Não são reais as fotos que mostram garis segurando cartazes com críticas ao presidente Lula (PT), diferente do que afirmam nas redes sociais. As imagens foram geradas por meio de inteligência artificial, como atesta a ferramenta de verificação da OpenAI. Além disso, as fotografias possuem anomalias típicas de geração de conteúdo sintético.
Postagens com o conteúdo enganoso reuniam ao menos 200 mil curtidas no Instagram até a tarde desta quinta-feira (3).
Um grupo de garis chamou atenção nas redes sociais ao participar de uma manifestação em defesa da categoria e exibir a mensagem: ‘Pelo menos nós trabalhamos, não estamos roubando o país’.

Publicações têm compartilhado uma foto gerada por IA para sugerir que garis teriam feito um protesto na capital paulista contra o presidente Lula.
Aos Fatos submeteu a imagem à ferramenta de identificação da OpenAI, que confirmou que o conteúdo foi criado por sua tecnologia. O mecanismo identifica se a foto contém “sinais de procedência associados a imagens geradas por ferramentas da OpenAI”, como metadados e marcas d’água, como ocorreu no caso abaixo.

Características presentes na imagem também indicam que se trata de um conteúdo sintético, como a fonte usada nos cartazes — que tem um aspecto artificial para algo feito à mão. Também é possível identificar anomalias no registro, como a ausência de faixa refletora na manga da camiseta de um dos garis, enquanto as roupas dos colegas dele possuem esse destaque.
Algumas peças de desinformação mostram uma segunda foto, em que outros três homens aparecem com os mesmos cartazes. Ela também foi gerada por ferramentas da OpenAI (veja abaixo).

As peças de desinformação passaram a viralizar nas redes após uma fala do presidente Lula (PT) sobre a categoria em um evento em Belo Horizonte no último sábado (29). Na ocasião, o petista afirmou:
“Eu, quando eu passo na rua e eu vejo aquelas pessoas que trabalham colhendo lixo, é uma profissão muito pobre, porque não é uma profissão que dá orgulho: ‘Eu sou lixeiro’. O cara tem orgulho de falar: ‘Eu sou engenheiro’, ‘eu sou médico’. Mas lixeiro é uma coisa pobre de quem não pôde estudar. Eu fico pensando se aquelas pessoas que fazem a limpeza na rua soubessem a importância do trabalho deles. Que se eles não tirarem lixo durante uma semana, as pessoas que não enxergam ele durante o dia inteiro vão passar a enxergar. A gente começa a mudar, porque o pobre é tratado como se fosse invisível. As pessoas não enxergam a maioria dos pobres”.
Trechos da fala foram compartilhados para acusar o petista de ter “tirado sarro” da profissão.
Com exceção de vídeos pessoais de garis respondendo à fala de Lula, Aos Fatos não encontrou nenhum protesto semelhante ao mostrado nas peças de desinformação em busca feita na imprensa.
Além dessa publicação, Aos Fatos também desmentiu que o governo Lula teria proibido os garis de usarem o estribo — espécie de degrau externo dos caminhões usado pelos coletores para “pegar carona” no veículo.
O caminho da apuração
Aos Fatos fez o download das duas imagens e as submeteu às ferramentas de identificação de marcas de geração artificial da OpenAI, que acusou a presença de marcas d’água de produção por IA em ambas as fotos. A reportagem também analisou as imagens em busca de anomalias.
Por fim, Aos Fatos procurou notícias sobre protestos de garis contra o presidente Lula, mas não encontrou nada que fosse semelhante ao que tem sido compartilhado nas redes.





