas na manutenção e de acidentes.

O tema voltou ao debate público em maio deste ano, após uma obra realizada pela companhia no bairro do Jaguaré, na zona oeste da capital paulista, atingir uma tubulação de gás. A explosão destruiu imóveis e deixou ao menos uma pessoa morta, reacendendo discussões sobre a atuação da empresa após a privatização.

Esta peça de desinformação também foi checada pela Reuters.

O caminho da apuração

Por meio de busca reversa, Aos Fatos localizou a gravação completa da sabatina e comparou o trecho original com a versão compartilhada nas redes sociais, confirmando que o vídeo foi editado para interromper a resposta de Fernando Haddad.

A reportagem também consultou informações na imprensa sobre a privatização da Sabesp para contextualizar a checagem.

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