Imagens de caixões vazios não mostram fraude no número de casos da Covid-19

Por Ana Rita Cunha e Luiz Fernando Menezes

30 de abril de 2020, 14h16


Imagens que mostram um caixão vazio desenterrado não são atuais nem foram feitas no Amazonas em meio ao surto de Covid-19, como afirmam publicações nas redes sociais (veja aqui). Uma foto e um vídeo que têm sido usados para sugerir que o estado estaria inflando o número de mortos pela pandemia foram feitos, na verdade, em maio de 2017 em São Carlos (SP) durante uma investigação da Polícia Civil sobre fraudes em seguros de vida.

A mesma alegação falsa também circula acompanhada de outras imagens. Um frame de uma reportagem da Band, por exemplo, foi usado como se mostrasse o enterro de caixões vazios em Manaus (veja aqui). A matéria, no entanto, apenas noticiava a realização de sepultamentos de vítimas da Covid-19 em valas comuns na cidade. Outra postagem reproduz a foto de um caixão vazio (veja aqui) que circula na internet pelo menos desde 2018.

As peça de desinformação têm sido veiculada em posts de páginas e perfis pessoais no Facebook que, juntas, acumulavam mais de 800 mil compartilhamentos até a tarde deste sábado (2). Todos foram marcados com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona).


FALSO

Denuncia gravíssima. No amazônia. Caixões vazios. Só pra causar pânico na população com número alto de óbito por covid-19.

Não são atuais e nem foram registrados no Amazonas uma foto e um vídeo que mostram um policial inspecionando um caixão vazio que acabara de ser desenterrado em um cemitério. As imagens foram feitas em São Carlos (SP) e publicadas em 30 de maio de 2017 em reportagens do G1 e do site de notícias São Carlos Agora sobre uma investigação da Polícia Civil de um caso de fraude em seguros de vida no município. Portanto, é falso que as imagens comprovem que o Amazonas tem inflado o número de mortos por Covid-19 com enterros fictícios, como sustentam publicações nas redes sociais.

A situação também foi noticiada por outros veículos, como o portal UOL. Em março de 2017, por meio de denúncia anônima, a Polícia Civil de São Paulo descobriu um esquema de fraude de seguro de vida para resgatar apólices com valores entre R$ 800 mil e R$ 1,4 milhão. Em maio, durante uma diligência no cemitério da cidade, foi desenterrado o caixão vazio, onde deveria estar sepultada uma moradora de rua. O fato ajudou a comprovar a fraude denunciada.

Nos últimos dias, além da foto e do vídeo, publicações nas redes sociais têm compartilhado links para reportagens sobre a fraude em São Carlos sem a devida indicação de data e local, de modo a fazer parecer que o caso ocorreu no Amazonas recentemente.

Há ainda peças de desinformação que fazem as mesmas alegações falsas usando outras imagens. Um frame de reportagem exibida pela afiliada da Band no estado em 28 de abril, por exemplo, tem sido veiculado como se fosse uma denúncia de enterros feitos com caixões vazios. Porém, a matéria veiculada tratava apenas da adoção de valas comuns nos sepultamentos. Outra postagem usa uma foto de caixão vazio que circula na internet pelo menos desde 2018 como se tivesse relação com a pandemia atual.

Em nota enviada ao Aos Fatos, a prefeitura de Manaus nega a afirmação de que caixões vazios estariam sendo enterrados na cidade para causar pânico: "Com a alta demanda [de sepultamentos], a prefeitura adotou, no cemitério Nossa Senhora Aparecida, no bairro Tarumã, zona Oeste, o sistema de trincheiras, conforme mostrado na imagem [da Band], para fazer o sepultamento preservando a identidade dos corpos e os laços familiares."

O Amazonas vive um colapso no sistema funerário, principalmente na capital, em meio a pandemia do novo coronavírus. Em Manaus, a média diária de enterros saltou de 30 para mais 100 em abril e a prefeitura avalia que há risco de falta de caixões para novos sepultamentos. O estado já registrou 4.801 casos confirmados do novo coronavírus e 380 mortes pela Covid-19 até quarta-feira (29), segundo o boletim mais recente divulgado pela Secretaria de Saúde de Amazonas.

Referências:

1. São Carlos Agora
2. UOL
3. G1 (Fontes 1 e 2)
4. Band Amazonas
5. O Globo
6. Secretaria de Saúde do Amazonas


Esta checagem foi atualizada às 18h do dia 2 de maio de 2020 para acrescentar a nota da prefeitura de Manaus e mais informações sobre outras versões da peça de desinformação que têm circulado nas redes.

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