Vídeo em que Guedes diz que Bolsonaro ‘não mandava em nada’ é montagem

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Não é verdade que Paulo Guedes, ministro da Economia no governo de Jair Bolsonaro (PL), disse que o ex-presidente “não mandava em nada” e “dependia dos filhos para aprovar tudo”. O registro que circula nas redes teve o áudio manipulado por IA para imitar a voz do economista e foi sobreposto a uma entrevista concedida por ele a um podcast em 2024.

Publicações com o conteúdo enganoso acumulavam cerca de mil compartilhamentos no Facebook, 2.000 visualizações no TikTok e 7.500 visualizações no Kwai até a tarde desta quarta-feira (15).

Guedes afirma que Bolsonaro não mandava em nada, quem mandava eram os filhos. Isso significa que a cagada foi entre família.

Imagem com fundo em tons de azul e um retrato de Paulo Guedes, um homem idoso, em primeiro plano. Ele tem cabelos grisalhos, usa óculos e tem uma expressão séria, vista de perfil parcial. Na parte superior, há um texto em branco que diz: ‘Paulo Guedes conta sobre os filhos do presidente Bolsonaro’. Sobreposto ao centro da imagem, há uma faixa branca com letras pretas dizendo ‘BOLSONARO NÃO MANDAVA EM NADA’. 

Posts nas redes têm compartilhado um vídeo com áudio manipulado por IA para fazer crer que Paulo Guedes teria dito que Bolsonaro “não mandava em nada” e dependia da aprovação dos filhos para governar. O áudio enganoso foi incorporado à gravação de uma entrevista concedida por Guedes ao podcast Os Economistas em 2 de abril de 2024.

O programa tem cerca de 1h20 de duração e, em nenhum momento, os nomes do presidente e de seus filhos são citados.

Em busca nas redes e na imprensa, Aos Fatos também não encontrou registros de declarações similares de Guedes.

Além disso, a gravação revela inconsistências compatíveis com o uso de IA, como o tom de voz artificial e monotônico, a fala com pausas pouco naturais e as distorções no movimento dos lábios.

Orçamento secreto. O vídeo desinformativo também aborda uma suposta ligação entre os filhos de Bolsonaro, o orçamento secreto e Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio e atualmente subsecretário de Segurança e Ordem Pública de Saquarema (RJ).

É fato que Queiroz chegou a ser preso em 2020 sob suspeita de operar a chamada “rachadinha” — um esquema de desvio de salários de servidores — na época em que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) era deputado estadual pelo Rio de Janeiro. Ele deixou a prisão no ano seguinte, e a ação acabou sendo encerrada em 2022 por motivos processuais.

No entanto, não há registros de investigações ou acusações que relacionem Queiroz ao orçamento secreto, que é a distribuição de recursos federais pelo Congresso por meio das chamadas emendas de relator, que já existiam no Orçamento, mas foram turbinadas a partir de 2020, no governo Bolsonaro.

O mecanismo permitia a parlamentares direcionar recursos do orçamento público a projetos sem a devida transparência sobre a autoria das indicações.

Esta peça de desinformação também foi checada pelo Estadão Verifica.

O caminho da apuração

Por meio de busca reversa, Aos Fatos encontrou a gravação original. Em seguida, a reportagem utilizou a ferramenta Escriba para transcrever o conteúdo da entrevista e constatou que não há menção a Bolsonaro ou seus filhos.

As imagens também foram analisadas em busca de indícios de manipulação por IA. Por fim, complementamos a checagem com informações publicadas pela imprensa sobre o processo contra Fabrício Queiroz no caso da “rachadinha”.

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