Reportagem da TV Globo não associa Lula, Dilma e FHC a execuções na ditadura

Por Marco Faustino

13 de maio de 2022, 15h56

Não é verdade que uma reportagem da TV Globo relacionou políticos como Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Dilma Rousseff (PT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB) a execuções de guerrilheiros por seus pares na ditadura militar e, por isso, foi “enterrada” a pedido do PT, como dizem postagens (veja aqui). As alegações não aparecem na reportagem original, que foi veiculada em 1996 e está no portal G1. O vídeo também insere alegações falsas sobre a ex-presidente Dilma e uma entrevista que é de um filósofo russo, não de um general.

Publicações que difundem o vídeo editado somavam 71 mil compartilhamentos no Facebook nesta sexta-feira (13).


Selo falso

Esse arquivo dos anos 80 foi "enterrado" pela Rede Globo a pedido do PT, que pagou uma grana para enterrarem. Porém, havia uma cópia que vazou e temos que divulgar a todos os brasileiros.

Posts difundem reportagem falsa do Fantástico sobre justiçamentos na Ditadura

Circula nas redes sociais um vídeo com a alegação falsa de que seria uma reportagem da TV Globo exibida nos anos 1980, e posteriormente censurada a pedido do PT, que relaciona os ex-presidentes Lula, Dilma Rousseff e Fernando Henrique Cardoso a “justiçamentos” — mortes de militantes de esquerda por seus pares — na ditadura militar. As alegações não constam na reportagem original que, segundo a emissora, jamais foi ocultada.

“[O vídeo] não estava disponível na internet porque a matéria do Fantástico é de 1996, época em que ainda não era costume a publicação das matérias jornalísticas na internet após a exibição na TV”, diz a Globo em nota. A reportagem original, que tem cinco minutos e 50 segundos — menos da metade da duração da peça de desinformação — foi publicada no G1, portal de notícias do grupo. A assessoria do PT também nega que tenha pedido a ocultação do arquivo.

Justiçamentos. A reportagem citada foi veiculada em 28 de julho de 1996 no Fantástico. Nela, o ex-guerrilheiro Carlos Eugênio Sarmento da Paz diz que quatro militantes (Salatiel Teixeira Rolim, Carlos Alberto Maciel Cardoso, Francisco Jacques Moreira de Alvarenga e Márcio Leite de Toledo) foram executados sumariamente por seus próprios pares sem direito à defesa — os chamados “justiçamentos”.

As fotos e legendas com os nomes de Dilma, Lula e FHC não aparecem na reportagem original, tampouco as imagens de José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil; Franklin Martins, ex-secretário da Comunicação Social; e Carlos Marighella (1911-1969), guerrilheiro e ex-deputado federal.

“O vídeo que está circulando é fruto de uma falsificação grosseira (...). Participei de todas as etapas - produção, reportagem em si, edição. Lula, Dilma, FHC, José Dirceu, Franklin Martins e Marighella não são citados como autores de justiçamentos”, afirmou o jornalista Fernando Molica, autor da reportagem, ao Aos Fatos. Lucas Ferraz, autor do livro “Injustiçados”, que fala sobre mortes de militantes nos chamados “tribunais revolucionários”, também disse que não há registros de execuções por parte dessas pessoas.

A reportagem do Fantástico afirma que algumas mortes foram ordenadas por guerrilheiros da Ação Libertadora Nacional (ALN), fundada por Carlos Marighella. Segundo Ferraz, embora Marighella tenha escrito que os guerrilheiros deveriam recorrer a essas execuções, ele não participou de nenhum dos quatro casos citados pelo Fantástico. Marighella foi assassinado em 1969, e os documentos se referem a mortes ocorridas em 1973.

Dilma. Depois da reportagem, são inseridas no vídeo alegações falsas sobre a ex-presidente Dilma Rousseff. A primeira delas é acompanhada de uma narração sobre a morte do major alemão Edward von Westernhagen, assassinado pelo grupo guerrilheiro Colina (Comando de Libertação Nacional) em 1968.

A narração afirma que o STM (Superior Tribunal Militar) negou um pedido da Folha de S.Paulo, em 2010, para abrir o processo que levou ela à prisão. Em novembro daquele ano, quando o vídeo editado já circulava nas redes, o STM permitiu o acesso do jornal ao processo, o que mostrou não haver evidência da participação da ex-presidente no crime.

Dilma também não participou do atentado a um quartel do Exército em São Paulo que resultou na morte do soldado Mário Kozel Filho, em junho de 1968. A ação foi da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), grupo guerrilheiro do qual Dilma não fez parte, como Aos Fatoschecou.

Também é falso que Dilma participou do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick em setembro de 1969. A ação foi assumida pela ALN e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), grupos que a petista não integrou. Essa alegação foi inserida em trecho de uma entrevista com a ex-guerrilheira Vera Silvia Magalhães (1948-2007) à TV Câmara, em 2003, sete anos após a reportagem do Fantástico. Vera não cita Dilma ou possível envolvimento da ex-presidente no sequestro de Elbrick.

O vídeo editado mostra ainda uma montagem que insere um fuzil ao lado de uma foto de Dilma Rousseff, registrada pelo fotógrafo Olderige Zardo em 1988, quando a ex-presidente era secretária municipal da Fazenda de Porto Alegre.

Comparativo entre a imagem verdadeira (à esq.) e a falsa (à dir.)
Manipulação. Comparativo mostra que na imagem verdadeira (à esq.) Dilma não aparece ao lado de um fuzil como na imagem falsa (à dir).

Falso general. O vídeo termina com uma entrevista em russo, que seria de um general chamado Anatholy Navashki. Na verdade, quem aparece é o filósofo e economista Mikhail Vasiyevich Popov. O trecho foi retirado de uma entrevista em que ele compara a produtividade da Rússia a países como o Brasil, e pondera que Lênin e Stálin acreditavam ser mais fácil promover a revolução em nações com pouco desenvolvimento.

A entrevista original está disponível no site Oper.ru e no YouTube. Popov não menciona a ditadura militar nem ações de guerrilheiros comunistas no Brasil. Aos Fatos também não encontrou indícios da existência de um general russo chamado Anatholy Navashki, nem da atuação de alguém com esse nome no Brasil no período da ditadura.

Essa peça de desinformação também foi checada por Estadão Verifica e Fato ou Fake.

Referências:

1. G1
2. FGV (Fontes 1, 2)
3. Folha de S.Paulo (Fontes 1, 2, 3 e 4)
4. O Globo
5. Marxists
6. Aos Fatos
7. Câmara dos Deputados (Fontes 1 e 2)
8. UOL
9. Oper.ru
10. YouTube


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