O governo Lula tem promovido uma campanha com informações enganosas para atribuir ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a responsabilidade pelo esquema de descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
Um levantamento realizado pelo Aos Fatos identificou ao menos 60 publicações no Instagram, veiculadas por parlamentares ligados ao governo e por influenciadores de esquerda, que somavam cerca de 1,1 milhão de interações, entre curtidas e comentários, até a tarde desta segunda-feira (19).
Segundo relatos à imprensa, a Secom (Secretaria de Comunicação Social) orientou a base governista a produzir peças rebatendo a gravação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) sobre a fraude, que alcançou mais de 100 milhões de visualizações e também possui informações distorcidas sobre o escândalo.
O objetivo seria reforçar que os desvios não começaram no governo Lula, mas sim que teriam se encerrado com ele, transferindo a responsabilidade pela crise à gestão Bolsonaro.
A campanha tem respaldo no próprio Lula, que afirmou em mais de uma ocasião que a quadrilha envolvida nos crimes foi criada em 2019, durante o governo do ex-presidente, o que não é verdade.
“Nós resolvemos desmontar uma quadrilha que foi criada em 2019. É importante saber, uma quadrilha que foi criada em 2019. E vocês sabem quem governava o Brasil em 2019, vocês sabem quem era ministro da Previdência em 2019, vocês sabem quem era chefe da Casa Civil em 2019”, afirmou o presidente durante entrevista à imprensa no sábado (10).
Argumentos enganosos
A campanha se baseia em dois argumentos centrais. O primeiro, repercutido por 55 das 60 publicações analisadas, afirma que o esquema de descontos indevidos teve início em 2019, durante o governo Bolsonaro.

A alegação é a mesma repercutida por Lula e pelo Partido dos Trabalhadores em entrevistas e nas redes. No entanto, investigações da CGU (Controladoria-Geral da União) e da PF (Polícia Federal) ainda não determinaram a data de início das fraudes.
Há indícios de que o problema remonta ao menos a 2016, no governo do presidente Michel Temer. Em relatório, a CGU apontou que a digitalização de serviços do INSS implementada pela gestão Temer, sem a adoção de medidas de segurança, pode ter facilitado esse tipo de golpe, sobretudo considerando o perfil dos beneficiários.
Além disso, mudanças legislativas para afrouxar a fiscalização sobre as entidades, em 2019 e 2022, e a falta de ação da autarquia contra fraudes ao longo dos mandatos de Temer, Bolsonaro e Lula contribuíram para a escalada de casos.
Menos comum, o segundo argumento usado por apoiadores do governo distorce o conteúdo da Lei nº 13.846, sancionada em 2019. As publicações afirmam ou dão a entender que a norma teria impedido a fiscalização dos contratos que autorizam o desconto de mensalidades associativas nos benefícios do INSS, o que é falso.

Na realidade, a medida exigia uma revalidação das autorizações a cada três anos, contados a partir de 31 de dezembro de 2021. Na prática, isso obrigava as associações a comprovar que as mensalidades eram autorizadas pelos aposentados e pensionistas, e não impedia o INSS ou outros órgãos de realizar auditorias ou cancelamento de contratos fraudulentos no meio tempo.
Principais atores
Dentre os conteúdos analisados pelo Aos Fatos, um dos mais populares é um vídeo publicado pelo deputado federal André Janones (Avante-MG), no qual ele afirma não só que os desvios começaram em 2019, mas também que a quadrilha por trás das fraudes “foi montada por Bolsonaro”.
A gravação acumula 3,3 milhões de visualizações e mais de 40 mil comentários no perfil do parlamentar. O mesmo vídeo também também foi republicado por perfis governistas, como a página Seremos Resistência, onde acumula 1,5 milhão de visualizações e mais de 112 mil interações.

O PT, por sua vez, produziu uma série de vídeos com o objetivo de associar diretamente o escândalo ao governo Bolsonaro. Em um deles, afirma que “o golpe dos descontos começou no governo Bolsonaro” e que o ex-presidente retirou o controle sobre a fiscalização dos descontos, facilitando a aplicação de golpes.

Em outra gravação, o partido de Lula afirma que a CGU começou as investigações “após quatro anos de roubo durante o governo Bolsonaro”. Em publicação recente, a sigla também alega que o esquema teve início em 2019 e foi prolongado graças à ajuda de aliados do ex-presidente.
Aos Fatos identificou que ao menos 17 parlamentares da base aliada compartilharam os vídeos enganosos e reafirmaram, sem comprovação, que o esquema teve início durante o governo Bolsonaro. Além disso, partidos aliados como o PSOL e o PCdoB também produziram publicações próprias disseminando o argumento enganoso.
Repercussão
A narrativa também foi replicada por páginas e influenciadores no Instagram. O conhecido perfil de fofocas Otariano, em uma publicação com cerca de 40 mil interações, afirmou que as fraudes tiveram início em 2019.
Outras páginas alinhadas à esquerda ou de apoio ao governo Lula — como Burguesia Fede, Esquerda Sexy e Eu Tô Com Lula — também compartilharam ao menos uma das informações enganosas que circulam sobre o escândalo.
A influenciadora de esquerda Aline Bardy Dutra, conhecida como Esquerdo Gata, publicou um vídeo em que pergunta a uma comentarista: “Quem era o presidente em 2019, quando todo o escândalo foi descoberto?”. Na sequência, corrige-se por meio do texto em tela: “Ops, descoberto não, iniciado”.
Outro lado
Procurada pelo Aos Fatos, a assessoria do deputado federal André Janones disse que não iria comentar a reportagem. Também entramos em contato com a Secom e com a assessoria do PT para que eles pudessem comentar a reportagem, mas não houve retorno até a publicação deste texto.
O perfil Eu Tô Com Lula disse que seu conteúdo "tem por base as informações amplamente divulgadas pela CGU, PF e por toda a grande mídia". Também procuramos as equipes de Dutra e das outras páginas citadas, que também não responderam.
O caminho da apuração
Aos Fatos realizou uma busca manual no Instagram a partir de termos-chave relacionados ao tema, como “inss” e “2019”, e também a partir do perfil do PT na rede social. Também consultamos checagens realizadas pela equipe sobre os desvios e informações na imprensa para fins de contextualização.
Esta reportagem foi atualizada às 17h48 do dia 19.mai.2025 para acrescentar o posicionamento do deputado André Janones.
Esta reportagem foi atualizada às 14h30 do dia 12.jun.2025 para acrescentar o posicionamento da página Eu Tô Com Lula.




