O golpismo e os vários sabores da democracia

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Como abordar o 8 de Janeiro de 2023 numa série documental como Ctrl+Fake? Aos Fatos já havia criado, anos antes, o Golpeflix, imenso catálogo digital que preserva parte das mídias conspiratórias usadas para mobilizar radicais a tomar a Praça dos Três Poderes. De modo que tínhamos em mãos um enorme acervo documental do golpismo, mas, junto a ele, a função de encontrar um recorte que não repetisse o que já parecia exaustivamente narrado. Parece que tudo já foi feito em matéria de golpismo — e de como cobri-lo.

Embora o 8 de Janeiro seja, em muitos aspectos, uma imitação perversa do 6 de Janeiro americano — mais próxima da dimensão farsesca do que da trágica —, seus perpetradores foram julgados e, quando condenados, efetivamente presos. O quarto episódio de Ctrl+Fake, que estreia agora, foi o último entre os cinco produzidos a ser finalizado, porque o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro estava acontecendo justamente enquanto escrevíamos os roteiros finais da série. O texto foi refeito inúmeras vezes porque foi concebido em um ambiente político diferente daquele em que foi entregue.

Mais do que retratar a tentativa de golpe, o quarto episódio da série documental do Aos Fatos aborda o ineditismo de responsabilizar autoridades públicas por, entre outras barbaridades, atentarem contra a democracia com o uso oficial e intencional da desinformação. Ao fim do julgamento pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, em setembro, tínhamos a confirmação histórica e jurídica do que vínhamos narrando desde 2018 com base em infinitas métricas de engajamento e sob constantes tentativas de intimidação. A cobertura jornalística do Aos Fatos subsidiou decisões e demonstrou o poder da desinformação golpista ao Judiciário e, agora, a responsabilização dos golpistas confirmava nossa dedicação.

“Então, eu tenho para mim que há um acervo enorme de provas a indicar os planos de tomada do poder pela ruptura institucional ou pela permanência forçada, o que não ficou no mundo das ideias nem de registros particulares”, afirmou a ministra Cármen Lúcia durante a leitura do seu voto no julgamento.

Cabia à produção, agora, ilustrar como a lógica das plataformas digitais funcionava como uma espécie de vitrine de participação política. O golpismo, conforme demonstrou o STF, não operou como uma conspiração secreta — ainda que, por exemplo, o silêncio de Bolsonaro após a derrota eleitoral tenha sido percebido como tal. Nada disso. O vácuo deixado pelo ex-presidente foi rapidamente preenchido por lives, correntes de WhatsApp e vídeos que prometiam uma “intervenção militar constitucional”. A mobilização já não dependia de ordens explícitas. Ela operava por meio da circulação contínua de sinais, interpretações e performances públicas de pertencimento político coletivo. E delírio, claro, porque estamos falando também de um estado constante de enganação.

Isso ajuda a explicar por que os próprios invasores transmitiram a depredação ao vivo, monetizaram esses conteúdos e registraram a tentativa de golpe em tempo real. Existe uma visão mais ou menos nova da cidadania, em que ela deixa de ser uma ação coletiva organizada e passa também a funcionar como uma performance permanente para a audiência digital. As redes produzem uma sensação contínua de participação — comentar, compartilhar, reagir, transmitir — mesmo quando esse engajamento contribui para corroer as regras mínimas que sustentam a vida democrática.

E a vida democrática… Bem, o que nos resta é preservar uma ideia de democracia que não seja fragmentada pela hipersegmentação do digital. Se as plataformas privadas passam a organizar a experiência pública de participação política, é realista esperar que elas também entreguem a seus usuários diversos sabores de democracia. Quando diferentes grupos passam a operar com versões distintas do que entendem por democracia — muitas vezes tratando o processo democrático apenas como válido quando confirma suas próprias expectativas políticas —, o espaço comum necessário para sustentar a vida democrática começa a se desfazer.



Agora em áudio: os três primeiros episódios de Ctrl+Fake estão disponíveis em formato de podcast nas principais plataformas do gênero, como Spotify, Deezer, Apple Podcasts e Amazon Music. Comece a ouvir agora.

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